Ressaca francesa
Os vinhos
da França são os melhores
do mundo? São. Mas ainda assim eles
estão perdendo terreno
Os produtores
de vinho da França entraram em estado de alerta com a divulgação
de um relatório do Ministério da Agricultura de seu país.
Depois de constatar que os franceses vêm perdendo terreno no mercado
mundial para chilenos, argentinos, americanos, sul-africanos e australianos,
os autores do calhamaço de oitenta páginas apontam quais
seriam as causas do declínio: o elitismo e os métodos ultrapassados
de produção. Embora a França ainda seja a principal
nação exportadora, com vendas anuais de 6,5 bilhões
de dólares, sua participação nos negócios
não pára de cair desde o início da década
de 90 (veja quadro).
Há milhões de litros de vinho literalmente encalhados nas
centenárias adegas das regiões de Bordeaux e Borgonha.
Os vinhos
que compõem o grosso do mercado são aqueles que custam entre
10 e 30 dólares a garrafa. Eles são praticamente inexistentes
entre os franceses. Os que estavam próximos a essa faixa de preço
cerca de dez anos atrás podem sair agora por até três
vezes mais. Aqueles mais acessíveis são, hoje, provenientes
de châteaux desconhecidos e de qualidade duvidosa. Enquanto
isso, muitas das vinícolas dos outros países oferecem vinhos
de preços variados. A australiana Penfolds vende desde o refinado
Grange, a 180 dólares, até bebidas mais populares (e decentes),
como o Koonunga Hill, a 10 dólares. Os produtores franceses de
renome desprezam esse tipo de ecletismo. Eles também resistem à
idéia de satisfazer o paladar dos recém-convertidos ao hábito
de beber vinho, que preferem aqueles mais leves e frutados, e de tornar
mais didáticos os rótulos das garrafas, o que facilitaria
a comercialização. O sistema francês de colocar no
rótulo a origem geográfica do vinho em vez do tipo de uva
com que é feito (como fazem os novos concorrentes) causa confusão
em quem não entende do assunto ou seja, a maioria dos compradores.
Outra desvantagem
da França são as leis que controlam sua vinicultura. Em
nome da qualidade, elas limitam a quantidade e o tipo de uva produzidos
em cada região e proíbem inovações tecnológicas,
como os barris de aço na armazenagem, que barateiam o processo
de fabricação. Por fim, seu marketing é pobre. Apenas
a empresa americana Gallo gastou mais que o dobro em propaganda na Inglaterra
do que todas as vinícolas da região de Bordeaux. Sem dúvida,
grandes corporações têm mais condições
financeiras de investir nessa área que vinícolas familiares
que enxergam seus vizinhos de cerca como inimigos mortais. Enquanto apenas
três empresas dominam 80% do mercado que cabe à Austrália,
somente em Bordeaux existem 20.000 produtores.
Se a França não acordar, seus vinhos correm o risco de envelhecer
além da conta. Ainda que continuem a ser os melhores do mundo.
Foto Alfredo Franco
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