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Terceira festa

O bilionário metrô do DF
é inaugurado outra vez

Lourenço Flores, de Brasília

Com festa típica do interior, Brasília ganhou na semana passada seu primeiro ramal de metrô. Ganhou, não. Re-re-ganhou, já que o trecho foi inaugurado pela terceira vez, embora nunca tenha funcionado. E teve de tudo: banda de música, fogos de artifício, bandeiras e população entusiasmada com a possibilidade de experimentar a novidade. Foi um momento de glória para o governador Joaquim Roriz, o mentor do metrô. Há nove anos, Roriz iniciou a obra, prevista para ter 41 quilômetros de extensão, ser concluída em três anos e custar 692 milhões de dólares. Numa inversão que nem a matemática do juiz Nicolau dos Santos Neto consegue explicar, o governador inaugurou apenas uma etapa de 31 quilômetros, mas que acabou custando 1,1 bilhão de dólares. Ou seja: a população do Distrito Federal comemora a chegada de pouco mais do que meio metrô, embora tenha desembolsado dinheiro para quase dois. A festa, de verdade, quem fez foram as empreiteiras.

Desde que a obra começou a ser negociada, em 1991, as principais empreiteiras do país já se articulavam para dividir o trabalho. Para simular que havia disputa, montaram dois consórcios. Um, integrado pelas construtoras Andrade Gutierrez, Serveng-Civilsan, Norberto Odebrecht e Camargo Corrêa, era de verdade. O outro, em que estavam a Mendes Júnior e a Constran, entrou só para fazer figuração. O governador Roriz, que não entende patavina de engenharia mas gosta muito de uma obra grandiosa, acompanhou desde o começo a movimentação das construtoras. Chegou a se empenhar pessoalmente para que uma delas, a Camargo Corrêa, fosse aceita no consórcio vencedor. Há uma espécie de dogma entre as empreiteiras quando o assunto é metrô: não existe preço definitivo. Afinal, quando o tatuzão começa a cavar o buraco pode encontrar de tudo, de rocha a areia movediça. Em Brasília, até onde se sabe, nenhuma anomalia geológica foi detectada. A mágica que fez o preço dobrar e a obra encolher aconteceu mesmo na superfície.

O projeto original previa a passagem dos trens pela superfície, o que baratearia muito a obra. O problema é que Brasília é tombada pela Unesco como patrimônio histórico da humanidade e não pode ter seu projeto arquitetônico original alterado. Os empreiteiros sabiam disso e ficaram na moita, esperando as organizações de proteção protestarem para mudar o projeto. E foi o que aconteceu. O metrô ganhou oito novas estações subterrâneas. Dessas, apenas duas foram entregues. As outras seis, por razões econômicas, pelo menos por enquanto foram cortadas do projeto. Como a perfuração das estações chegou a começar, nada impede que elas sejam feitas daqui a algum tempo, desde que – é claro – haja mais dinheiro à disposição. Para concluir o projeto, o governo do Distrito Federal jura que precisa de apenas 175 milhões de reais e nada mais. Palavra de empreiteiro.

 

   
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