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O Brasil decide seu
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| O QUE QUEREM OS EUA | O QUE QUER O BRASIL |
| 1. O presidente Bush quer estabelecer uma boa relação pessoal com Lula. Os Estados Unidos esperam que haja cooperação entre os ministérios de cada país e prometem ajudar Lula na área social. | 1. O Brasil vai deixar claro que reconhece a supremacia americana, mas quer ser respeitado como líder regional. |
| 2. No encontro, Bush vai pedir a colaboração do Brasil na guerra contra os grupos aliados da Al Qaeda para manter a América do Sul longe dos grandes focos do terrorismo internacional. | 2. O governo Lula quer negociar a criação da Alca com mais cuidado, mesmo que o cronograma sofra um atraso. |
| 3. Os americanos vão pressionar para manter o cronograma de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) em 2005. | 3. Lula vai pedir a ajuda da administração americana para que interceda nos mercados a favor do restabelecimento das linhas de crédito para empresas brasileiras. |
| 4. Os Estados Unidos querem a cooperação de Lula no combate ao narcotráfico internacional, que usa o Brasil como rota para chegar aos mercados americano e europeu. | 4. O governo brasileiro vai defender a redução dos subsídios e o fim das barreiras não tarifárias na área agrícola. |
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Luiz Inácio Lula da Silva vai estar sentado no Salão Oval da Casa Branca na terça-feira 10. O presidente eleito do Brasil terá a seu lado o presidente americano, George W. Bush. Será o encontro de dois mundos, o confronto de duas visões distintas e de duas histórias que só se cruzaram nessas circunstâncias por força de muitas dobras do destino. A visita de Lula a Bush deve superar o previsível objetivo declarado de promover a aproximação e a boa vontade entre os dois governantes. Da conversa, que deve durar pouco mais de meia hora, não se esperam declarações conjuntas nem grandes avanços imediatos. O que mais fascina no encontro é o passado que cada lado carrega e o futuro que eles podem acabar construindo juntos. Durante mais de vinte anos, Lula, um ex-metalúrgico, fez carreira sindical e política com uma visão esquerdista do mundo e, portanto, uma postura abertamente antiamericana. Lula sempre se referia aos Estados Unidos como um centro opressor neoliberal e a sede da globalização selvagem que destruiu a economia dos países periféricos. Bush é um político da direita oligárquica americana e talvez o presidente dos Estados Unidos mais convicto de sua condição de comandante de um império não apenas poderoso, mas, na sua visão, monopolista da virtude. Apesar de tantas diferenças, a expectativa dos diplomatas de ambos os lados que prepararam o encontro é que ele seja proveitoso. Eles apostam até que se criará uma química amigável entre os dois homens.
Se há
diferenças entre os dois presidentes, os países que eles
representam são ainda mais desiguais. Os Estados Unidos estão
vindo de um século descrito pelos historiadores como o século
americano. A hegemonia do país se foi firmando no planeta ao cabo
de vitórias em duas guerras mundiais, com a concentração
de riqueza e a realização de saltos tecnológicos
prodigiosos. Os Estados Unidos produzem uma riqueza anual de quase 10
trilhões de dólares superior à soma dos PIBs
de França, Alemanha e Japão. Com 5% da população
mundial, registram 30% das patentes e são donos de metade dos satélites
que orbitam o planeta. De cada quatro pessoas que entram na internet,
duas são americanas. De cada quatro carros que chegam às
ruas das cidades do mundo, um é feito nos Estados Unidos. Com apenas
um vigésimo dos habitantes do planeta, os Estados Unidos compram
um terço de todas as mercadorias oferecidas no mercado internacional,
e suas casas e fábricas consomem 30% de toda a energia gerada no
mundo. Com quase duas centenas de ganhadores do Prêmio Nobel, os
EUA são o país campeão mundial no território
científico e tecnológico. Essa relação de
superioridade vale também para a indústria cultural, para
os esportes, a mídia e quase todos os campos influenciados pela
criação humana. Os Estados Unidos, em sua relação
com o resto do mundo, são o país mais poderoso que já
existiu na história da humanidade.
Fotos AP![]() |
AP![]() |
| O'Neill sai de cena e o sentimento anti-Alca do PT vai ceder lugar ao pragmatismo | Otto Reich, o cubano exilado nos EUA: ele saiu na hora certa |
Monalisa Lins/AE![]() |
O Brasil,
por seu lado, é ainda uma nação em desenvolvimento.
Em 1947, na primeira visita oficial de um presidente americano à
capital brasileira, então o Rio de Janeiro, Harry Truman se encontrou
com Eurico Gaspar Dutra. Naquela época, os EUA eram oito vezes
mais ricos que o Brasil. Hoje o PIB americano é quase vinte vezes
superior ao brasileiro. Em termos relativos, o Brasil andou para trás.
Nas últimas décadas, a sensação de não
estar indo a lugar algum aumentou entre os brasileiros, com um hiato representado
pelas conquistas do Plano Real, que já regridem em alguns campos.
Nesse período, o Brasil foi uma espécie de centro de testes
das teorias econômicas mais estapafúrdias. Vítima
de superinflação, o país tentou livrar-se dessa moléstia
financeira adotando cinco moedas diferentes. Experimentou oito planos
econômicos. Quase todos produziram surtos de euforia com desenlaces
amargos que devolveram o gigante deitado em berço esplêndido
a sua eterna condição de "país do futuro". É
uma nação desigual, mais injusta do que pobre. Mesmo a experiência
bem-sucedida de estabilização através do Plano Real
acabou gerando entre a população a sensação
de que algo saiu errado. Tanto foi assim que, nas últimas eleições,
os brasileiros deram 52 milhões de votos a Luiz Inácio da
Silva, o candidato oposicionista que estará na terça-feira
sentado diante do César americano na Casa Branca.
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1947 O
PIB dos EUA era 8 vezes |
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O
que nos unia
O que nos separava |
Na sexta-feira
passada, três dias antes do embarque da comitiva brasileira para
Washington, Paul O'Neill, secretário do Tesouro americano, anunciou
sua renúncia. É um ótimo presságio. A língua
de O'Neill feriu o Brasil sempre que pôde. Em sua última
tirada, logo depois da eleição de Lula, ele disse que o
mercado ainda esperava provas de que o petista "não era um louco".
Há pouco mais de dez dias, outro potencial causador de dores de
cabeça para o Brasil, Otto Reich, foi afastado de seu cargo de
subsecretário de Estado para a América Latina. O comentário
mais brando que se ouvia sobre Reich é que ele sabe menos sobre
o Brasil que o texano Bush, que antes de ocupar a Casa Branca só
tinha saído dos Estados Unidos três vezes. Antes de Luiz
Inácio Lula da Silva, já estiveram nos Estados Unidos como
presidentes eleitos Tancredo Neves e Fernando Collor. Tancredo visitou
Ronald Reagan. Collor esteve com George Bush pai. Nos casos anteriores,
não existe notícia de que essas reuniões tenham tido
resultados significativos, para além do fato já lendário
de Collor ter causado tal boa impressão que foi apelidado de "Indiana
Jones" pelo anfitrião. Quando se sentarem frente a frente, Lula
e George W. Bush começarão um novo processo de negociação
entre os dois países. Novo porque o mundo mudou demais nos últimos
dois anos e vai mudar tanto ou mais do que isso nos próximos. A
tal ponto que o resultado das negociações entre Brasil e
Estados Unidos pode definir o perfil da economia brasileira nas primeiras
décadas deste século. Pode modelá-la de modo muito
mais decisivo, profundo e marcante do que qualquer medida doméstica
que o novo governo petista possa tomar. Entre as amenidades formais e
as conversas sobre como os dois países podem trabalhar juntos para
conter o terrorismo mundial, Lula e Bush vão falar principalmente
do comércio entre as duas nações. Mais exatamente,
a conversa girará em torno da Alca, a sigla em português
para Área de Livre Comércio das Américas. "Os resultados
da Alca vão definir o tipo de nação que o Brasil
será", diz o economista Carlos Langoni.
AP![]() |
| Bush em revista a militares: a força planetária dos EUA nas armas, na economia e na cultura não tem paralelo na história |
A Alca foi
idealizada para ser um grande mercado comum, sem barreiras, que reunirá
mais de 700 milhões de consumidores e abarcará uma riqueza
de quase 12 trilhões de dólares. Pelo cronograma original,
ela deve estar em pleno funcionamento em 2005. Oficialmente, Brasil e
Estados Unidos dividem a presidência do organismo diplomático
encarregado de fazê-la funcionar e trazer para o mesmo bote econômico
todos os países da América, com exceção de
Cuba. Nos bastidores, o Brasil é descrito pelos americanos no que
diz respeito a essas discussões como um "troublemaker",
um criador de caso. A atual embocadura da diplomacia brasileira para o
problema enfatiza o adiamento de decisões até onde for possível.
Ela não esconde sua profunda desconfiança sobre o real interesse
americano em criar a Alca. Os diplomatas acham que qualquer conversa mais
profunda tem de ser precedida por um aceno positivo dos Estados Unidos
na forma da supressão das taxações e barreiras protecionistas
não alfandegárias que prejudicam algumas das principais
exportações brasileiras para o mercado americano (veja
a reportagem seguinte).
Reprodução Orlando Brito![]() |
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1960 O
PIB dos EUA era 6,7 vezes |
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O
que nos unia O
que nos separava |
Pelo formato da reunião, Lula e Bush não vão ter tempo para enveredar por detalhes da lista de contenciosos que separa os dois países. Os auxiliares próximos do presidente brasileiro dizem que Lula está convencido de que uma relação comercial franca com os Estados Unidos, a nação mais rica e poderosa do planeta, abre ao mesmo tempo oportunidades e riscos monumentais para o Brasil. "Lula vai deixar claro que o que o Brasil está propondo é uma discussão sem conteúdo ideológico", diz Antônio Palocci, coordenador da transição e mais provável ministro da Fazenda do governo petista. "A Alca é uma oportunidade rara de progresso para todo o continente", afirma Donna Hrinak, embaixadora americana no Brasil. Negociação é a palavra-chave para entender o novo processo de relacionamento entre os dois países que começará com o encontro entre Lula e Bush no Salão Oval da Casa Branca. A embaixadora americana já aconselhou os brasileiros a usar as mesmas armas que empresas e setores da economia dos Estados Unidos usam para colocar Washington na defesa de seus interesses, os lobbies. "Um aliado natural dos agricultores brasileiros são as empresas americanas que exportam equipamentos e insumos para o Brasil", lembra Hrinak. "É preciso negociar."
Os diplomatas
tiveram de selecionar os convites, tal o interesse que Lula despertou
nos Estados Unidos. Cerca de vinte deles chegaram à embaixada brasileira
em Washington vindos principalmente de universidades e ONGs que desejavam
ouvir o presidente eleito do Brasil. Lula aceitou almoçar com jornalistas
no National Press Club e vai encontrar-se com sindicalistas e parlamentares
americanos. Na noite de terça-feira, o presidente recebe convidados
para um jantar na embaixada brasileira. A viagem de Lula aos Estados Unidos
servirá também ao propósito de apresentar a administração
petista a um mundo novo. Existe um certo consenso entre os analistas de
que Lula fará sua estréia no governo em condições
especiais do ponto de vista da economia mundial. "Os anos 90 foram um
período inédito e irrepetível na história
econômica. O jogo global de agora em diante será bem diferente
em muitos aspectos", diz Joseph Stiglitz, economista americano ganhador
do prêmio Nobel. "Durante a década passada, o fluxo de capital
para os países emergentes multiplicou-se seis vezes. Não
se verá movimento semelhante tão cedo." Foi uma década
de eventos formidáveis, como o desabamento do império soviético
e a elevação do capitalismo de modelo americano ao altar
do pensamento único. Chamou-se de globalização esse
rolo compressor de capitais abundantes, receitas padronizadas de crescimento
e uso da racionalidade no trato das contas públicas. O grande beneficiário
do processo foram os Estados Unidos. "Quando se compara a taxa de crescimento
médio mundial nos anos 90 com as taxas americanas fica claro quem
foi o grande vencedor da globalização", argumenta o economista
José Márcio Camargo, da Consultoria Tendências. Pois
bem, assiste-se agora ao refluxo da globalização nos moldes
americanos e ao fim do chamado Consenso de Washington, decretado pelo
próprio criador do termo, o economista inglês John Williamson.
Luis Humberto![]() |
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1978 O
PIB dos EUA era 8,2 vezes |
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O
que nos unia O
que nos separava |
Como todo movimento sísmico, o recuo da globalização deixou marcas perenes no cenário econômico mundial. Algumas conquistas do período continuam tão válidas quanto antes. Muitos países se deram circunstancialmente mal com a abertura de seus mercados, mas o conceito da abertura permanece como uma poderosa arma de modernização das economias. Um país pode sofrer por destravar suas fronteiras comerciais diante de potências que não fazem o mesmo em relação aos produtos agrícolas das nações pobres. Mas nenhuma nação chegará ao desenvolvimento com um modelo comercial isolacionista ou autárquico. Outra das idéias que podem figurar entre as conquistas dos anos 90 é a transparência nas contas públicas como parte integrante de um regime democrático. Parece inconcebível a volta de governos gastadores irresponsáveis, fabricantes de déficits e inflações.
Mas muita
hipocrisia dos países desenvolvidos sofreu um processo de desmascaramento.
Ficou patente o uso do protecionismo por parte dos ricos para barrar o
acesso à riqueza global das nações emergentes e pobres.
Durante os anos 90, os países desenvolvidos ampliaram suas exportações
e achataram com subsídios anuais somados de 350 bilhões
de dólares as chances dos países emergentes de competir
no mercado internacional. Nos anos 90, as exportações dos
países membros do Mercosul, por exemplo, aumentaram 53%. Em contraste,
as importações cresceram 143%. A idéia predominante
era a de que importar mais do que exportar não quebraria os emergentes,
já que havia abundância de capitais prontos a inundar os
mercados dos países em desenvolvimento. Foi exatamente o que aconteceu.
Em 1988, apenas 30% dos emergentes tiveram saldo negativo na balança
comercial. Na década seguinte, 67% deles passaram a apresentar
saldo negativo e foram salvos da bancarrota pela entrada abundante de
capitais. O cenário agora é diferente. "Como os investimentos
externos secaram, o saldo positivo na balança voltou a ser vital
para os países", diz José Márcio Camargo. "Por isso,
a questão do protecionismo dos ricos está de volta à
pauta das discussões globais mais importantes."
Orlando Brito![]() |
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1986 O
PIB dos EUA era 11,9 vezes |
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que nos unia
O que nos separava |
Por essa razão é inescapável que o governo Lula faça da discussão sobre o protecionismo dos ricos um dos grandes temas da pauta de conversas com os Estados Unidos. Gilberto Dupas, coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional, da Universidade de São Paulo (USP), lembra que, embora a América do Sul e o Brasil nunca tenham sido prioridades para a política externa americana, o momento atual pode ser um dos mais positivos para um diálogo franco entre os dois países. "O poder e a riqueza dos Estados Unidos sempre foram descomunais em comparação ao Brasil, e por isso eles sempre ditaram as normas das relações bilaterais", diz Dupas. "Mas a confluência de um governo novo assumindo no Brasil com o fato de os americanos estarem travando uma luta planetária contra o terrorismo, para a qual precisam de todo aliado disponível, pode dar força a Lula."
Os americanos acenam para o Brasil com a abertura aos produtos brasileiros de uma economia que importa anualmente 1 trilhão de dólares. Acenam com o fato de seus vizinhos, o Canadá, ao norte, e o México, ao sul, estarem melhores depois de acertar os ponteiros comerciais com os Estados Unidos, com a abertura mútua das fronteiras. Vendendo produtos para os EUA, o Canadá fatura em cinco dias o que o Brasil leva um ano para obter no mesmo mercado. O México viu sua posição saltar de 26º maior exportador do mundo para a oitava posição depois de aderir ao acordo de livre comércio com os Estados Unidos, de cujos consumidores obtém 8 de cada 10 dólares de seu comércio exterior. Em 1992, o México tinha um déficit de 5 bilhões de dólares com os Estados Unidos. No ano passado, o superávit mexicano foi de 30 bilhões de dólares. Depois de franquear seu mercado aos Estados Unidos em troca do acesso a uma parcela do mercado interno americano de 5 trilhões de dólares, o México viu seu produto interno bruto (PIB) passar o do Brasil em 2001, fazendo da mexicana a primeira economia da América Latina.
Por essas
razões é que se diz que a Alca pode mudar radicalmente a
economia e, como conseqüência, a sociedade brasileira. "A decisão
de não participar do mercado americano é muito mais profunda
do que se imagina. Ela é tão radicalmente transformadora
quanto a de participar", diz José Alexandre Scheinkman, economista
brasileiro, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. "Esse
acordo é a única maneira de tornar factível a meta
de duplicar as exportações brasileiras em cinco anos", diz
Langoni.
Moreira Mariz![]() |
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1991 O
PIB dos EUA era 15,5 vezes |
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O
que nos unia
O que nos separava |
Entre as vantagens de entrar num acordo com os americanos, os economistas ressaltam:
Com toda a restrição, o mercado americano já é
mais acessível aos produtos brasileiros do que o europeu ou o asiático.
Os Estados Unidos são o principal destino de todas as exportações
brasileiras, superando a União Européia e os países
da América do Sul.
O mercado americano absorve principalmente nossos produtos manufaturados,
que são mais caros e rendem mais ao Brasil. Em contraste com o
mercado europeu que compra mais produtos primários do Brasil.
Aceitar o cronograma da Alca, que prevê o funcionamento para 2005,
torna inevitáveis as reformas estruturais, especialmente a trabalhista,
a da previdência e a tributária. Sem elas o Brasil não
atinge o nível de competitividade suficiente para obter benefícios
do comércio exterior.
Os riscos também são de alta voltagem. Alguns deles:
Os produtos americanos, mais baratos e tecnologicamente superiores, liquidariam
boa parte da indústria brasileira de manufaturados.
Os americanos usariam as chamadas barreiras não-tarifárias
para continuar dificultando o acesso de produtos brasileiros a seus mercados.
A economia brasileira se tornaria um mero apêndice da americana.
Não
é por outro motivo que Lula insiste em negociar pacientemente cada
etapa do processo de entendimento comercial com os Estados Unidos. O PT,
historicamente, sempre considerou o exemplo de sucesso do México
uma espécie de isca saborosa para atrair o peixão Brasil
para o tanque de tubarões dos Estados Unidos. Aos poucos, a visão
partidária dos petistas sobre a questão das relações
com os Estados Unidos foi evoluindo, a ponto de no encontro de terça-feira
todos os analistas terem a certeza de que Bush encontrará um Lula
pragmático, pronto a conversar de modo que nenhuma agenda ideológica
torne a negociação ainda mais difícil. "Lula realizou
um notável percurso em direção a uma postura realista
no campo da política externa", diz o cientista social Paulo Roberto
de Almeida, que é também diplomata de carreira e autor do
livro Formação da Diplomacia Econômica no Brasil,
publicado no ano passado. Num trabalho que acaba de concluir, Almeida
traçou a evolução do pensamento de Lula no que diz
respeito às relações externas. "Em 1989, Lula dizia
que, se chegasse ao poder, seu governo seria antiimperialista e defenderia
a luta dos povos oprimidos da América Latina", escreveu Almeida.
Há menos de quatro anos, observa Almeida, Lula colocava a Área
de Livre Comércio das Américas em segundo lugar na escala
de seus piores inimigos ideológicos, perdendo apenas para o "neoliberalismo
e a globalização selvagem promovida pelas grandes empresas
multinacionais". São declarações que soam hoje como
o eco difuso de um tempo distante.
Egberto Nogueira![]() |
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1995 O
PIB dos EUA era 16,6 vezes |
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O
que nos unia
O que nos separava
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A liderança petista em torno de Lula acredita que deu sinais eloqüentes de realismo nas primeiras visitas externas do presidente eleito na semana passada. Lula foi à Argentina e ao Chile. Poderia ter ido à Venezuela e a Cuba antes. "No discurso e na prática, o governo Lula está mostrando sua disposição de colocar a relação com os americanos nos termos mais práticos possíveis", diz Paulo Resende, cientista social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Os americanos captaram esses sinais? Certamente eles não passaram sem ser notados. "Percebo com satisfação que brasileiros e americanos estão demonstrando que entenderam a importância do atual momento e não querem perder a oportunidade de aprofundar as relações", diz Anthony Harrington, ex-embaixador americano no Brasil que hoje preside uma empresa de consultoria em Washington, a Intelligence Oversight Board. Harrington acredita que o encontro de terça-feira pode ajudar ambos os lados a "dissipar mitos e suspeitas que tradicionalmente prejudicaram as relações" entre os dois países. Segundo o ex-embaixador, os americanos têm interesse genuíno no sucesso do governo Lula e por isso vêm dando seguidas mostras de simpatia para com o petista. "As vantagens para os Estados Unidos de um bom governo de Lula são tanto políticas quanto econômicas", disse Harrington. "De um lado, toda a economia do hemisfério, inclusive a nossa, sofreria com um fracasso da administração Lula. De outro, interessa ao governo americano que o Brasil continue sendo a âncora da estabilidade democrática numa região em que todos os vizinhos são muito frágeis", completa Anthony Harrington. Ao que parece, mesmo com chefes de Estado de personalidade e formação tão díspares, Brasil e Estados Unidos não escapam do destino de ser sócios.
Com
reportagem de Malu
Gaspar
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