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Não existe
plano B
O ex-secretário
do Tesouro dos
Estados Unidos, que negociou no
passado a dívida de 1,3 trilhão de
dólares dos emergentes, diz que
um plano de salvação hoje
seria impossível

Tania Menai,
de Nova York
O americano
Nicholas F. Brady, 72 anos, é uma lenda viva no mercado financeiro.
Como secretário do Tesouro dos Estados Unidos no fim dos anos 80
e começo dos 90, ele convenceu o então presidente George
Bush, pai do atual, a fazer um plano de renegociação coletiva
da dívida externa dos países em desenvolvimento. O rombo
passava um pouco de 1,3 trilhão de dólares. Assim foi montado
o Plano Brady, que permitiu aos países endividados trocar seus
papéis desacreditados no mercado por outros garantidos pelo Tesouro
americano, os chamados Brady Bonds. Nicholas Brady tem vocação
para bombeiro, mas ele não enxerga no atual cenário a mesma
oportunidade de alongamento das dívidas patrocinado por ele no
passado. Antes de fazer seu plano famoso, Brady foi escalado, em 1987,
pelo então presidente Ronald Reagan para presidir a força
de trabalho federal encarregada de reordenar os negócios com ações
em Wall Street, que se recuperava de um crash. Brady, que visita o Brasil
freqüentemente, é sócio majoritário da Darby
Overseas, empresa fundada em 1994 com o objetivo de investir na América
Latina. Ele falou a VEJA em Nova York na semana passada.
Veja
Como os Estados Unidos reagiriam a Lula na Presidência?
Brady Caso Lula seja eleito presidente, ele terá
de lidar com o mercado mundial. Vale nesse caso o que dizia o lutador
Muhammad Ali sobre seus adversários no ringue: "Ele pode correr,
mas não pode se esconder". Se o desejo de Lula for desacelerar
a entrada de investimentos estrangeiros no Brasil, só há
uma coisa a fazer. Só uma. Ignorar as regras do mercado. Se a estratégia
de Lula for a de renegar as dívidas, vai atrair para o Brasil uma
série de impactos negativos. Acredito que uma coisa é discurso
de campanha. Outra coisa é lidar com fatos reais quando se está
sentado na cadeira de presidente. Caso Lula seja eleito, ele terá
de enfrentar essas realidades. A mais evidente delas agora, a meu ver,
é que, não importa que sua vitória pessoal seja ampla,
ele terá de lidar com o Congresso, um Congresso forte. Portanto,
Lula terá de ir com calma. As grandes mudanças não
poderão ser feitas unilateralmente. Claro que, como presidente,
ele pode dizer o que pensa. Mas, para fazer o grande entendimento nacional,
terá de lidar com as realidades do mercado mundial e do próprio
Congresso.
Veja
Como o Brasil pode combinar disciplina fiscal com crescimento econômico?
Brady Esse é o grande problema. Ele será
apresentado ao novo presidente nos primeiros dias de seu governo. A retórica
de campanha já será coisa do passado, mas o desafio de sua
pergunta permanecerá. A melhor estratégia nesse caso é
a mais segura. Melhorar a situação fiscal continua sendo
a prioridade, e isso terá de ser feito. Caso contrário,
a longo prazo, a inflação vai voltar rapidamente, e o crescimento
econômico do país será estancado.
Veja
O senhor acha que há uma chance de o Brasil não pagar
a dívida externa?
Brady Mencionar isso como possibilidade, como Lula fez,
é uma coisa. Outra bem diferente é lidar com suas conseqüências
estando no cargo de presidente. Não o conheço pessoalmente,
mas não acredito que, ao assumir, Lula vá logo falando em
calote. No fundo, a verdadeira dificuldade do Brasil é a percepção
que o mercado tem atualmente do país. Se o novo presidente deixar
o mercado nervoso falando em calote, ninguém mais emprestará
dinheiro ao Brasil. Aí, sim, o mercado forçosamente vai
colocar a pergunta sobre se a dívida brasileira é sustentável
ou não. A percepção é importantíssima.
Armínio Fraga, presidente do Banco Central, fez um ótimo
trabalho ao tentar convencer os principais candidatos a se comprometer
formalmente com o pagamento da dívida externa brasileira. Isso
é crucial. O calcanhar-de-aquiles da situação financeira
do Brasil é a percepção. Em outras palavras, o que
as pessoas acreditam que pode vir a acontecer com a economia brasileira.
É fácil perceber que, se um número suficientemente
grande de pessoas achar que o país vai agir de forma irresponsável,
a pressão dos credores estrangeiros aumentará na mesma proporção.
Veja
O que foi aprendido com o calote das dívidas por parte
dos países emergentes nos anos 80?
Brady As condições atuais são muito diferentes.
Naquele tempo, os credores da dívida dos países emergentes
eram cerca de 400 grandes bancos. Atualmente, a dívida mais importante
é a interna, e ela está nas mãos de milhões
de investidores institucionais e individuais. A dívida externa
também está pulverizada. Investidores são donos de
centenas de papéis, ou bonds, diferentes. Ou seja, se naquele tempo
o calote já foi uma medida altamente prejudicial aos países
que o adotaram, agora é presumível que o dano seja ainda
maior. É sempre bom lembrar que os países latinos levaram
anos para se livrar do estigma do calote e das turbulências que
se seguiram.
Veja
O Plano Brady salvou os países emergentes de uma crise ainda
maior. O senhor acredita na reedição de um plano semelhante
agora?
Brady Desculpe-me, mas não posso responder a esse
tipo de pergunta. Ser secretário do Tesouro dos Estados Unidos
já é uma tarefa difícil o suficiente sem ex-secretários
do Tesouro dando opinião sobre o que eles deveriam fazer. Não
vou dar receitas ao atual secretário do Tesouro, mas acho que é
dever dos Estados Unidos manter o bom funcionamento do capitalismo democrático.
Essa é a melhor forma de erradicar a pobreza na América
Latina. Portanto, o trabalho que os EUA devem fazer é convencer
nossos amigos e vizinhos latinos de que o capitalismo democrático
tem de ser preservado.
Veja
O senhor fala em boa vizinhança, mas há uma crescente
decepção com as atitudes dos Estados Unidos no que diz respeito
às exportações brasileiras.
Brady Sei que todos têm criticado o presidente George
W. Bush por causa das tarifas de aço. A meu ver há um exagero
nessas críticas. Quando se leva em conta todas as tarifas, a questão
não é tão séria quanto querem fazer parecer.
No fundo, temos as barreiras mais baixas do mundo.
Veja
A má distribuição de renda no Brasil é
um fator inibidor do investimento estrangeiro no país?
Brady Sim, o freio nos investimentos tem muito a ver com essa
questão. Mas o problema da distribuição de renda
pode ser revertido ou atacado por meio do sistema de capitalismo democrático.
Isso envolve a criação de uma classe média numerosa
e orientada para o consumo, o que leva tempo, mas não existe outro
caminho para a prosperidade. O fim da inflação no Brasil
foi um passo importante nessa direção. Mas é preciso
fazer mais para dar poder econômico à classe média
e, gradualmente, no processo envolver as camadas mais pobres da população.
Esse é o sistema que, no final das contas, dará confiança
aos investidores.
Veja
O senhor concorda com as críticas que se fazem ao Fundo Monetário
Internacional (FMI), especialmente as do prêmio Nobel Joseph Stiglitz,
segundo quem o Fundo age mais para favorecer os interesses americanos?
Brady Durante quatro anos, lidei com o FMI e nunca acreditei
que o Fundo e o Banco Mundial beneficiassem os interesses dos americanos.
Também não entendo o ponto de vista de Stiglitz quando ele
diz que os Estados Unidos têm poder de veto nas decisões
do FMI. Acho natural que os países maiores sejam também
os mais influentes na administração do Fundo.
Veja
Como as economias emergentes podem evitar as volatilidades do mercado
financeiro mundial?
Brady Não acredito que elas possam evitar essas
situações. A incrível abertura dos mercados e a rapidez
com que a informação circula pelo mundo tornam impossível
ficar ao largo dessas mexidas bruscas. A rapidez do fluxo de informações
é positiva, exceto por um aspecto: as pessoas reagem com a mesma
agilidade. Vivemos num mundo "em tempo real". Quando a minha comissão
examinava a quebra da bolsa em 1987, criamos o chamado "circuit breaker",
mecanismo automático que interrompe o pregão quando o fluxo
dos pedidos de compra ou venda atinge índices claramente anormais.
Assim, como num cruzamento ferroviário, tem-se tempo de parar,
olhar e escutar. Isso dá a todos a chance de analisar determinada
informação. Foi útil, mas não acabou com o
"efeito manada", a tendência de o mercado agir de uma só
vez e numa única direção. Não imagino um sistema
que consiga resolver esse problema sem restringir a liberdade e a disponibilidade
de informação. A verdade é que as pessoas estão
se acostumando com mercados voláteis, a ponto de isso se transformar
num modo de vida.
Veja
Quanto tempo ainda vai demorar para a economia americana voltar a crescer
com maior vigor?
Brady Tempo é uma questão muito complicada.
É muito mais difícil prever isso que falar sobre as causas
do problema, ou seja, os excessos. Não tenho uma bola de cristal
para ver quanto a recuperação vai demorar. Contudo, posso
dizer que os exageros ocorridos no mercado de ações dos
Estados Unidos foram os maiores que vi em minha vida. A recuperação
ainda levará um tempo até que a demanda e a capacidade produtiva
cheguem a um equilíbrio. Acredito que até o fim de 2002
o mercado estará ainda baixo ou, na melhor das hipóteses,
próximo da estabilidade.
Veja
A desaceleração da economia americana continuará
influenciando a América Latina?
Brady É impossível haver turbulência
no mercado americano sem que isso tenha impacto sobre os mercados latinos.
Creio que os investimentos nos países latinos serão menores
do que vinham sendo. Essas economias vão diminuir seu ritmo, assim
como aconteceu com a economia americana.
Veja
Os americanos vão se adaptar bem a esses novos tempos de economia
em baixa?
Brady Os Estados Unidos são bem mais flexíveis
que as outras economias do mundo. Nós nos adaptamos melhor que
qualquer outra nação. Essa readaptação já
está ocorrendo de seis meses para cá, seja no mercado de
ações, na economia ou nos salários de executivos.
Os conselhos de diretores de empresas serão muito mais cautelosos
antes de autorizar salários, desde pagamentos a estrelas de cinema
até a executivos de alto escalão. Esses salários
já começaram a ser questionados, e vejo menos vontade da
parte de diretores em aprová-los. Ainda escutamos pessoas que esperam
altos benefícios, mas certamente elas não vão consegui-los.
O ponto importante é que o processo de mudança nos EUA é
muito dinâmico. Existem dificuldades estruturais em lugares como
a Alemanha, por exemplo, onde há enormes contratos trabalhistas,
ou na França, que estabelece horas restritas de trabalho. É
o que os economistas chamam de "rigidez estrutural". Os Estados Unidos
têm muito menos rigidez que os outros países.
Veja
O senhor já se referiu aos impactos não econômicos
dos avanços tecnológicos dos anos 90. Quais são eles?
Brady A revolução tecnológica reduziu
drasticamente a habilidade que os políticos do mundo todo tinham
de confundir seus eleitores. Eles ainda devem ser capazes de fazer isso
em Cuba, onde até hoje não existem muitos computadores conectados
à internet. Porém, não se pode mais enganar eleitores
na França, na Alemanha e em diversos países do mundo. Inclusive,
essa realidade se estende ao Brasil e à América Latina,
mesmo que o número de pessoas conectadas à internet no Brasil
seja ainda relativamente pequeno. Esse número, de qualquer maneira,
já é maior que nos últimos anos.
Veja
O Brasil e a América Latina ainda serão capazes de atrair
investimentos estrangeiros diretos nos próximos anos?
Brady Haverá um declínio. O Brasil, no entanto,
sendo o país mais forte da América do Sul, continuará
liderando a atração de investimento estrangeiro na região.
Minha experiência em lidar com a economia brasileira, quando fui
secretário do Tesouro dos Estados Unidos, me fez ver que o Brasil
é um país forte. Obviamente, a trajetória brasileira,
da mesma forma que a americana, não é uma linha reta. A
cada retrocesso, porém, os brasileiros estão se mostrando
capazes de se organizar e seguir em frente. Por isso, acredito que a parcela
de captação de capital estrangeiro por parte do Brasil continuará
sendo a maior.
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