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Pecado original

Para David Mamet, nada mais humano
que enganar o próximo

Isabela Boscov

 
Macy (à dir.), o dilme dentro do filme: humor afiado

Batizar um filme de Deu a Louca nos Astros (State and Main, Estados Unidos/França, 2000) é pedir que o público fuja dele. Mas, no caso da nova fita dirigida pelo dramaturgo americano David Mamet, em cartaz a partir de sexta-feira no Rio de Janeiro e Brasília, vale a pena conter esse impulso. Mamet é conhecido pelos diálogos fulgurantes de tão bem escritos e também por sua fixação por escroques, enganadores e mentirosos – protagonistas dos sete filmes que lançou até hoje, quase todos dramas. Essas duas características são primorosamente mantidas em Deu a Louca nos Astros. A diferença é que o tom aqui é cômico, a começar pelos personagens. Para protagonizar um divertido jogo de aparências, Mamet lança mão de uma equipe de Hollywood. Ela se instala numa cidadezinha idílica para rodar um filme e, principalmente, para fugir de sua locação anterior, onde o apetite do astro principal (Alec Baldwin) por garotas que ainda fazem lição de casa causou sérios embaraços.

Mamet é um dos raros diretores teatrais que fazem bom cinema. Um de seus truques é incentivar os atores a atuar não para a câmara, mas, por assim dizer, para a platéia, como se estivessem no proscênio de um teatro. Esse estilo cai como uma luva a Deu a Louca nos Astros, em que todos os personagens estão tentando passar a perna uns nos outros. A estrela do filme dentro do filme, por exemplo, sofre um súbito acesso de modéstia e não quer despir-se para uma cena – na verdade, deseja ganhar um extra polpudo. O diretor (William H. Macy) trata de adoçá-la com mentiras, mas põe o produtor para intimidar a moça. Cínico como ele só, Mamet também não poupa os "nativos". Uma colegial seduz o astro, velhinhos caipiras analisam as bilheterias do final de semana enquanto tomam café no bar e o candidato a deputado tenta desencavar um escândalo para processar a equipe e pôr seu nome nas manchetes. No meio disso tudo, o roteirista sonhador (Philip Seymour Hoffman) e sua namorada fazem esforços fúteis para se agarrar à ética. O título original, que poderia ser traduzido como "Na esquina da Rua State com a Main", explica tudo. Trata-se daqueles nomes de ruas que existem em toda cidadezinha americana. Ou seja: não importam o lugar nem os personagens, as tramóias são parte da natureza humana. Pode não ser uma mensagem original. O difícil é encontrar quem a transmita com o brilho de Mamet e seu elenco afiadíssimo.

 

   
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