Ai! Ui! Ai! Ui!

Ruins de ler, novos manuais de
sexo provocam gemidos
de raiva

Ivan Angelo

Ilustração: Laerte

O século XX poderia ficar na História como o século do sexo. Foi marcado, logo de início, pela publicação dos ensaios do austríaco Sigmund Freud, pai da psicanálise, que destacaram a importância da libido, e está se encerrando com uma avalanche de obras a respeito de sexualidade. Mas, enquanto Freud propunha discussão, boa parte dos novos livros só parece esforçar-se para causar gemidos — não de prazer, mas de raiva. Fica com essa impressão quem dá uma olhada em dois manuais de sucesso que constam há várias semanas da lista de mais vendidos de VEJA: 177 Maneiras de Enlouquecer uma Mulher na Cama, de Margot Saint-Loup (tradução de Luiz Cavalcanti de M. Guerra; Ediouro; 124 páginas; 10,90 reais), e 203 Maneiras de Enlouquecer um Homem na Cama, de Olivia St. Claire (tradução de Raquel Mendes; Ediouro; 125 páginas; 10,90 reais).

São, como se deduz dos títulos, obras espelhadas. E, à primeira vista, seu propósito é dar um jeito nos orgasmos dos brasileiros, quem sabe tendo em mira a felicidade geral da nação no ano 2000. Mas é claro que há algo de suspeito nesse jogo, até nos nomes das autoras, tão parecidos. O livro do homem é americano, foi escrito em 1993 e tem título em inglês que bate com o brasileiro. O da mulher é francês, de 1995, e seu título original é 177 Maneiras de Levar uma Mulher ao Sétimo Céu. Diz um, na abertura: "Como utilizar este livro". Diz o outro: "Como usar este livro". No volume da mulher: "Prazeres solitários compartilhados". No do homem: "Um prazer solitário para dois". Trazem as mesmas dicas iniciais de toques, de automanipulação das partes íntimas, de observação e de utilização de objetos fálicos que visam explorar as possibilidades dos, digamos, equipamentos. A única coisa que ninguém se preocupou em explicar é por que enlouquecer uma mulher dá menos trabalho do que enlouquecer um homem (segundo a lógica dos livros, ele precisa de 26 truques a mais).

A linguagem nos dois é indigente, vacila entre o convencional e o chulo. A cafonice impera, como na seguinte passagem, a 77ª maneira de deixá-la louca: "Brinque com as tiras de elástico das ligas, faça-as estalar, primeiro devagarinho, depois com mais força. Diga-lhe que essas tiras são como as fitas das embalagens de presente em suas pernas gostosas". (Raios!) A maneira de enlouquecê-la número 79 diz que ele pode, nessa ocasião, usar por exemplo "uma ceroula com um buraco deixando passar a ***". (Raios duplos!) Erros de português, como "podem tornarem-se", adornam os dois, digamos, compêndios. O da mulher tem um estilo tão delicado quanto o de um poeta de mictório masculino. A dica 148 recomenda urinar durante a relação! "Não há receitas, mas tente. O calor que a invade arranca-lhe gritos de contentamento que você não está acostumado a ouvir e que serão difíceis de esquecer", diz o texto. (Raios múltiplos!) Por que tal porcaria daria prazer à mulher? Parece mais insulto do que erotismo, coisa de mente estragada. Foi-se o tempo em que manuais de sexo eram também boa literatura. Nos últimos 2.000 anos tivemos toda uma série de obras que merecem figurar numa estante de clássicos, desde A Arte de Amar, do poeta latino Ovídio, até os libertinos do século XVIII, passando pelos indianos Kama Sutra e Ananga Ranga, o árabe Jardim Perfumado ou o pândego e português Bocage, das Cartas de Olinda e Alzira. Eram obras que, além de boas de ler, davam conselhos úteis.

 



 





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