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Popular para rico
Nova geração
de carros 1.0
oferece desempenho melhor a
consumidores com renda maior

Ricardo Mendonça
Fotos divulgação

Gol
da linha 2002: evolução ao preço de 29 500 reais
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A exemplo
do chuveiro elétrico e da comida por quilo, o carro popular é
um produto tipicamente brasileiro. Em nenhum lugar do mundo existem tantos
automóveis desse tipo rodando pelas ruas. De cada dez veículos
vendidos no país, sete são equipados com motores de 1.000
cilindradas. O número de modelos nacionais disponíveis no
mercado saltou de quatro para catorze, entre o início da década
de 90 e hoje. Em termos de qualidade, eles evoluíram também
mais depressa que qualquer outro dos concorrentes. Num primeiro momento,
foram incrementados com vidros elétricos, ar-condicionado, direção
hidráulica e air bags, entre outros confortos. Agora, as melhorias
vêm se multiplicando debaixo do capô, como demonstram os modelos
da linha 2002. Os novos Gol, Corsa e Palio 1.0 são quase duas vezes
mais potentes que os pioneiros do início da década de 90.
O mais espantoso é que eles não são os mais rápidos
do gênero. Há populares que já circulam pelas ruas
brasileiras com motores turbo, capazes de atingir uma velocidade final
de aproximadamente 190 quilômetros por hora maior até
que a de muitos carros com motor de maior cilindrada.

Novo
Corsa: direção hidráulica e rodas especiais
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Os veículos
1.0 representam uma adaptação da indústria à
eterna demanda do mercado (um produto bom e barato), temperada com intervenções
do governo e peculiaridades locais. "Quando eles começaram a rodar
por aqui, eram tão rústicos no acabamento e modestos no
desempenho que receberam o apelido de 'pé-de-boi'.",
lembra José Eduardo Favaretto, um dos mais respeitados consultores
do setor automobilístico. Com um motorista e dois passageiros em
seu interior, esses "pés-de-boi" penavam para subir ladeiras mais
íngremes. Tentar uma ultrapassagem na estrada representava uma
aventura. Mesmo assim, começaram a vender bem, graças ao
preço. Para incentivar a produção da indústria
e facultar o acesso ao carro zero-quilômetro a uma camada mais ampla
de consumidores, o governo criou uma alíquota diferenciada de imposto
sobre produtos industrializados (IPI) para os automóveis de 1.000
cilindradas. No começo, a taxa era simbólica 0,1%.
Hoje, está em 10%, contra os pesados 25% dos demais veículos
de passeio.

O Palio,
da Fiat: um dos campeões de venda |
Quando perceberam
que poderiam utilizar o privilégio fiscal para atrair também
outros tipos de comprador, e não só os trabalhadores de
renda mais modesta, as montadoras investiram pesado no desenvolvimento
e na sofisticação dos modelos 1.0 (veja
quadro). Os chamados "pés-de-boi" continuam existindo,
ao custo de aproximadamente 13.000 reais. Mas
representam atualmente apenas 35% das vendas do universo dos populares.
A maioria dos clientes tem renda maior que a dos compradores originais
e se dispõe a investir num veículo mais sofisticado. É
por isso que o preço de alguns carros do gênero chega hoje
a quase 30.000 reais. "Há muito tempo,
o modelo 1.0 deixou de ser o primeiro ou o único zero-quilômetro
de uma residência", diz Markus Stricker, vice-presidente de operações
da consultoria A.T. Kearney, especializada em indústria automobilística.
Além
de obrigar as fábricas a incrementar os populares, numa espécie
de versão sobre quatro rodas da história da sopa de pedra,
o fenômeno de vendas dos veículos 1.0 alterou significativamente
o ranking das montadoras. Basta lembrar que, graças a sucessos
como o Uno Mille e o Palio, a Fiat deixou a concorrência comendo
poeira. Hoje, a montadora italiana reveza-se na liderança com a
outrora imbatível Volkswagen. Os que ficaram para trás na
corrida dos lucros dedicam-se a fazer lobby para enterrar o mais rápido
possível os privilégios fiscais dos carros 1.0. Segundo
os descontentes, o automóvel popular afastou-se tanto da idéia
original que estaria criando uma distorção no mercado. "O
consumidor está decidindo sua compra apenas por um privilégio
fiscal", afirma o vice-presidente da General Motors, José Carlos
Pinheiro Neto, que defende a unificação do IPI de todos
os veículos comercializados no país. "Numa condição
de igualdade tarifária, em vez de adquirir um carro 1.0 cheio de
penduricalhos, tenho certeza de que muita gente iria migrar para os modelos
de maior cilindrada, pois o preço não seria tão desproporcional
quanto é hoje", completa ele.
As fábricas
não revelam seus custos, mas estudos feitos por algumas consultorias
demonstram que a margem de lucro bruto da montadora na venda de um popular
é de aproximadamente 20%. Esse índice cresce proporcionalmente
ao aumento de cilindradas do motor, podendo bater em 35%. É por
isso que os representantes da indústria acham que a unificação
da alíquota do IPI pode ser um bom negócio. Fala-se num
imposto intermediário de 15% a 18%. Ele iria provocar aumento no
preço dos populares e queda no valor dos carros médios e
grandes. Nas contas das montadoras, o número de unidades vendidas
seria menor, mas os lucros aumentariam porque uma parcela significativa
da classe média que compra o 1.0 incrementado passaria a consumir
outros modelos aqueles que dão margem de lucro maior. Até
a Fiat concorda com a idéia. Só não admite que seja
implantada agora. A questão foi levada ao governo, que não
dá sinais de que irá resolvê-la a curto prazo. Existe
o temor de que ocorra uma queda brutal na arrecadação de
impostos se os consumidores não se comportarem conforme as previsões
das fábricas. "Enquanto as regras continuarem as mesmas, os populares
tendem a ficar ainda mais incrementados", afirma o consultor Favaretto.
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