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Edição 1 781 - 11 de dezembro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Canudos em versos, até a degola

Um poema de mais de 100 anos
sobre
a guerra contra o Conselheiro
é publicado pela primeira vez

"Manhoso, malvado era ele
Com capa de santo enganava
Ao bom povo d'aquele sertão
Com doçura a eles falava."

O malvado em questão é Antônio Conselheiro, e os versos são de um sergipano seu contemporâneo, Manuel Pedro das Dores Bombinho. No mesmo fim de ano em que se comemora o centenário de Os Sertões, o clássico de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos, é publicada pela primeira vez essa outra história de Canudos que é a obra de Bombinho – um poema que, ao longo de 5.984 versos, não faz feio, em tamanho, junto aos Lusíadas (8.545). Bombinho, do qual pouco se sabe além do fato de que foi ourives, rábula, delegado de polícia e músico, nasceu entre 1860 e 1870, em Simão Dias, perto da divisa de Sergipe com a Bahia. O poema foi escrito entre 1897, ano dos mais agudos combates e do fim da guerra, e 1898. Portanto, no calor da hora, e antes que Euclides concluísse Os Sertões, em 1902.

Bombinho teve participação direta no conflito, integrante que foi da quarta e última expedição contra o arraial do Conselheiro. Nada que deixasse traço, porém: seu papel era de simples fornecedor de víveres. Tampouco o poema o tirou da sombra. A obra permaneceu conhecida apenas de uns poucos especialistas, até que um deles, Marco Antonio Villa, autor de Canudos – O Povo da Terra, pôs-se à tarefa de recompilá-la, com base em precárias cópias. O resultado do trabalho de Villa é o volume chamado Canudos, História em Versos (Imprensa Oficial SP/Edufscar/Hedra).

Não se espere nenhuma obra-prima literária. Mesmo na categoria poesia popular, que é onde melhor se acomoda, o estro de Bombinho é sofrível. O trabalho vale, no entanto, primeiro pela façanha que é alinhavar, à maneira dos épicos, toda uma comprida e dramática história num só poema, e, segundo, como fonte das informações e das desinformações que corriam no período. Bombinho, cujo ponto de vista não podia ser mais oficialista, incorpora as versões de que o Conselheiro era financiado pelos monarquistas, empenhados na revanche contra a nascente República. "Dinheiro recebo de longe / Nada falta para nossa missão", faz Antônio Conselheiro declarar. Sebastião da Fonseca Andrade, um típico coronel do sertão, manda-chuva na Simão Dias do poeta, é por ele referido como "o benemérito coronel Sebastião". Já o Conselheiro merece epítetos que vão de "embusteiro santarrão" a "brejeiro infame Vilão". Nada de espantar, na verdade. Para Euclides da Cunha, o mesmo personagem era um "Messias de feira" e alguém que escapou do hospício para entrar na história. A boa reputação de Antônio Conselheiro, hoje visto quase unanimemente sob luz favorável, é fenômeno recente.

Um dos bons momentos do poema é o trecho em que Bombinho relata sua experiência pessoal na guerra. Simpaticamente, não se atribui nenhuma espécie de valentia, muito ao contrário: "A coisa era feia e mais que feia / Parecia que o mundo se acabava / Vontade tive que seguir lá para frente / A coragem decerto me faltava". Os horrores que presenciou ("Que cenas meu Deus eu ali vi!") conduzem-no a uma profissão de fé contra a guerra: "Barbaria igual nunca existiu / Só o demo inventou tal confusão / Os povos deviam todos reunidos / Acabarem de uma vez tal invenção".

Mas o que definitivamente redime o vate sergipano, aos olhos de quem reclame dele alguma visão crítica e espírito humanitário, são os versos em que, no fim do poema, denuncia as barbaridades contra os canudenses já vencidos, submetidos à execução pela degola: "Crueldade inaudita e monstruosa / Foi aquela que ali se viu então / Os jagunços eram todos degolados / Não faziam parte da Nação". Como Os Sertões, que Euclides queria um "livro vingador", o poema vira, nesse ponto, peça de denúncia. Do ponto de vista de Bombinho, era até compreensível que os seguidores do Conselheiro procedessem com crueldade, pois eram "ignorantes e de baixa classe" e "o fanatismo ali predominava". A barbárie praticada pelo Exército, porém, era imperdoável. "Que vergonha, meu Deus, para o país!", exclama, e, no último verso do trecho, dá sua receita de como deveria ter sido: "É belo o perdão de quem venceu".

Para restaurar em sua integridade o poema de Bombinho, o historiador Marco Antonio Villa contou com três cópias, uma completa e duas incompletas, recolhidas junto a diferentes pesquisadores. Inútil foi sua tentativa de consultar, na Biblioteca Pública Estadual de Sergipe, o manuscrito original. Soube que tinha sido furtado. A atual diretora da biblioteca informou que ao assumir o cargo, em 1995, a peça já havia desaparecido da seção de manuscritos. "Espero que a divulgação pela primeira vez na íntegra do poema estimule as autoridades de Sergipe a, no mínimo, investigarem o roubo", escreve Villa, na introdução do volume. Essa introdução é datada de abril último. Até aquele momento, o crime tinha ficado por isso mesmo. É capaz que continue. Este é o país do "fica por isso mesmo".

   
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