Riso amargo

Allen volta ao cinismo
em Desconstruindo Harry

Sérgio Martins

Fine Line/Divulgação
Allen, com Elisabeth Shue e Billy Crystal: Mia Farrow gostaria


Woody Allen produziu uma piada sem graça ao trair Mia Farrow com a filha adotiva da atriz. Mas, para sorte do público, ele não deixou a vida pessoal contaminar a profissional. Como diretor, Allen continua perfeito tanto no humor leve quanto no corrosivo. Nos últimos anos ele se dedicou preferencialmente ao primeiro gênero, em filmes como Tiros na Broadway, Poderosa Afrodite e Todos Dizem Eu Te Amo. Já em Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, Estados Unidos, 1997), que estréia nesta semana no Brasil, o diretor americano volta a exercitar seu cinismo. É uma fita na linha de produções da década passada, como Memórias e Crimes e Pecados. Não provoca gargalhadas, apenas risos nervosos. O próprio Allen foge do tipo que costuma interpretar em seus filmes, o do neurótico boa-praça. Seu personagem, o autor Harry Block, é sujeito que cultiva o hábito de lavar a roupa suja de relacionamentos amorosos nos livros que escreve. Essa característica fez com que alguns críticos comparassem Block a um romancista de carne e osso: o americano Philip Roth, que detonou a ex-mulher no livro I Married a Communist, lançado no ano passado.

Por colocar na tela um personagem antipático, protagonista de uma história meio pesada, Desconstruindo Harry não é um filme para ver com a namorada no dia 12 de junho. Mas traz doses generosas do melhor Woody Allen, aquele das tiradas lapidares e da trilha sonora de primeira. Alguns exemplos de frases de efeito do filme: "As palavras mais belas da língua inglesa não são eu te amo, mas sim é benigno". Ou: "Acho que você é o oposto do paranóico. Você realmente acredita que as pessoas o amam". Como de hábito nas obras do diretor, a trilha sonora é calcada no jazz da melhor cepa. O inferno imaginado pelo personagem interpretado por Allen é um lugar maravilhoso onde todos ouvem Benny Goodman, o clarinetista que é um dos ídolos de Allen. Há também na trilha a versão do saxofonista Stan Getz para Garota de Ipanema. A bossa nova embala a primeira relação sexual do personagem com uma prostituta. Com esses atrativos e mais um punhado daqueles atores superconhecidos que imploram de joelhos por um papel num filme de Woody Allen Demi Moore, Billy Crystal e a voluptuosa Elisabeth Shue estão no elenco , Desconstruindo Harry é uma boa opção até mesmo para Mia Farrow.

 

 




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