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Lula
e "as elite"
"A
elite brasileira é muito
menos elitista
e
corporativista do que Lula imagina.
Nossa elite fala como Lula, pensa
como Lula, segura o garfo como Lula"
Eu
só sinto dó da elite nacional. Foi vituperada de todos os
lados nessa campanha eleitoral. Os ataques mais ferrenhos partiram de
Lula, claro. Ele disse: "A elite brasileira é a mais perversa do
planeta". E: "Pretendo ensinar à elite como governar este país".
E: "A elite defende a agiotagem". E: "Quando a elite discordava de alguém,
mandava prender e torturar". E, por fim: "A ganância da elite transformou
a venda das empresas estatais num estupro igual aos do maníaco
do parque". Como reagiu a elite a esse bombardeio contínuo? Defendeu-se?
Indignou-se? Nada disso. Tomada pela síndrome de Estocolmo, penitenciou-se
e aderiu à causa de seu algoz. De fato, Lula conta com mais votos
entre eleitores da elite do que entre os pobres, tendo conquistado o apoio
de industriais, banqueiros, latifundiários, ex-presidentes, acadêmicos,
catedráticos, cardeais e altas patentes militares. Até um
irredutível adversário como Antônio Ermírio
de Moraes se rendeu à sua retórica, afirmando que "nossa
elite continua egoísta".
A maior bronca de Lula é que, em 500 anos de história, a
elite conservadora nunca cedeu o poder "a um representante da grande maioria
do povo". Um dos raros casos de governo popular, segundo Lula, foi o de
seu "herói" Antônio Conselheiro. A CUT e o MST também
se inspiram no líder de Canudos, "satanizado pela elite da época,
mas a quem a história, graças a Euclides da Cunha, reservou
uma imagem mais justa". A imagem que Euclides da Cunha deu de Antônio
Conselheiro, pelo que me consta, foi a de um "doente grave", "um desequilibrado",
um "demente", que reuniu em torno de si uma "gente ínfima e suspeita,
avessa ao trabalho, vezada à mândria e à rapina",
e fundou com ela uma cidade "monstruosa", feita de barro, onde proliferavam
"todas as crenças ingênuas, todas as tendências impulsivas
das raças inferiores", numa "regressão ao estádio
mental dos tipos ancestrais da espécie". Em tempos mais recentes,
Lula elogiou outro líder popular que "combateu o autoritarismo
das elites": o presidente venezuelano Hugo Chávez. Lula definiu-o
"um homem culto". É curioso ver Lula distribuir atestados de cultura
mundo afora.
Lula se lamenta que a elite sempre governou o Brasil, mas foi incapaz
de acabar com a fome e a miséria. Olhando a história do
Brasil republicano, porém, quem realmente nos governou foi o poder
militar. A elite apenas se subordinou a esse poder. Mas a elite é
assim mesmo: acomoda-se oportunisticamente a quem quer que detenha o governo.
O principal beneficiário desse acomodamento, hoje em dia, é
o próprio Lula. O fato é que a elite brasileira é
muito menos elitista e corporativista do que Lula imagina. Boa parte dela
é formada por descendentes de imigrantes miseráveis que
chegaram ao Brasil no século passado. Trinta anos atrás,
receberiam bolinha preta em qualquer clube exclusivo que se preze. Nossa
elite fala como Lula, pensa como Lula, segura o garfo como Lula. O sinal
mais evidente da mobilidade e heterogeneidade de nossa elite é
que Lula costuma referir-se a ela no plural: "as elites". Ou, ainda mais
paradoxalmente, "as elite". É esse bando de "pervertidos", "agiotas",
"torturadores", "estupradores" e "maníacos" que agora se prepara
para reverenciar o novo imperador Lula.
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