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Mauricio Camargo/Obritonews![]() Jader Barbalho, alvo de mais uma denúncia: "É absurdo, é armação para ferir minha honra" |
Na semana passada, o ofidiário do PMDB agitou seu chocalho para
o Palácio do Planalto. Pediu uma reforma ministerial para julho,
clamou por mais verbas para seus ministérios, lançou uma
nota emparedando o presidente Fernando Henrique no caso da escolha de
um novo ministro, destilou doses generosas de veneno contra o Banco Central
e encerrou a semana emplacando outro nome no governo: o senador Ramez
Tebet, do PMDB de Mato Grosso do Sul, que passa a comandar o Ministério
da Integração Nacional. Parecia que estava tudo certo. Com
a eterna ameaça de lançar o governador Itamar Franco como
candidato presidencial em 2002, as cobras criadas do PMDB estavam tirando
proveito do governo com a desinibição de sempre. Mas, mais
uma vez, o senador Jader Barbalho, presidente do Congresso Nacional e
um dos papas do partido, estragou a festa: acabou a semana atropelado
por nova denúncia desta vez, de ter se beneficiado com títulos
da dívida agrária, num negócio de alguns milhões
de reais.
O rolo apareceu nas páginas da revista IstoÉ e diz o seguinte: em 1988, quando era ministro da Reforma Agrária, Jader conseguiu que o governo assinasse um decreto de desapropriação de uma fazenda no Pará a fazenda Paraíso, de 58.000 hectares. Em novembro de 1988, a fazenda foi desapropriada por 5,3 milhões de reais, em valores de hoje. O pagamento ao proprietário, Vicente de Paula Pedrosa da Silva, foi feito com títulos da dívida agrária, as TDAs. Em seguida, Pedrosa da Silva vendeu os títulos a um banqueiro, Serafim Rodrigues de Moraes, então dono do Agrobanco. Pedrosa da Silva recebeu um cheque, assinado pela mulher do banqueiro, Vera Arantes Campos, cujo valor é incerto, mas passa da casa do milhão de reais. A negociação foi feita num hotel de São Paulo. Assim que o cheque foi entregue a Pedrosa da Silva, o casal Serafim e Vera avistou Jader Barbalho num canto do saguão do hotel. Daí, nasceu a suspeita de que Jader Barbalho foi o verdadeiro destinatário do dinheiro.
Orlando Brito/Obritonews![]() O presidente, pressionado de todos os lados pelas cobras criadas do PMDB: em entrevista a uma televisão, Fernando Henrique se disse "cansado dessa politicalha" |
Na sexta-feira, já de volta ao seu Estado, o Pará, Jader Barbalho defendeu-se das acusações. "É um absurdo, uma armação, uma tentativa de atingir a minha honra como homem público", afirmou. É óbvio que a mera presença de Jader no saguão de um hotel onde se negociavam TDAs não o vincula, necessariamente, ao negócio. A revista IstoÉ, no entanto, traz mais uma ponta de indício: é um telefonema entre o casal de banqueiros que comprou as TDAs e um subprocurador da República aposentado, Gildo Ferraz. Nesse telefonema, que foi gravado, o casal de banqueiros revela sua suspeita de que o dinheiro das TDAs foi pago a Pedrosa da Silva mas acabou no bolso de Jader. O trecho em que isso aparece é parte de um diálogo entre o banqueiro Serafim de Moraes e o subprocurador Ferraz.
Serafim É, agora o senhor sabe quem recebeu o cheque?
Ferraz Quem?
Serafim O chefe.
Ferraz Quem?
Serafim O chefão.
Ferraz Ah! O chefão.
Serafim É, estava atrás, no hotel, na hora do pagamento.
Ferraz Foi ele próprio, é?
Serafim Foi ele próprio.
Ferraz Quer dizer, não foi o irmão do Jader, foi o próprio Jader?
Serafim
É.
Dida Sampaio/AE![]() Geddel, líder do PMDB na Câmara, que já foi chamado de "agatunado": pediu mais verbas e fez críticas contra o Banco Central |
Neste diálogo, o banqueiro não dá elementos para
lastrear sua convicção de que Jader Barbalho foi o beneficiário
do cheque, deixando transparecer tratar-se de uma dedução.
É óbvio que uma dedução feita durante uma
conversa telefônica, associada à presença física
de Jader no hotel, não constitui prova de irregularidade
mas também não há dúvida de que forma um belo
indício de que tem gato na tuba. A situação piora
quando se leva em conta a biografia dessa operação agrária.
A desapropriação da fazenda Paraíso foi uma maracutaia
do início ao fim. A terra, que Jader tanto quis desapropriar, só
existia no papel e, por isso, as TDAs que Pedrosa da Silva recebeu e vendeu
ao banqueiro Serafim de Moraes acabaram canceladas pelo governo. Eram
tantas as irregularidades que pelo menos duas pessoas foram condenadas
à prisão. Uma delas foi o próprio Pedrosa da Silva,
dono da fazenda fantasma. A outra, o então secretário do
Ministério da Reforma Agrária, Antônio César
Pinho Brasil. Cabe recurso às sentenças.
Outro aspecto
que empresta credibilidade à suspeita reside no histórico
do senador Jader Barbalho. Desde meados da década passada, Jader
aparece envolvido em assuntos cabeludos no plano nacional. O primeiro
caso rumoroso apareceu no jornal O Estado de S.Paulo, que noticiou
os meandros do escândalo do Banpará, no qual o senador é
suspeito de ter aplicado um desfalque de 10 milhões de reais. Na
semana passada, com o caso reaberto novamente, o Banco Central decidiu
ceder técnicos ao Ministério Público do Pará
para auxiliar nas investigações. As cobras criadas do PMDB
não gostaram. O líder do partido na Câmara, Geddel
Vieira Lima, aquele que os aliados chamaram de "agatunado", disse que
o BC deveria estar preocupado em reduzir a taxa de juros. Renan Calheiros,
líder no Senado, aproveitou para criticar a equipe econômica,
que "precisa ter contornos mais sociais e humanos". E o próprio
Jader afirmou que o governo tem "casos mais sérios para tratar,
como a ajuda ao Marka e ao FonteCindam", referindo-se ao socorro de 1,6
bilhão de reais que o Banco Central deu aos dois bancos em 1999.
Bruno Stuckert/Obritonews![]() Renan Calheiros, líder do PMDB no Senado: críticas à equipe econômica e nota para constranger o presidente |
A cúpula do PMDB talvez fique ainda mais revoltada quando descobrir
que as novas investigações do caso Banpará estão
de vento em popa. Já se sabia que uma parte dos 10 milhões
de reais desviados do Banpará passou por contas abertas em agências
dos bancos Itaú e Citibank no Rio de Janeiro. Também se
sabia que uma das contas na agência do Itaú estava em nome
de Jader Barbalho. Agora, descobriu-se que a parte do dinheiro que circulou
pela agência do Citibank também pousou numa conta bancária
pessoal. E em nome de quem estava essa conta? Ele mesmo: Jader Barbalho.
pará estão
de vento em popa. Já se sabia que uma parte dos 10 milhões
de reais desviados do Banpará passou por contas abertas em agências
dos bancos Itaú e Citibank no Rio de Janeiro. Também se
sabia que uma das contas na agência do Itaú estava em nome
de Jader Barbalho. Agora, descobriu-se que a parte do dinheiro que circulou
pela agência do Citibank também pousou numa conta bancária
pessoal. E em nome de quem estava essa conta? Ele mesmo: Jader Barbalho.
Ainda enrolado com o caso do Banpará desde que o Estadão
trouxe o assunto à tona, o senador passou a assistir a sua imagem
deteriorar-se ainda mais depois que VEJA publicou reportagem mostrando
que seu patrimônio visível chega a, no mínimo, 30
milhões de reais e o senador nunca deu uma explicação
plausível para a construção de sua fortuna. Em seguida,
começaram a aparecer suas conexões com os fraudadores da
Sudam e até a suspeita de que sua atual mulher, Márcia Cristina,
desviou dinheiro público de um ranário em Belém.
Por uma conjunção de azares infindáveis, o senador está sempre perto da malandragem. Foi amigo, sócio ou aliado de alguns dos mais notórios saqueadores da extinta Sudam (veja quadro). No caso de agora, acontece a mesma coisa o que é mais um motivo para levar a denúncia a sério. Antônio César Pinho Brasil, condenado à prisão pela fraude da desapropriação da fazenda Paraíso, foi assessor de Jader no Ministério da Reforma Agrária. Pedrosa da Silva, dono da fazenda fantasma e vendedor das TDAs canceladas, foi um aliado político de Jader. Na eleição passada, Pedrosa da Silva concorreu à prefeitura da cidade de Igarapé-Açu. Teve o apoio de Jader, mas não se elegeu. Com um currículo cheio de espinhos, Jader Barbalho pode virar um obstáculo às pretensões políticas do PMDB especialmente com vista à sucessão presidencial.
Na semana passada, antes de serem alvejados pela nova denúncia, os peemedebistas estavam de salto alto. Convictos de que a ameaça de lançar Itamar Franco à eleição de 2002 serve como gazua para abrir o cofre, os líderes do partido fizeram a farra. Geddel Vieira Lima pediu orçamento mais gordo "porque os ministérios precisam melhorar a vida das pessoas". No mesmo dia, o ministro Eliseu Padilha, dos Transportes, a liderança do PMDB com maior trânsito junto ao presidente Fernando Henrique, desandou na mesma toada. Disse que o setor de transportes está à beira de um colapso e pediu a liberação imediata dos recursos que, embora previstos no Orçamento, não foram liberados. Na ponta do lápis, calculou que estão retidos 3,3 bilhões de reais. Impacientes com a demora na escolha de Ramez Tebet para o Ministério da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima e Renan Calheiros chegaram a lançar uma nota dizendo que o partido já indicara os nomes "adequados" ao presidente e que, agora, cabia ao Fernando Henrique tomar uma providência. No dia seguinte, saiu o anúncio do convite a Ramez Tebet.
Na quinta-feira, depois de passar a semana convivendo com as pressões do PMDB, o presidente fez um desabafo público. Em entrevista ao Jornal da Record, falando do ímpeto com que o PMDB vem defendendo uma reforma ministerial para o mês de julho, com o objetivo de ocupar ainda mais espaço no governo, o presidente disse que estava "cansado dessa politicalha". Apesar do cansaço, o presidente está convencido de que a forma mais eficaz de isolar seu principal adversário na sucessão de 2002, Itamar Franco, é manter o PMDB ao seu lado, evitando que se desgarre da aliança. É uma ironia do destino. Em junho de 1988, os tucanos abandonaram o PMDB, então dominado pelo ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, com o propósito de fundar uma legenda que estabelecesse novos padrões éticos e morais na política. Agora, treze anos depois, os tucanos estão abraçados com o PMDB que, de lá para cá, quase nada mudou. Em São Paulo, Quércia volta a dar sinais de vitalidade e acaba de ganhar a direção do partido no Estado. Em Brasília, entre as principais lideranças do partido estão políticos do naipe de Geddel Vieira Lima, Renan Calheiros e Jader Barbalho o homem do Banpará, do patrimônio inexplicado, das relações profundas com fraudadores da Sudam e, agora, o homem das tenebrosas transações com falsas TDAs.
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O presidente do Senado, Jader Barbalho, tem o dom de viver sempre cercado de gente envolvida em escândalos: a mulher, o amigo de infância, o sócio, o aliado, a contadora, o assessor, o afilhado político todos sob suspeita de desviar recursos públicos
A mulher de Jader está sob a suspeita de desviar 9 milhões de reais de um projeto da Sudam
JOSÉ ARTUR GUEDES TOURINHO Amigo de infância de Jader, o ex-chefe da Sudam foi demitido quando se descobriu que recebeu cheque de um suspeito de desvios
JOSÉ OSMAR BORGES Acusado de desviar 133 milhões de reais, ele foi sócio de Jader em fazenda no Pará no auge da roubalheira na Sudam
JOSÉ SOARES SOBRINHO Aliado político de Jader, a quem chegou a hospedar no interior do Pará, foi preso pela PF sob a acusação de desviar dinheiro da Sudam
MARIA AUXILIADORA BARRA MARTINS Instalada numa casa que pertencia a Jader, a ex-contadora da mulher do senador é suspeita de desviar 248,6 milhões de reais da Sudam
Ex-assessor de Jader, condenado a cinco anos de prisão por fraude em desapropriação de uma fazenda fantasma no interior do Pará
MAURÍCIO BENEDITO VASCONCELOS Também indicado por Jader para comandar a Sudam, foi demitido do órgão pelo mesmo motivo do antecessor: suspeita de corrupção |
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