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que o Islã não
sente remorso
Os
dezenove terroristas responsáveis pela carnificina no World Trade
Center e no Pentágono eram árabes e muçulmanos. Eles
atacaram em nome de uma versão fundamentalista do Islã minoritária
entre o 1,3 bilhão de muçulmanos. Um ano depois do atentado,
a reação da maioria islâmica ao desafio da minoria
fanática ainda é uma questão sem resposta

Veja também |
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Um
efeito notável dos atentados de 11 de setembro foi o de revelar
para a maioria das pessoas a existência de um mundo obscuro, agressivamente
primitivo e vingativo, o do fundamentalismo islâmico. Tão
logo se soube que a carnificina fora cometida em nome de Alá, levantou-se
um coro de vozes sensatas entre elas a do presidente americano
George W. Bush para garantir que Osama bin Laden e os dezenove
seqüestradores não podiam ser vistos como a verdadeira face
do islamismo, religião com 1.400 anos de existência e 1,3
bilhão de fiéis. Um ano depois, ainda está em aberto
a questão de como o mundo muçulmano reagirá ao desafio
da minoria fanática e sedenta de sangue. O que se viu até
agora é pouco animador. Do Marrocos à Indonésia,
as ruas foram tomadas por manifestações a favor de Osama
bin Laden. No Paquistão, os mulás emitiram decretos religiosos,
as chamadas fatwas, convocando os fiéis à guerra
santa contra os americanos no Afeganistão, e milhares de voluntários
atenderam ao chamado.
O historiador americano Daniel Pipes estimou, em entrevista a VEJA, que
a versão extremista atrai a simpatia de menos de 15% dos muçulmanos.
Isso torna mais intrigante a escassez de oposição pública
ao terrorismo no universo desses países. No início dos anos
90, Samuel Huntington, da Universidade Harvard, defendeu a tese de que,
encerrada a disputa ideológica entre capitalismo e comunismo, o
confronto global mais iminente seria o choque de civilizações
entre o Ocidente e o Islã. Na prática, as coisas são
um pouco mais complexas, pois o mundo islâmico é muito diversificado.
O historiador americano-palestino Edward Said acredita que, na realidade,
os atentados são conseqüência de uma disputa por corações
e almas entre diferentes correntes islâmicas no mundo árabe.
Essa disputa se alimenta do fracasso político, cultural e econômico
acumulado pelos países muçulmanos após o fim do colonialismo
europeu. O sentimento de frustração desses povos é
intensificado por uma infecção cultural típica do
Oriente Médio: a arraigada convicção de que todos
os acontecimentos significativos têm origem numa conspiração
externa.
AP
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GUERRA
SANTA
Militantes de partido islâmico paquistanês manifestam apoio a Osama
bin Laden nas ruas de Karachi: dificuldades de conviver com a tolerância
religiosa |
O
mundo moderno é repleto de promessas mas a maioria dos muçulmanos
é pobre demais para usufruir delas. Muito mais presente é
a desorientação cultural produzida pela própria modernidade.
Os regimes árabes são, praticamente todos, arremedos ditatoriais
de modelos políticos ocidentais, com pouco a oferecer a seus cidadãos.
Os fundamentalistas, em contrapartida, prometem um mundo de regras bem
definidas, com destaque para a guerra maniqueísta entre os crentes
e os infiéis. Francis Fukuyama, professor de política econômica
internacional da Universidade Johns Hopkins, diz que os americanos tendem
a acreditar que seus valores e instituições democracia,
direitos individuais e liberdade econômica são aspirações
universais. Infelizmente não é assim. Enquanto a maioria
dos povos da América Latina, da Ásia e da África
inveja a riqueza das nações desenvolvidas, os fanáticos
fundamentalistas só vêem provas de consumismo decadente no
mundo ocidental. As massas do mundo árabe tenderam a comemorar
os atentados de 11 de setembro porque essa tragédia, segundo a
visão de muitos dos que aprovaram o ataque, humilhou os Estados
Unidos, país que eles consideram corrompido e infiel. "A corrupção
não se expressa na permissividade ou nos direitos da mulher, mas
na sociedade leiga. O que detestam é que o Estado promova o pluralismo
religioso e a tolerância, em vez de ser um servo da verdade religiosa",
diz Fukuyama. A ofensiva militar contra a Al Qaeda é uma boa forma
de neutralizar o terrorismo islâmico. Mas haverá sempre um
problema de grande envergadura se os próprios países islâmicos
não derem sua contribuição no combate ao terrorismo.
O desafio para a comunidade muçulmana está na convivência
com o princípio do Estado leigo e da tolerância religiosa.
"Ela precisa decidir se quer fazer as pazes com a modernidade", afirma
Fukuyama.
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