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Edição 1 772 - 9 de outubro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Lula, no dia seguinte:
três dúvidas

Que será dos ternos Armani?
Que será do slogan "paz e amor"?
E que será de Duda Mendonça?

Que será dos ternos Armani?


Cenário 1. Que alívio! Enfim, a campanha terminou. Lula começa por afrouxar o colarinho. Arranca a gravata. Desveste o paletó e arremessa-o com vigor ao chão. "Que bom", diz. "Nunca mais." Marisa não entende: "Nunca mais o quê, querido?". "Nunca mais este maldito terno." Tira também a calça e pula em cima da roupa agora desprezada, pisoteia o paletó, depois a calça, entre "ufas" de alívio e gritos de vitória, como numa dança de libertação. De repente, tem uma idéia. "Marisa, passa aquela tesoura", pede. "Você não vai..." "Vou, sim." Pega a tesoura e faz picadinho do terno, entre gargalhadas. "Nunca mais", repete. E joga os pedacinhos do terno destruído para o alto, como quem joga serpentina, alegre como no Carnaval. Então vai ao velho armário da época pré-eleitoral, e tira uma calça jeans e uma camiseta vermelha. "Não va como numa dança de libertação. De repente, tem uma idéia. "Marisa, passa aquela tesoura", pede. "Você não vai..." "Vou, sim." Pega a tesoura e faz picadinho do terno, entre gargalhadas. "Nunca mais", repete. E joga os pedacinhos do terno destruído para o alto, como quem joga serpentina, alegre como no Carnaval. Então vai ao velho armário da época pré-eleitoral, e tira uma calça jeans e uma camiseta vermelha. "Não vai me dizer que você vai à posse assim...", espanta-se Marisa. "Vou. E se me chatearem visto a camiseta com a estampa do Guevara." Marisa enfurece-se: "Lula, você dizia que o Plano Real era um estelionato eleitoral. O terno Armani é que foi um estelionato eleitoral!".

Cenário 2. "Que tal, querida?" Lula está em frente ao espelho, alisando o paletó como quem alisa os pêlos do gato de estimação. "Lindo", responde Marisa. "Não é que fiquei bem mesmo?", retoma Lula. "Pensei que só fosse suportar esse tipo de roupa durante a campanha, mas me dei tão bem... Não sei como pude viver com os trapos que vestia antes." "Até parece que você descobriu sua verdadeira identidade, não é, querido?" Lula continua a mirar-se no espelho, com ares apreciativos. "Agora que sou presidente vou precisar de mais. Liga para a loja, querida. Encomenda mais uns cinqüenta. Acho que dá. Para o primeiro ano, dá."

Que será do slogan "paz e amor"?

Cenário 1. Centro de treinamento do Banco do Brasil, sede do governo de transição. "Mas você não era o Lulinha paz e amor?", pergunta José Dirceu. "Se queres paz, prepara-te para a guerra", recita Lula, à guisa de resposta, e continua a alinhar seu ministério: "Chefe da Casa Civil, João Pedro Stedile". "Logo esse?", reage Dirceu. "E logo Casa Civil? O negócio dele não é reforma agrária?" "Ele não deixará de cuidar da reforma agrária", responde Lula, "mas terá muitas outras atribuições. Será o orientador do governo como um todo." "Bem", conforma-se Dirceu. "Temos ainda o Banco Central. Podemos compensar nomeando alguém de confiança do mercado..." "Desculpe", corta Lula, "mas para o Banco Central já fiz minha opção." "Quem?", pergunta Dirceu. "O Zé Maria." "Qual Zé Maria?" "Ora, o Zé Maria. Do PSTU." "O 'quem bate cartão não vota em patrão'?" "Não. O 'contra burguês, vote 16'. Mas você me deu uma idéia... Também esse outro, o 'quem bate cartão'... Quem sabe para as Relações Exteriores?..."

Cenário 2. "Um inimigo em cada ministério, essa é a idéia", diz Lula. "Como?", pergunta Dirceu. "Nossos inimigos vão governar conosco?" "Lembre-se, Dirceu: sou paz e amor. Anota aí: o Mario Amato... Lembra do Mario Amato, que disse que 800.000 empresários deixariam o país se eu fosse eleito, em 1989? O Mario Amato será ministro." "Não acredito." "Acredite. E outro será... Adivinha." "A essa altura, não adivinho nada", diz Dirceu. "Tan-tan-tan-tan... PEDRO MALAN!" Dirceu engasga. "Por favor, um copo d'água."

Que será de Duda Mendonça?

Cenário 1. Ainda na sede do governo de transição. "O Duda já se foi?", pergunta Lula. "Já", responde Mercadante. Lula sorri maroto como um garoto quando o professor vai embora. Abre uma gaveta, tira de lá um documento. "Que é isso?", pergunta Mercadante. "O programa da ruptura." "O quê?" "Aquele programa, lembra?, que dizia que nossa primeira tarefa seria romper com o modelo vigente." "Mas nós o renegamos", pondera Mercadante. "Nós quem, cara pálida? O Duda renegou. Mas o Duda acabou. Lembra o que o Garotinho disse do Serra, naquele debate? Na propaganda aparece a Elba Ramalho. Mas, na hora de governar, quem governa é ele – e apontava para o Serra. Aqui também é assim. Na campanha o Duda mandava. Mas quem vai governar sou eu. Mercadante, vamos reler com cuidado o programa da ruptura."

Cenário 2. Washington, sede do FMI. Visita do presidente eleito do Brasil. Na ante-sala, Duda Mendonça, que acompanha Lula, dá as instruções. "Lembra da entrevista na Globo, quando lhe disse que a primeira coisa a fazer era dar os parabéns à Fátima Bernardes pelo trabalho dela na Copa? A estratégia é a mesma." Lula é convidado a entrar. Leva um maço de flores, que estende à senhora Anne Krueger. A dama da ortodoxia encanta-se. "Antes de mais nada, quero cumprimentá-la pelo magnífico trabalho realizado até agora." A dama da ortodoxia dobra-se. Lula prossegue: "E quero assegurar que meu governo estará sempre pronto a cumprir as metas e..." A dama da ortodoxia derrete-se: "Se era assim, por que não avisaram antes? Tanta desconfiança tola, tanta incompreensão em nossas vidas..." Foi o início de uma grande amizade.

 
 
   
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