O
vizinho fala grosso
O poderoso ministro da Economia argentino
fala em união com o Brasil, mas não descarta
negociar em separado com
os Estados Unidos
Raul
Juste Lores
Editorial Perfil
 |
"Não
acredito que nossa indústria corra riscos ao
competir com os produtos americanos. Quem
tem de temer
são eles"
|
Em
momentos de crise econômica, ele sempre aparece como
um super-homem, algo que adora. Aos 54 anos, o economista
Domingo Felipe Cavallo voltou a ocupar o sempre complicado
cargo de ministro da Economia da Argentina. Da primeira
vez conseguiu pôr fim a dois anos de hiperinflação
(de mais de 5.000% em 1989 e de 1.500% em 1990) e se tornar
o queridinho dos mercados internacionais ao começar
o primeiro grande processo de abertura econômica da
América do Sul. O país cresceu, em média,
7% ao ano nos cinco anos em que ele esteve no cargo. Desde
março sua missão é colocar fim a 33
meses de recessão, dissipar as dúvidas sobre
a capacidade argentina de honrar suas dívidas, acordar
a estagnada economia local e reduzir a taxa de desemprego,
que está em 15%. A maior mudança que conseguiu
operar, por enquanto, foi em seu estilo. Ultimamente deixou
de lado o jeito brigão. Anda mais conciliador. E
a metade dos argentinos diz acreditar que ele será
capaz de reativar a economia do país. Cavallo recebeu
VEJA para esta entrevista em seu escritório político,
no elegante bairro de Palermo Chico, em Buenos Aires.
Veja O governo brasileiro ficou irritado com
a inclusão de celulares e bens de informática
entre os produtos cuja importação, de qualquer
lugar do mundo, foi liberada de impostos na Argentina. O
senhor vai voltar atrás?
Cavallo
O Brasil é nosso sócio, e só recebo
sinais de apoio do governo brasileiro. Estive com o ministro
Alcides Tápias (do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio Exterior) e disse a ele que vamos
tirar produtos de informática e telecomunicações
da relação de itens de importação
beneficiados com redução tarifária.
Na verdade foi um engano nosso. Pensava que produtos de
informática e comunicações eram bens
de capital, mas nas cláusulas do Mercosul eles têm
uma nomenclatura à parte.
Veja O economista Adolfo Sturzenegger, um de
seus grandes amigos, disse, no mês passado, que se
deveria "acabar de uma vez por todas com esse projeto absurdo
chamado Mercosul". O que o senhor acha dessa afirmação?
Cavallo
Ele não utilizou o termo adequado. Acho que se referia
às dificuldades que enfrentamos para dar plena vigência
à união aduaneira entre os quatro países.
Sturzenegger, como grande parte dos economistas argentinos,
reconhece o imenso valor do livre comércio que há
no Mercosul. E também o grande potencial que existe
para a integração de infra-estrutura e serviços
entre os países do acordo. Na Argentina damos muita
importância à iniciativa do presidente Fernando
Henrique Cardoso, apresentada na reunião de chefes
de Estado da América do Sul, no ano passado, de promover
a integração da infra-estrutura dos países
do Mercosul.
Veja Mas o Mercosul não está
agonizando?
Cavallo
Acho que o bloco pode ser revitalizado por meio da execução
desse programa de integração de infra-estrutura
e serviços. Pode inclusive crescer e estender-se
por toda a América do Sul. Há algumas dificuldades
na implementação da tarifa externa comum e
na negociação externa dos países associados
como um único bloco. Essas dificuldades desapareceriam
se a negociação fosse feita entre Brasil e
Argentina e os Estados Unidos, ou entre Brasil e Argentina
e a Europa. Isso porque os interesses brasileiros e argentinos
são semelhantes e complementares. Os dois países
poderiam, portanto, operar em conjunto sem maiores problemas.
Mas como Mercosul, com dois países tão diferentes
em tamanho e em características como são o
Uruguai e o Paraguai, obviamente a negociação
conjunta fica mais difícil.
Veja O senhor ficou muito irritado com o Brasil
quando a importação de grãos e produtos
agrícolas argentinos foi barrada, por falta de informação
sobre a abrangência da febre aftosa em seu país?
Cavallo
Não. No encontro de nosso secretário de Agricultura
com o ministro Marcus Vinicius Pratini de Moraes ficou claro
que o Brasil não tinha recebido toda a informação
que deveria a respeito das condições sanitárias
de nossos animais e vegetais. Esses dados estão sendo
fornecidos para que isso não atrapalhe a relação
entre os dois países.
Veja O que mais o senhor espera do Brasil?
Cavallo
Temos de trabalhar junto com o Brasil para crescermos vigorosamente.
O melhor para o Brasil é o crescimento da Argentina.
O melhor para os argentinos é o crescimento dos brasileiros.
Veja O senhor pensa na possibilidade de desvalorização
cambial?
Cavallo
Não. Veja como era a Argentina antes da conversibilidade.
O austral foi rejeitado pelos argentinos e, na prática,
a população usava dólares, mas a inflação
se media em austrais e havíamos chegado à
hiperinflação, de mais de 5.000% ao ano. Tínhamos
de introduzir uma moeda nacional que gerasse confiança,
que fosse utilizada voluntariamente pelos argentinos, que
não fosse obrigatória. A única forma
de fazê-lo foi a garantia de conversibilidade, respaldada
por divisas e paridade fixa. Não podemos abrir mão
disso.
Veja A conversibilidade vai continuar por muito
tempo?
Cavallo
A conversibilidade e o peso vão continuar. E acho
que algum dia, em todo o Mercosul, as moedas serão
conversíveis, terão valor semelhante ao de
outras moedas fortes. Falta demonstrar que o sistema é
realmente bom para a Argentina, algo que ainda é
colocado em dúvida.
Veja Mas recentemente o senhor aventou a possibilidade
de o peso ser atrelado a uma cesta de moedas, incluindo
o euro, o iene e até o real...
Cavallo
A Lei de Conversibilidade permite que na Argentina se use
o peso, o dólar, o euro ou qualquer outra moeda conversível.
Na prática, os argentinos usam apenas o dólar
e o peso, mas seria interessante que se usasse também
o euro, já que temos grandes conexões com
a Europa. Isso permitiria ampliar a margem de escolha dos
empresários e dos cidadãos que têm de
utilizar alguma moeda. A partir de 2002, quando as cédulas
de euro começarem a circular na União Européia,
poderão ser usadas também na Argentina.
Veja O que o senhor acha da idéia de
antecipação do acordo da Alca (Área
de Livre Comércio das Américas), de 2005
para 2003?
Cavallo
A negociação da Alca vai ser necessariamente
lenta. Isso porque ela envolve todos os países do
hemisfério. É uma negociação
tão complexa quanto uma rodada da Organização
Mundial do Comércio. Por isso vai ser difícil
acelerar os prazos da Alca. O que poderia ser feito é
uma negociação de livre comércio de
alguns países com os Estados Unidos, como o Chile
já começou a fazer. O que o Brasil e a Argentina
deveriam, em algum momento, avaliar é se é
conveniente ou não participar de uma negociação
dessa natureza. Teríamos de avaliar também
se esse tipo de negociação prévia deveria
ser feito individualmente, país por país,
ou em conjunto, entre Brasil e Argentina. Esta última
possibilidade é muito interessante.
Veja Um acordo assim, bilateral, poderia ser
anterior a 2005?
Cavallo
Se houver uma negociação de livre comércio
entre Estados Unidos e algum país da América
do Sul, essa negociação pode ser anterior
à da Alca. Envolvendo todos os países, será
necessariamente lenta.
Veja O senhor acha que o Brasil errará
se insistir em negociar apenas depois de 2005?
Cavallo
Para a Alca não é um erro. Mas tanto o Brasil
quanto a Argentina deveriam estudar a conveniência
de encarar uma negociação de livre comércio
com os Estados Unidos. Acho que a negociação
em conjunto seria mais conveniente para os dois, mas isso
é algo que o governo argentino e o brasileiro ainda
não decidiram. Não há, ainda, proposta
oficial dessa natureza.
Veja Os empresários brasileiros ainda
são muito céticos em relação
aos benefícios que poderiam advir de um acordo com
os Estados Unidos. O que o senhor diria aos céticos?
Cavallo
Que temos muito a ganhar. Nossos produtos teriam acesso
ao mercado mais importante do mundo, que é o americano.
Poderíamos aproveitar uma negociação
dessa natureza para transformar Brasil e Argentina numa
plataforma para a criação de empresas do ramo
tecnológico, como a biotecnologia, a informática
e as telecomunicações.
Veja A indústria local não correria
muitos riscos?
Cavallo
Não acredito que nossa indústria corra riscos
ao competir com os produtos americanos. Quem tem de temer
são os americanos, porque obviamente os custos trabalhistas
em nossos países são muito mais baixos e,
à medida que encontremos a forma de facilitar investimentos
que aumentem a produtividade, poderemos ter vantagens adicionais.
Veja O senhor está sendo elogiado por
sua hiperatividade. Conversou com líderes políticos,
com seus adversários, visitou o Brasil, a Espanha,
os Estados Unidos, o Canadá e conseguiu obter poderes
extraordinários do Congresso. Tudo isso em menos
de vinte dias. Faltava ritmo ao governo?
Cavallo
Não
fiz isso sozinho. O presidente Fernando de la Rúa,
os governadores, os presidentes dos partidos, os legisladores
também trabalharam muito. Minha contribuição
foi sugerir uma metodologia. Eu disse que para enfrentar
essa crise o Executivo precisava de uma delegação
expressa de funções legislativas. E colocar
em andamento uma política de crescimento econômico.
Mas a energia foi dada primeiramente pelo presidente.
Veja Agora, na Argentina, o crescimento é
mais importante que o ajuste das contas públicas?
Cavallo
O problema nas equipes anteriores foi dar ênfase exagerada
ao ajuste fiscal, sem encontrar uma forma de revigorar o
crescimento. E o povo estava cansado de ajustes que não
produziam crescimento. Era cada vez mais difícil
aprovar cortes e reformas. Minha colaboração
foi indicar uma estratégia para que o país
possa voltar a crescer. A classe política se entusiasmou
e começou a implementá-la.
Veja Mas a Argentina precisa fazer um ajuste
em suas contas. O país ainda gasta mais do que arrecada.
Cavallo
A
disciplina do setor público será possível
em um contexto de crescimento. Assim como as privatizações,
as desregulamentações e a abertura da economia
foram possíveis em um contexto de estabilidade. Se
não tivéssemos primeiramente cortado de uma
tacada a hiperinflação, pela Lei de Conversibilidade,
não teríamos conseguido o apoio popular e
o consenso político para realizar todas as transformações
que marcaram a década de 90 na Argentina. É
a mesma coisa agora. Se não conseguirmos fazer o
país crescer, será muito difícil instaurar
a disciplina e a austeridade nos governos federal e provinciais.
Então vamos implementar políticas de austeridade
num ambiente de crescimento. É necessário
e será possível.
Veja O déficit voltou a surpreender.
Foi mais de 1 bilhão de dólares superior ao
que havia sido combinado com o FMI...
Cavallo
Ultrapassamos o déficit fiscal combinado com o FMI
em 1 bilhão de dólares, é verdade.
Isso porque gastamos muito na área da Previdência
Social e arrecadamos menos do que esperávamos devido
à instabilidade e à recessão aguda
deste primeiro trimestre. Mas fizemos os estudos e estamos
convencidos de que poderemos completar 2001 cumprindo as
metas.
Veja A Argentina passou o último ano
em uma maré pessimista, sem perspectiva. O senhor
consegue manter-se otimista?
Cavallo
Sou incrivelmente otimista. Meu último livro se chama
Paixão por Criar. Nós, argentinos,
somos muito criativos. Mas operamos, vivemos e funcionamos
em um sistema que nos coíbe a liberdade, n a criatividade. Que trava os investimentos, impede o aumento
da produtividade. A estratégia agora é muito
clara: temos de tirar todas essas travas, fertilizar o terreno
para que os argentinos possam aproveitar todo o seu talento.
O povo estava muito pessimista porque a situação
do país era terrível e não se via saída.
Agora que já é possível perceber a
luz no fim do túnel, o otimismo está de volta.
Veja O senhor ainda quer ser presidente?
Cavallo
Agora isso não me interessa. Estou colocando toda
a energia na minha condição de ministro da
Economia, em fazer a Argentina voltar a crescer.
Veja O que muda com os novos impostos? Eles
não agravarão a recessão argentina?
Cavallo
Espero aumentar substancialmente a arrecadação.
Criamos o imposto sobre as operações financeiras
e vamos adotar, nos próximos dias, medidas para reduzir
a sonegação e o contrabando. Também
estamos combatendo a corrupção, a ineficiência
e o esbanjamento no setor público. Tudo o que pretendemos
fazer daqui em diante em matéria tributária
visa a diminuir a pressão fiscal sobre os que já
cumprem a lei. Nosso objetivo final é fazer com que
cada um pague menos porque todos irão pagar, sem
sonegação.
Saiba
mais |
 |
Dos
arquivos de VEJA |
| |
40
bi não foi o bastante |
| |
Reportagem
de VEJA de 07/03/2001 sobre o empréstimo
do FMI de 40 bilhões de dólares à Argentina |
| |
Sangue,
suor e lágrimas |
| |
Reportagem
de VEJA de 21/03/2001 sobre o resfriamento
da economia argentina |
|
|