
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
E
aguardem: no próximo bloco...
Uma
sugestão para dar mais
clareza
e objetividade à
disputa
entre os candidatos
– No
próximo bloco... Candidato enfrenta candidato em luta corporal.
Ainda não se chegou a tanto, mas quem sabe chegaremos? E, se chegarmos,
que mal há nisso? A força dos músculos e a valentia
são as formas mais naturais de galgar a uma posição
de liderança. Não poucas nações de ilibada
reputação, ao longo da história, escolheram seus
reis por esse método. Mesmo hoje, povos nas florestas ou em ilhas
do Pacífico a ele atribuem peso decisivo. Isso sem falar nas turmas
de rua ou nos clãs familiares. No Brasil de hoje, viria agregar
clareza e objetividade a um processo eleitoral carente de critérios
para a segura avaliação dos candidatos.
Se algo já está nítido, a esta altura da campanha
presidencial, é a desmoralização dos programas de
governo. O candidato Lula começou a campanha com um programa que
pregava a "ruptura" com o atual modelo. Não gostaram, e a "ruptura"
foi riscada do mapa. O candidato Ciro Gomes defendia uma reforma política
prevendo curioso sistema de dissolução do Parlamento e convocação
antecipada de eleições, sem que o regime deixasse de ser
presidencialista. Presidencialismo com dissolução do Parlamento!
Algo jamais visto! O candidato foi acusado de pouco-caso com as instituições
democráticas, até mesmo de flertar com o fascismo
e adeus dissolução. Seu programa virou uma obra aberta,
que pede sugestões pela internet, e em que cabem a qualquer momento
correções e contribuições.
E quando os programas se põem a precisar cifras? Um promete criar
8 milhões de empregos, outro, 10 milhões. A segurança
com que tais metas são apregoadas supõe que os formuladores
de programas sejam capazes de figurar a exata conjuntura nacional e internacional
que terão pela frente nos próximos quatro anos, incluindo
guerras, ataques terroristas e crises do petróleo. Só assim
mereceriam alguma credibilidade cifras sacadas sobre o futuro. Estariam
eles com essa bola toda, melhor dizendo: com essa bola de cristal toda?
O candidato Garotinho fixou em 280 reais o salário mínimo
que baixará em seu primeiro ano de governo e em 400 reais o que
baixará no segundo. Quando anunciou tais valores, 280 reais equivaliam
a 100 dólares, sempre tomados como piso para um salário
mínimo decente. Hoje já estão abaixo desse patamar.
Garotinho, na improvável hipótese de ser eleito, e ainda
mais que, nesse caso, é razoável supor que os chamados mercados,
e com eles o câmbio e o risco país, estarão indóceis
como montaria de rodeio, corre o risco de estar oferecendo um salário
mínimo com poder de compra menor que o atual.
"Programa"
é palavra que os candidatos pronunciam com a boca cheia. "Está
no meu programa", "consulte o meu programa", "tenho um programa", dizem,
com a gravidade bufa com que o Pacheco, de Eça de Queiroz, personagem-síntese
da tacanhice jeca do político português, dizia: "Ao lado
da liberdade, deve sempre coexistir a autoridade". "Programa de governo"
seria sinônimo de seriedade. De compromisso. Recordem-se dos programas
do passado e se concluirá que de compromisso costumam ter pouco.
Examinem-se os do presente e se concluirá que de seriedade, com
suas idas e vindas, adendos e correções, têm também
pouco. Elaborar e apresentar um programa de governo não é
mais que o cumprimento de um ritual fastidioso. Acresce que, na atual
eleição, a diferença entre os programas resume-se,
como num jogo de armar, ao modo de combinar as mesmas palavras: emprego,
segurança, estabilidade...
Se os programas de governo estão em baixa, está em alta
a xingação entre os candidatos. Desde que começou
a propaganda na TV, Ciro Gomes e José Serra puseram-se em deliciosa
troca de impropérios. A mesma troca foi o ponto alto do debate
entre os candidatos na TV Record, na semana passada. E é disso
confessemos com todas as letras que o público gosta.
Sim, não sejamos hipócritas: é disso que todos gostamos.
Assim como o ponto alto dessa mais tediosa das competições,
que é a corrida de automóveis, é a derrapagem e a
trombada; assim como a cena inesquecível de uma tourada é
aquela em que o touro rasga os fundilhos do toureiro e o projeta nos ares;
assim também, num debate político, o que conta é
o momento do sarrafo, do vitupério. Prova de que o público
gosta é que o debate da Record teve a audiência média,
na Grande São Paulo, de 9,5 pontos, nada desprezível, para
a emissora, e para o horário, e que a audiência foi crescendo,
ao longo das duas horas e meia de programa, atingindo picos de 12 e 13
pontos, na mesma medida em que cresciam as afrontas entre os adversários.
Com isso voltamos ao ponto de partida. Se os programas não oferecem
senão mesmices e platitudes, quando não fátuos exercícios
de futurismo, se o que vale mesmo é briga, e se de briga o público
gosta, por que não incluir, nos debates futuros, um segmento em
que os candidatos se enfrentam fisicamente? Depois do jornalista-pergunta-a-candidato
e do candidato-pergunta-a-candidato, o mediador anunciaria:
No próximo bloco... Candidato enfrenta candidato em luta
corporal.
|
|
 |
|
 |

|
 |