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Desrazão pura

Um livro sobre a vida sexual
do filósofo Immanuel Kant.
Ela era tão movimentada
quanto um filme iraniano

Flávio Moura


O filósofo alemão Immanuel Kant foi um dos pensadores mais importantes da história ocidental – e uma das personalidades mais sem graça de que se tem notícia. Não se sabe de uma única mulher com quem ele tenha vivido um romance, de inimigos que tenha cultivado nem muito menos de qualquer escândalo, por mais ínfimo que seja, que tenha protagonizado. No geral, sua vida foi tão movimentada quanto um filme iraniano. Mesmo assim, A Vida Sexual de Immanuel Kant (tradução de Isabel Maria Loureiro; Unesp; 67 páginas; 7 reais), livro escrito nos anos 40 pelo intelectual francês Jean-Baptiste Botul, e que acaba de sair no Brasil, é uma leitura no mínimo curiosa. Para começar, pelos detalhes impagáveis que Botul fornece sobre o filósofo, um sujeito metódico de dar nos nervos, que jamais saiu de sua terra natal, a pequena cidade alemã de Königsberg (que hoje se chama Kaliningrado e pertence à Rússia). O lance mais ousado de Botul, no entanto, é afirmar que a atividade sexual (ou falta dela) de Kant é fundamental para compreender obras praticamente impenetráveis, como Crítica da Razão Pura – um monumento da filosofia que estabelece os limites do que pode ser conhecido pelo homem.

Como há limites também para o jornalismo, ninguém vai tentar explicar aqui o conteúdo dessa obra, uma das mais áridas já escritas. Filosofices à parte, o que importa é que, na opinião de Botul, Crítica da Razão Pura é uma expressão dos instintos voyeurísticos de Kant – instintos, aliás, que ele jamais colocou em prática, já que tudo indica que tenha morrido virgem. O filósofo achava o sexo um desperdício de energia vital. Para ele, o sêmen, a saliva e o suor eram fluidos que, preservados, ativavam o metabolismo e tinham potencial rejuvenescedor. Expelidos, trariam fraqueza e envelhecimento precoce. Por isso, Kant caminhava bem devagar – para não transpirar – e condenava veementemente a masturbação. De mulheres, então, fugia como o diabo da cruz. Sabe-se de uma senhora casada que enviou cartas ao filósofo, com convites inocentes para passeios em jardins. O destinatário, porém, ignorou olimpicamente as missivas.

É preciso dizer, no entanto, que Kant foi um sujeito casto não apenas por opção, mas simplesmente porque conviver com ele seria um esforço sobre-humano. Vejamos alguns de seus hábitos. Todas as noites, pontualmente às 10 horas, ele ia para o quarto – cujas janelas ficavam fechadas o ano inteiro – e se enfiava na cama de barriga para cima. Puxava a ponta do cobertor por sobre o ombro direito, passava-a por trás das costas até o outro ombro e daí trazia-a até a altura do umbigo. Devidamente empacotado, embarcava no sono. Caso alguma necessidade o despertasse no meio da noite, uma corda presa entre a cama e o vaso sanitário lhe servia de guia para não tropeçar no escuro. Outro charme de Kant: em sua época, o fim do século XVIII, os homens de posses costumavam usar calções e meias que iam até os joelhos. Como ligas apertadas bloqueariam a circulação sanguínea, Kant bolou um sistema que prendia as meias a molas, contidas em pequenas caixas de relógio, uma amarrada em cada coxa. As molas serviam para que as meias acompanhassem seus movimentos. Era engenhoso, mas – façamos uma crítica da razão pura – um despautério estético. Não é de espantar que Kant não atraísse as mulheres. Para ele, o êxtase supremo tinha de se dar mesmo à escrivaninha.

 

Fatos picantes da filosofia

Karl Marx

O maior teórico do socialismo casou-se com a filha de um aristocrata prussiano. Diz-se que amava a mulher, mas não era exemplo de fidelidade. Segundo alguns, teve um filho com uma empregada. Para evitar escândalos, o garoto, muito parecido com o pai, teria sido adotado pelo amigo Friedrich Engels.

 

Friedrich Nietzsche

O alemão nunca se casou, mas era perdidamente apaixonado pela jovem russa Lou Andreas-Salomé. Juntamente com o amigo Paul Rée, chegou a propor à moça que se tornasse o vértice de um triângulo amoroso. Ela recusou – e disse a Nietzsche que seria capaz de passar uma noite inteira no quarto com ele sem se excitar.

 

Ludwig Wittgenstein

Autor de um dos ensaios mais influentes do século XX, o Tractatus Logico- Philosophicus, o austríaco Wittgenstein achava o sexo imoral. Previsivelmente, nunca lidou bem com sua homossexualidade e tinha mania de se apaixonar por rapazes que não queriam nada com ele.

 

Jean-Paul Sartre

Simone de Beauvoir, com quem o pensador francês mantinha um famoso casamento aberto, achava que ele não era muito chegado em sexo. Numa visita ao Brasil em 1960, porém, Sartre se apaixonou por uma jovem ruiva. Rejeitado, afundou-se em álcool e calmantes.

 

   
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