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Roberto
Pompeu de Toledo
Canudos
em versos, até a degola
Um
poema de mais de 100 anos
sobre a
guerra contra o Conselheiro
é
publicado pela primeira vez
"Manhoso,
malvado era ele
Com
capa de santo enganava
Ao
bom povo d'aquele sertão
Com
doçura a eles falava."
O
malvado em questão é Antônio Conselheiro, e os versos
são de um sergipano seu contemporâneo, Manuel Pedro das Dores
Bombinho. No mesmo fim de ano em que se comemora o centenário de
Os Sertões, o clássico de Euclides da Cunha sobre
a Guerra de Canudos, é publicada pela primeira vez essa outra história
de Canudos que é a obra de Bombinho um poema que, ao longo
de 5.984 versos, não faz feio, em tamanho, junto aos Lusíadas
(8.545). Bombinho, do qual pouco se sabe além do fato de que
foi ourives, rábula, delegado de polícia e músico,
nasceu entre 1860 e 1870, em Simão Dias, perto da divisa de Sergipe
com a Bahia. O poema foi escrito entre 1897, ano dos mais agudos combates
e do fim da guerra, e 1898. Portanto, no calor da hora, e antes que Euclides
concluísse Os Sertões, em 1902.
Bombinho teve participação direta no conflito, integrante
que foi da quarta e última expedição contra o arraial
do Conselheiro. Nada que deixasse traço, porém: seu papel
era de simples fornecedor de víveres. Tampouco o poema o tirou
da sombra. A obra permaneceu conhecida apenas de uns poucos especialistas,
até que um deles, Marco Antonio Villa, autor de Canudos
O Povo da Terra, pôs-se à tarefa de recompilá-la,
com base em precárias cópias. O resultado do trabalho de
Villa é o volume chamado Canudos, História em Versos
(Imprensa Oficial SP/Edufscar/Hedra).
Não se espere nenhuma obra-prima literária. Mesmo na categoria
poesia popular, que é onde melhor se acomoda, o estro de Bombinho
é sofrível. O trabalho vale, no entanto, primeiro pela façanha
que é alinhavar, à maneira dos épicos, toda uma comprida
e dramática história num só poema, e, segundo, como
fonte das informações e das desinformações
que corriam no período. Bombinho, cujo ponto de vista não
podia ser mais oficialista, incorpora as versões de que o Conselheiro
era financiado pelos monarquistas, empenhados na revanche contra a nascente
República. "Dinheiro recebo de longe / Nada falta para nossa missão",
faz Antônio Conselheiro declarar. Sebastião da Fonseca Andrade,
um típico coronel do sertão, manda-chuva na Simão
Dias do poeta, é por ele referido como "o benemérito coronel
Sebastião". Já o Conselheiro merece epítetos que
vão de "embusteiro santarrão" a "brejeiro infame Vilão".
Nada de espantar, na verdade. Para Euclides da Cunha, o mesmo personagem
era um "Messias de feira" e alguém que escapou do hospício
para entrar na história. A boa reputação de Antônio
Conselheiro, hoje visto quase unanimemente sob luz favorável, é
fenômeno recente.
Um dos bons momentos do poema é o trecho em que Bombinho relata
sua experiência pessoal na guerra. Simpaticamente, não se
atribui nenhuma espécie de valentia, muito ao contrário:
"A coisa era feia e mais que feia / Parecia que o mundo se acabava / Vontade
tive que seguir lá para frente / A coragem decerto me faltava".
Os horrores que presenciou ("Que cenas meu Deus eu ali vi!") conduzem-no
a uma profissão de fé contra a guerra: "Barbaria igual nunca
existiu / Só o demo inventou tal confusão / Os povos deviam
todos reunidos / Acabarem de uma vez tal invenção".
Mas o que definitivamente redime o vate sergipano, aos olhos de quem reclame
dele alguma visão crítica e espírito humanitário,
são os versos em que, no fim do poema, denuncia as barbaridades
contra os canudenses já vencidos, submetidos à execução
pela degola: "Crueldade inaudita e monstruosa / Foi aquela que ali se
viu então / Os jagunços eram todos degolados / Não
faziam parte da Nação". Como Os Sertões, que
Euclides queria um "livro vingador", o poema vira, nesse ponto, peça
de denúncia. Do ponto de vista de Bombinho, era até compreensível
que os seguidores do Conselheiro procedessem com crueldade, pois eram
"ignorantes e de baixa classe" e "o fanatismo ali predominava". A barbárie
praticada pelo Exército, porém, era imperdoável.
"Que vergonha, meu Deus, para o país!", exclama, e, no último
verso do trecho, dá sua receita de como deveria ter sido: "É
belo o perdão de quem venceu".
Para restaurar em sua integridade o poema de Bombinho, o historiador Marco
Antonio Villa contou com três cópias, uma completa e duas
incompletas, recolhidas junto a diferentes pesquisadores. Inútil
foi sua tentativa de consultar, na Biblioteca Pública Estadual
de Sergipe, o manuscrito original. Soube que tinha sido furtado. A atual
diretora da biblioteca informou que ao assumir o cargo, em 1995, a peça
já havia desaparecido da seção de manuscritos. "Espero
que a divulgação pela primeira vez na íntegra do
poema estimule as autoridades de Sergipe a, no mínimo, investigarem
o roubo", escreve Villa, na introdução do volume. Essa introdução
é datada de abril último. Até aquele momento, o crime
tinha ficado por isso mesmo. É capaz que continue. Este é
o país do "fica por isso mesmo".
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