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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
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Fernando Pimentel
Elis Regina (foto), morta por overdose aos 36 anos, Janis Joplin e Jimi Hendrix, aos 27 anos: o falso glamour do consumo de drogas no mundo artístico interrompe brusca e estupidamente carreiras brilhantes


Desde sempre associada com drogas, a cultura pop teve alguns de seus maiores talentos ceifados pela estupidez química. Mas os melhores músicos, seus amigos e os herdeiros artísticos da cultura pop mundial não se entregaram à hipocrisia de mascarar o vício com a vitimização da condição do artista, como se vê comumente no Brasil. Aqui, em certos círculos, costuma-se alimentar a crença de que o que mata o artista drogado não é a droga. É o fato de ele ser um sujeito que sente, de maneira mais intensa que a maioria, as dores de seu tempo. Trata-se de uma idéia disparatada surgida no século XIX na Europa e já abandonada nos meios artísticos que a cultivaram. Essa idéia fora do lugar ressurge com força de vez em quando no Brasil. Foi assim em 1982, quando muitos artistas não queriam admitir que a cantora Elis Regina tivesse morrido de overdose de cocaína. Como se isso de certa forma manchasse sua biografia. Essa visão preconceituosa fez também com que, na ocasião, se tentasse inventar uma causa "edificante" para a morte da intérprete de Arrastão. Ela teria, segundo se comentou na época, sucumbido a uma depressão provocada pelo fato de o Brasil viver sob um regime ditatorial.

Até o período artístico conhecido pelos historiadores como romantismo, músicos, pintores ou escritores eram considerados seres humanos comuns, dotados de uma centelha criativa que desenvolviam à custa de muito esforço e determinação. Com o romantismo, os artistas passaram a se sentir, na definição tardia do poeta Carlos Drummond de Andrade, como se seus ombros suportassem o mundo. Passaram a se ver como seres eleitos, dotados de sensibilidade especial, antenas da raça. Por se sentir invulneráveis, bebiam, varavam noites, descuidavam da saúde – e acabavam morrendo de tuberculose. Essa imagem romântica do artista como super-herói atravessou o século XX, seduziu jazzistas como Charlie Parker e escritores como William Burroughs e acabou servindo como uma luva para uma indústria que queria vender a adolescentes ávidos por contestação e auto-afirmação ícones indestrutíveis, poderosos, rebeldes, a indústria da música pop. Esses ídolos imaginaram que eram realmente indestrutíveis – e começaram a usar drogas, achando que elas lhes abririam as "portas da percepção", como acreditava Jim Morrison, o talentoso líder da banda The Doors, citando o romancista e poeta Aldous Huxley.

O raciocínio mistificador em torno do uso de drogas por artistas é típico de quem ignora algumas verdades básicas do meio musical, notadamente da cultura roqueira. Não há nenhuma estatística dizendo que artistas da música pop consomem mais drogas que médicos, engenheiros ou advogados. No entanto, o uso de cocaína, maconha ou heroína não costuma ser bem-visto em hospitais, empresas ou escritórios que empregam esses profissionais. Já um roqueiro não tem esse problema. Afinal, a indústria para a qual ele trabalha vende um produto cuja principal característica é um valor subjetivo: a rebeldia. Nos anos 50 e 60, época de mudanças comportamentais, a rebeldia estava associada à liberação sexual e ao uso de drogas. Nos anos 70, época dos protestos contra a Guerra do Vietnã, entrou em cena o componente da politização. Hoje em dia a revolução sexual é um fato consumado. O rock também toca cada vez menos em temas políticos. Resta a droga como ícone da rebeldia.

A maior parte dos roqueiros toma substâncias como cocaína ou heroína para ter prazer. Evidentemente há os depressivos, como Kurt Cobain, do Nirvana, que sobreviveu a uma overdose de heroína para depois se matar com um tiro na cabeça. Ou o próprio Jimi Hendrix, que possuía uma obsessão suicida. Mas essas são exceções, não a regra. O roqueiro que, ao seguir esse caminho, se torna um dependente químico não difere de profissionais bem-sucedidos de outras especialidades que são usuários de drogas. O script é parecido. Artistas da música pop em geral são ricos e, graças a isso, conseguem escapar mais facilmente da repressão policial às drogas. "Existe uma glamourização do uso da droga. Mas, quando ocorre uma morte, faz-se de conta que houve apenas um acidente", afirma o psiquiatra Werner Zimmermann, especialista no tratamento de dependentes. "É preciso atentar para o mal que isso causa."

Quem conheceu Cássia Eller sabe que ela não era do tipo depressivo. A cantora começou a cheirar cocaína, segundo costumava dizer em entrevistas, por ser extremamente tímida. Acreditava que o consumo da droga antes dos shows a deixava mais relaxada. Não há evidências de que as drogas tornem alguém mais criativo ou inteligente. Ao contrário. Sabe-se que elas podem destruir a racionalidade de uma pessoa, abreviando com a morte ou a loucura a carreira de vários talentos. E, como trágico efeito colateral, disseminando o uso. "Artistas glamourizam a droga assim como o cinema glamourizou o cigarro. Por isso é tão difícil prevenir seu uso. Quem recorre à droga está à procura de algo novo, desconhecido, de uma consciência diferente. E a droga dá a impressão de que é uma ponte para atingir esse objetivo", diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Universidade Federal de São Paulo. Para Maria Theresa Aquino, psiquiatra do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o mais grave é a banalização do consumo. "Há uma tentativa populista e demagógica de liberar o uso de substâncias que podem causar danos irreversíveis", afirma.

Cássia Eller não andava, ao menos visivelmente, deprimida. Mas os amigos percebiam que o sucesso repentino a deixava assustada. O assédio nas ruas e os fãs de todas as idades eram novidade em sua carreira. "Eu tinha me conformado em ser meio maldita. Por isso, até hoje me assusto quando vou a um lugar aberto e tem 30.000 pessoas me vendo. Não era assim até o ano passado", disse, numa entrevista recente. Na melhor fase de sua carreira, tornara-se finalmente um sucesso popular. Seu último CD, Acústico MTV, lançado em 2001, vendeu 400.000 cópias. Apesar do susto, comemorava o fato de ter deixado de ser cultuada apenas pelos críticos e por um público restrito, dizendo que graças a isso teria a independência artística com a qual sempre sonhara. Ou seja: como qualquer cantor best-seller, teria voz ativa na hora de negociar repertório e contratos com a gravadora.


"Essa coisa de birita com cocaína é muito ruim. Faz mal, deixa a pessoa agressiva. Depois de me tratar, passei a resolver problemas que antes eu não conseguia. Sempre fui a criançona da família. Mesmo com meu filho, quando ele se machucava eu ficava que nem barata tonta, chorando com ele no colo. Aí vinha a Eugenia, pegava a gente e levava para a clínica."


"Eu cheirava muita cocaína. Parei total, graças a Deus. Fiquei um tempo sem beber também e isso me fez bem. Meu corpo não estava mais agüentando."



"Durante a gravidez parei porque, milagrosamente, enjoei de cigarro, café, maconha, de tudo. Cocaína, então, lógico. Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra."



"A lucidez ajuda, mas tem hora que é um saco."

Selmy Yassuda


"Eu gostaria de casar com a Eugênia, ter um contrato de casamento legalizado mesmo. Queria poder garantir os direitos dela e do Chico. No caso de separação ou de morte, a Eugênia não tem nenhum documento que prove que estamos casadas há catorze anos. É claro que se me acontecer alguma coisa meus bens têm de ir para ela e meu filho. E a guarda de meu
filho tem de ser dela, é ela a mãe. Olha a confusão."


O drama de sua morte não se esgota na tristeza dos fãs. Outro capítulo dramático começa agora, na definição do futuro de seu filho, Francisco, de 8 anos, a quem Cássia chamava de Chicão. O pai, o músico Tavinho Fialho, morreu antes mesmo que ele nascesse. O menino foi criado como filho por Maria Eugênia Vieira Martins, 39 anos, há catorze casada com a cantora. Foi ela que sempre cuidou das tarefas do dia-a-dia do garoto, como levar ao médico ou ir a reuniões de pais do colégio. Eugênia já manifestou a decisão de entrar na Justiça para pedir a guarda de Chicão. No que depender do pai da cantora, terá total apoio. Na tarde de sexta-feira, falando a VEJA, Altair Eller disse que apóia integralmente a idéia de deixar Chicão sob a guarda de Eugênia: "Sei que, do ponto de vista jurídico, eu tenho direito, mas seria uma crueldade separar o menino de Eugênia. Conversei com meus quatro filhos, e todos também concordaram com isso". Quanto a Chicão, sua preferência pelo convívio com Eugênia é flagrante. "Meu pai morreu e, agora, minha mãe. Não quero que você fique doente, não quero perder minha outra mãe", disse o menino à companheira da cantora. Se não é inédito, é um caso peculiar na Justiça brasileira. E não apenas porque se trata de uma relação homossexual. Mesmo quando se trata de homem e mulher, a tendência é que se entregue a criança que perdeu pai e mãe aos parentes diretos. Nesse caso, os avós. Há juízes que, dependendo da situação familiar, optam pela manutenção da situação anterior e pela preservação dos laços afetivos. "Se a decisão for jurídica, formal, ficará com os avós. Mas, se prevalecer a função social que o direito deve ter, ficará com Eugênia", afirma Luiz Gervaer, advogado especializado em direito de família.

Uma eventual disputa pelo direito de criar Chicão não será o único problema. Há um dado desfavorável para os cantores em geral, na comparação com seus colegas compositores. Como apenas interpretam canções de terceiros, não têm direitos autorais a receber nem para deixar de herança. A família de Cássia Eller só terá algum rendimento enquanto seus discos ainda estiverem vendendo. Com o tempo, a tendência é que esse rendimento diminua drasticamente. Apesar de ter faturado quase 1 milhão de reais no último ano, a cantora também não deixou um patrimônio que garanta o futuro do menino. Cássia havia realizado seu desejo de dar uma casa a sua mãe e planejava para breve a compra de um imóvel para seu pai. No entanto, como filha de família de classe média baixa, sentia-se culpada com o sucesso financeiro. "Pensar em dinheiro me deixa pirada", dizia. Como resultado, apesar de pródiga em presentes para a família, seu único bem era o apartamento de cobertura, no Cosme Velho, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, avaliado em 350.000 reais.

 

Com reportagem de Silvia Rogar,
Daniela Pinheiro e Anna Paula Buchalla

 

   
 


   
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