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As
listas de Posner
Jurista americano faz quem é quem
no
mundo dos intelectuais públicos
e,
claro, provoca a maior gritaria
Carlos
Graieb

Veja também |
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Ninguém
resiste a uma boa lista. Nem mesmo os pensadores mais sisudos. Prova disso
é a gritaria provocada pelo livro Public Intellectuals,
lançado há pouco nos Estados Unidos. Assinada por Richard
Posner, influente jurista e escritor, a obra pretende analisar sistematicamente
a figura do intelectual público aquele sujeito que, "empregando
idéias complexas, escreve sobre temas de conotação
política ou ideológica para uma audiência ampla".
O assunto, por si só, tem potencial para causar polêmica.
Mas a obra certamente teria recebido leituras menos severas não
fosse por um detalhe fatídico: um de seus capítulos está
recheado de listas. Uma delas traz os 100 intelectuais "mais preeminentes"
nos Estados Unidos, segundo seu número de menções
na mídia. Outra organiza os nomes de acordo com as citações
nas esferas acadêmicas. "Meu objetivo era fazer observações
estatísticas sobre a idade, a raça ou a formação
dos intelectuais", diz Posner. "Não pretendia montar uma ordem
de mérito, mas as pessoas ficaram obcecadas tão logo souberam
da história." De fato, mal o material veio a público, a
fogueira das vaidades começou a arder. Questionou-se o método
de seleção de Posner. A presença de alguns nomes,
e a ausência de outros. O jornalista David Brooks, que comentou
o livro para o jornal The New York Times, iniciou seu texto com
uma ironia: ele não seria digno de fazer o trabalho, uma vez que
Posner é o número 70 entre os "100 mais" e ele apenas
o 85. Outros resenhistas (que não aparecem nos rankings) desvencilharam-se
do texto usando termos como "idiota". O curioso é que todos, sem
exceção, consideraram as listas o ponto mais importante
da obra. O que talvez confirme aquela que, na verdade, é a tese
central de Posner: há algo de malparado no reino dos intelectuais.
Criticar
a intelligentsia é prática corriqueira, especialmente nas
fileiras do pensamento conservador, de onde vem Posner. No seu caso, o
mais interessante é a originalidade da análise. Recorrendo
a categorias do pensamento econômico, ele procura descrever o mundo
dos intelectuais públicos como se fosse um mercado. E um mercado
que não funciona bem. O problema não estaria tanto no "volume
de transações". Seja nas páginas de opinião
dos jornais, nos artigos publicados em revistas ou em entrevistas concedidas
na televisão, há boa oferta e demanda para o trabalho dos
intelectuais que se dispõem a porfiar por suas convicções
em público reitere-se que ele trata da questão no
âmbito dos Estados Unidos, onde as dimensões avassaladoras
da mídia abrem espaço para um número enorme de colunistas,
comentaristas, políticos e "formadores de opinião", todos
tratados por Posner, pelo menos na lista popular, como intelectuais. Segundo
sua análise, o que falta é controle de qualidade. O consumidor
dos "bens intelectuais", diz Posner, é cada vez mais desavisado,
enquanto o fornecedor é cada vez mais irresponsável. A principal
causa disso seria a especialização do conhecimento incentivada
pela universidade moderna.
As
pessoas, segundo Posner, se acostumaram a saber um tanto sobre a matéria
que estudaram na faculdade e muito pouco sobre história ou política.
Isso torna improvável que consigam avaliar com inteligência
as opiniões que os intelectuais lhes oferecem. Elas se guiam por
fama e currículo, mais que pela qualidade real das intervenções.
Enquanto isso, do lado dos intelectuais, a especialização
também traz problemas. Seria cada vez mais rara a figura do generalista
aquele pensador capaz de falar de tudo com pertinência, em
prosa translúcida e ainda por cima saborosa (Posner cita o escritor
inglês George Orwell e o filósofo inglês John Stuart
Mill como seus modelos). Em contraponto, seria cada vez mais comum a figura
do professor universitário que, de tempos a tempos, se aventura
para além dos muros de sua especialidade. Esse tipo de intelectual
público, diz Posner, se encontra numa posição confortabilíssima
para dizer besteira e sair impune. Primeiro, porque os registros de suas
intervenções tendem a ser precários e pulverizados.
Em segundo lugar, porque, mesmo que um de seus erros se torne notório,
ele sempre poderá retornar à segurança da carreira
acadêmica. "Os riscos do trabalho de intelectual público
para um acadêmico respeitado são mínimos e por isso
ele se entrega a essa atividade com a mentalidade de quem sai de férias",
diz Posner.
Ilustrações Dálcio
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| Kissinger:
no topo, ainda e sempre |
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Rushdie:
o único estrangeiro |
O
uso de conceitos econômicos resulta em vários insights curiosos.
Por exemplo, Posner trata os textos escritos por intelectuais como se
fossem "produtos" e diferencia neles três dimensões: uma
informativa, outra de entretenimento e outra, finalmente, de "solidariedade".
Em outras palavras, o leitor procura textos desse tipo para informar-se,
para divertir-se e também para encontrar sustentação
de suas crenças. "As pessoas dizem que o trabalho dos intelectuais
é desfazer idéias feitas, mas tudo indica que o contrário
é verdade", diz Posner. "No campo das idéias, as pessoas
quase sempre preferem suas certezas à dúvida. Por isso o
intelectual público moderno atua muito mais no sentido de solidificar
que no de dissipar preconceitos."
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| Orwell:
modelo quase extinto |
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Noam
Chomsky: truques expostos |
Ao
lado de todo o arcabouço teórico que levanta, Posner também
se preocupa em discutir e desancar vários intelectuais
de renome. O lingüista Noam Chomsky e os economistas Paul Krugman
e Lester Thurow, bastante conhecidos no Brasil, são alguns dos
seus alvos. Eles seriam exemplos de como, livres da vigilância normalmente
exercida sobre um texto acadêmico e soltos na mídia para
argumentar como bem entenderem, os intelectuais jogam para o alto toda
cautela e responsabilidade. Chomsky, venerado pela esquerda, é
exposto em todos os seus truquezinhos. Quando ele escreve sobre política,
diz Posner, "seu método de discussão consiste simplesmente
em mudar de assunto. Se alguém afirma que a intervenção
ocidental em Kosovo foi um esforço justificável, ainda que
ineptamente implementado, de evitar o genocídio da população
albanesa, sua resposta é perguntar por que falhamos em proteger
os curdos dos turcos". Passagens como essa dão carne e um
tanto de sangue às páginas de Public Intellectuals.
Sem contar a tentação irresistível de ler aquelas
listas...
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O
DIREITO DE OPINAR
"Depois
de escrever um livro como o que escrevi, não vejo grande
mérito em ser um intelectual público 'preeminente'",
diz Richard Posner. Mas é exatamente isso que ele é,
e não apenas por causa do grande número de menções
na mídia e na universidade que seu nome recebe. Desde os
anos 70, Posner ocupa um lugar importante no pensamento jurídico
americano. Ele é um dos principais expoentes da chamada "escola
de análise econômica do direito", que revolucionou
vários campos da disciplina da legislação
antitruste ao direito penal. Nomeado em 1981 para um dos principais
tribunais de recursos dos Estados Unidos pelo ex-presidente Ronald
Reagan, ele se tornou também uma figura influente no Judiciário
americano. Tanto assim que, em 1999, acabou escolhido para servir
de mediador num dos casos de maior repercussão pública
dos últimos tempos: o processo de monopólio enfrentado
pela Microsoft, a empresa gigante do bilionário Bill Gates.
Mas não é só no campo das leis que Posner exerce
o direito de opinar. Sua bibliografia ostenta mais de trinta livros,
sobre temas que vão da filosofia à literatura, do
sexo à velhice, do caso Monica Lewinsky ao impasse na última
eleição presidencial nos Estados Unidos. Seus adversários
gostam de pintá-lo como conservador, daqueles da direita
brava. Posner prefere descrever-se como "libertário", sem
dúvida muito mais charmoso. A verdade é que se trata
de um personagem difícil de classificar uma boa palavra
para descrevê-lo talvez seja mesmo iconoclasta.
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