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O grande desafio

Balanço social do IBGE mostra avanços em
várias áreas, exceto na distribuição de renda

Ricardo Mendonça

Em geral, as discussões sobre desigualdade social no Brasil costumam ser travadas fora do campo da racionalidade, contaminadas por crenças ideológicas e até mesmo por certa dose de idealismo. A Igreja trata do problema como se a desigualdade fizesse parte de um plano diabólico das elites para prejudicar os desfavorecidos. O discurso dos partidos de oposição insinua que a injustiça seria fruto de uma opção do Palácio do Planalto, como se o presidente preferisse dar dinheiro a banqueiros em vez de investir na melhoria da qualidade de vida dos mais pobres. E, quando fala no assunto, o governo também não ajuda muito. Os discursos oficiais algumas vezes mascaram a discussão central exibindo os números dos avanços sociais, como se eles, por si sós, pudessem neutralizar o abismo entre ricos e pobres. Esse debate desfocado ocorreu novamente na semana passada, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma lista de números mostrando as transformações sociais pelas quais passou o país entre 1992 e 1999.

A análise dos dados deixa claro que o Brasil melhorou bastante no período estudado. Foram avanços formidáveis, levando-se em conta o período relativamente curto – menos de uma década. A maioria dos países costuma consumir o dobro de tempo para registrar mudanças desse nível. A mortalidade infantil brasileira caiu 22%. O analfabetismo baixou 22,5%, e a média de anos de estudo cresceu 15%. Também aumentaram a renda média mensal da população e a quantidade de residências com saneamento. Os efeitos positivos desses indicadores se concentram nas camadas mais pobres da população. Afinal, não era o brasileiro das classes média e alta que não sabia ler nem escrever, perdia o filho recém-nascido por falta de condições básicas de atendimento e não tinha rede de esgoto em casa. Juntamente com o pacote de boas notícias, o IBGE divulgou um dado preocupante sobre a desigualdade de renda. No período analisado, a distância entre ricos e pobres no Brasil aumentou ainda mais. A camada mais baixa da população precisa trabalhar em média quase três anos para atingir o rendimento médio mensal da camada mais rica. É uma das distribuições de riqueza mais injustas do mundo.

A concentração de renda é um daqueles problemas que misturam razões históricas, ligadas à herança escravocrata, geográficas, provocadas pela seca, por exemplo, e étnicas. Ainda hoje os negros não são pobres porque nascem pobres. Como costuma lembrar o cientista político Sérgio Abranches, eles estão aprisionados à pobreza por barreiras que impedem sua ascensão. Misturam-se a essas razões o mau funcionamento do serviço público e a própria qualidade da representação política. Deputados e senadores, muitas vezes, dedicam-se mais a defender as corporações que os elegeram que a defender um aproveitamento mais justo do dinheiro público. Infelizmente, o desequilíbrio não se alterou com o Plano Real. Após a divulgação dos dados do IBGE, chegou-se a escrever que o Brasil é mais injusto nesse aspecto do que as mais pobres nações da África. Uma bobagem. Os países daquele continente têm, isso sim, uma distribuição absolutamente equânime – mas da miséria. Os conceitos de justiça social e riqueza não têm uma relação direta. Tanto é que a vida das camadas mais pobres do Brasil melhorou na última década. Esse avanço, contudo, não diminuiu a distância que as separa das classes mais abastadas.

Há ainda um fator importante que surge com o próprio desenvolvimento da sociedade: a tecnologia. Não que a internet aumente a distância entre ricos e pobres, outra bobagem. Mas é que, antes, os grandes investimentos eram capazes de gerar uma quantidade enorme de empregos. A construção de uma usina hidrelétrica, por exemplo, tinha impacto imediato nos índices de desemprego do país. Hoje a história é diferente. Não existem mais obras capazes de absorver um contingente formidável de operários. As oportunidades disponíveis no mercado de trabalho exigem mão-de-obra muito mais qualificada. E é aqui que está o ponto central: mais urgente que compreender como se chegou a esse cenário pavoroso é buscar uma saída. E ela está justamente nos investimentos de caráter social, principalmente a educação. Experiências recentes de recuperação dos indicadores econômicos e sociais de países como o Japão e a Coréia do Sul, ao lado das iniciativas bem-sucedidas vividas pelas nações da Europa após as duas guerras mundiais, sinalizam que é esse o caminho a ser trilhado. Espera-se que os candidatos à sucessão de 2002 levem esse debate a sério.

 



 

   
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