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Fernando Pimentel
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| Elis
Regina (foto), morta por overdose aos 36 anos, Janis Joplin
e Jimi
Hendrix, aos 27 anos: o falso glamour do consumo de drogas no mundo
artístico interrompe brusca e estupidamente carreiras brilhantes |
Desde sempre associada com drogas, a cultura pop teve alguns de seus maiores
talentos ceifados pela estupidez química. Mas os melhores músicos,
seus amigos e os herdeiros artísticos da cultura pop mundial não
se entregaram à hipocrisia de mascarar o vício com a vitimização
da condição do artista, como se vê comumente no Brasil.
Aqui, em certos círculos, costuma-se alimentar a crença
de que o que mata o artista drogado não é a droga. É
o fato de ele ser um sujeito que sente, de maneira mais intensa que a
maioria, as dores de seu tempo. Trata-se de uma idéia disparatada
surgida no século XIX na Europa e já abandonada nos meios
artísticos que a cultivaram. Essa idéia fora do lugar ressurge
com força de vez em quando no Brasil. Foi assim em 1982, quando
muitos artistas não queriam admitir que a cantora Elis Regina tivesse
morrido de overdose de cocaína. Como se isso de certa forma manchasse
sua biografia. Essa visão preconceituosa fez também com
que, na ocasião, se tentasse inventar uma causa "edificante" para
a morte da intérprete de Arrastão. Ela teria, segundo
se comentou na época, sucumbido a uma depressão provocada
pelo fato de o Brasil viver sob um regime ditatorial.
Até o período artístico conhecido pelos historiadores
como romantismo, músicos, pintores ou escritores eram considerados
seres humanos comuns, dotados de uma centelha criativa que desenvolviam
à custa de muito esforço e determinação. Com
o romantismo, os artistas passaram a se sentir, na definição
tardia do poeta Carlos Drummond de Andrade, como se seus ombros suportassem
o mundo. Passaram a se ver como seres eleitos, dotados de sensibilidade
especial, antenas da raça. Por se sentir invulneráveis,
bebiam, varavam noites, descuidavam da saúde e acabavam
morrendo de tuberculose. Essa imagem romântica do artista como super-herói
atravessou o século XX, seduziu jazzistas como Charlie Parker e
escritores como William Burroughs e acabou servindo como uma luva para
uma indústria que queria vender a adolescentes ávidos por
contestação e auto-afirmação ícones
indestrutíveis, poderosos, rebeldes, a indústria da música
pop. Esses ídolos imaginaram que eram realmente indestrutíveis
e começaram a usar drogas, achando que elas lhes abririam
as "portas da percepção", como acreditava Jim Morrison,
o talentoso líder da banda The Doors, citando o romancista e poeta
Aldous Huxley.
O
raciocínio mistificador em torno do uso de drogas por artistas
é típico de quem ignora algumas verdades básicas
do meio musical, notadamente da cultura roqueira. Não há
nenhuma estatística dizendo que artistas da música pop consomem
mais drogas que médicos, engenheiros ou advogados. No entanto,
o uso de cocaína, maconha ou heroína não costuma
ser bem-visto em hospitais, empresas ou escritórios que empregam
esses profissionais. Já um roqueiro não tem esse problema.
Afinal, a indústria para a qual ele trabalha vende um produto cuja
principal característica é um valor subjetivo: a rebeldia.
Nos anos 50 e 60, época de mudanças comportamentais, a rebeldia
estava associada à liberação sexual e ao uso de drogas.
Nos anos 70, época dos protestos contra a Guerra do Vietnã,
entrou em cena o componente da politização. Hoje em dia
a revolução sexual é um fato consumado. O rock também
toca cada vez menos em temas políticos. Resta a droga como ícone
da rebeldia.
A maior parte dos roqueiros toma substâncias como cocaína
ou heroína para ter prazer. Evidentemente há os depressivos,
como Kurt Cobain, do Nirvana, que sobreviveu a uma overdose de heroína
para depois se matar com um tiro na cabeça. Ou o próprio
Jimi Hendrix, que possuía uma obsessão suicida. Mas essas
são exceções, não a regra. O roqueiro que,
ao seguir esse caminho, se torna um dependente químico não
difere de profissionais bem-sucedidos de outras especialidades que são
usuários de drogas. O script é parecido. Artistas da música
pop em geral são ricos e, graças a isso, conseguem escapar
mais facilmente da repressão policial às drogas. "Existe
uma glamourização do uso da droga. Mas, quando ocorre uma
morte, faz-se de conta que houve apenas um acidente", afirma o psiquiatra
Werner Zimmermann, especialista no tratamento de dependentes. "É
preciso atentar para o mal que isso causa."
Quem conheceu Cássia Eller sabe que ela não era do tipo
depressivo. A cantora começou a cheirar cocaína, segundo
costumava dizer em entrevistas, por ser extremamente tímida. Acreditava
que o consumo da droga antes dos shows a deixava mais relaxada. Não
há evidências de que as drogas tornem alguém mais
criativo ou inteligente. Ao contrário. Sabe-se que elas podem destruir
a racionalidade de uma pessoa, abreviando com a morte ou a loucura a carreira
de vários talentos. E, como trágico efeito colateral, disseminando
o uso. "Artistas glamourizam a droga assim como o cinema glamourizou o
cigarro. Por isso é tão difícil prevenir seu uso.
Quem recorre à droga está à procura de algo novo,
desconhecido, de uma consciência diferente. E a droga dá
a impressão de que é uma ponte para atingir esse objetivo",
diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Universidade Federal de
São Paulo. Para Maria Theresa Aquino, psiquiatra do Núcleo
de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas, da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro, o mais grave é a banalização
do consumo. "Há uma tentativa populista e demagógica de
liberar o uso de substâncias que podem causar danos irreversíveis",
afirma.
Cássia Eller não andava, ao menos visivelmente, deprimida.
Mas os amigos percebiam que o sucesso repentino a deixava assustada. O
assédio nas ruas e os fãs de todas as idades eram novidade
em sua carreira. "Eu tinha me conformado em ser meio maldita. Por isso,
até hoje me assusto quando vou a um lugar aberto e tem 30.000 pessoas
me vendo. Não era assim até o ano passado", disse, numa
entrevista recente. Na melhor fase de sua carreira, tornara-se finalmente
um sucesso popular. Seu último CD, Acústico MTV,
lançado em 2001, vendeu 400.000 cópias. Apesar do susto,
comemorava o fato de ter deixado de ser cultuada apenas pelos críticos
e por um público restrito, dizendo que graças a isso teria
a independência artística com a qual sempre sonhara. Ou seja:
como qualquer cantor best-seller, teria voz ativa na hora de negociar
repertório e contratos com a gravadora.
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"Essa
coisa de birita com cocaína é muito ruim. Faz mal,
deixa a pessoa agressiva. Depois de me tratar, passei a resolver
problemas que antes eu não conseguia. Sempre fui a criançona
da família. Mesmo com meu filho, quando ele se machucava
eu ficava que nem barata tonta, chorando com ele no colo. Aí
vinha a Eugenia, pegava a gente e levava para a clínica."
"Eu cheirava muita cocaína. Parei total, graças a
Deus. Fiquei um tempo sem beber também e isso me fez bem.
Meu corpo não estava mais agüentando."
"Durante a gravidez parei porque, milagrosamente, enjoei de cigarro,
café, maconha, de tudo. Cocaína, então, lógico.
Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão
nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra."
"A
lucidez ajuda, mas tem hora que é um saco."
Selmy Yassuda
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"Eu gostaria de casar com a Eugênia, ter um contrato de casamento
legalizado mesmo. Queria poder garantir os direitos dela e do Chico.
No caso de separação ou de morte, a Eugênia
não tem nenhum documento que prove que estamos casadas há
catorze anos. É claro que se me acontecer alguma coisa meus
bens têm de ir para ela e meu filho. E a guarda de meu
filho
tem de ser dela, é ela a mãe. Olha a confusão."
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O drama de
sua morte não se esgota na tristeza dos fãs. Outro capítulo
dramático começa agora, na definição do futuro
de seu filho, Francisco, de 8 anos, a quem Cássia chamava de Chicão.
O pai, o músico Tavinho Fialho, morreu antes mesmo que ele nascesse.
O menino foi criado como filho por Maria Eugênia Vieira Martins,
39 anos, há catorze casada com a cantora. Foi ela que sempre cuidou
das tarefas do dia-a-dia do garoto, como levar ao médico ou ir
a reuniões de pais do colégio. Eugênia já manifestou
a decisão de entrar na Justiça para pedir a guarda de Chicão.
No que depender do pai da cantora, terá total apoio. Na tarde de
sexta-feira, falando a VEJA, Altair Eller disse que apóia integralmente
a idéia de deixar Chicão sob a guarda de Eugênia:
"Sei que, do ponto de vista jurídico, eu tenho direito, mas seria
uma crueldade separar o menino de Eugênia. Conversei com meus quatro
filhos, e todos também concordaram com isso". Quanto a Chicão,
sua preferência pelo convívio com Eugênia é
flagrante. "Meu pai morreu e, agora, minha mãe. Não quero
que você fique doente, não quero perder minha outra mãe",
disse o menino à companheira da cantora. Se não é
inédito, é um caso peculiar na Justiça brasileira.
E não apenas porque se trata de uma relação homossexual.
Mesmo quando se trata de homem e mulher, a tendência é que
se entregue a criança que perdeu pai e mãe aos parentes
diretos. Nesse caso, os avós. Há juízes que, dependendo
da situação familiar, optam pela manutenção
da situação anterior e pela preservação dos
laços afetivos. "Se a decisão for jurídica, formal,
ficará com os avós. Mas, se prevalecer a função
social que o direito deve ter, ficará com Eugênia", afirma
Luiz Gervaer, advogado especializado em direito de família.
Uma eventual disputa pelo direito de criar Chicão não será
o único problema. Há um dado desfavorável para os
cantores em geral, na comparação com seus colegas compositores.
Como apenas interpretam canções de terceiros, não
têm direitos autorais a receber nem para deixar de herança.
A família de Cássia Eller só terá algum rendimento
enquanto seus discos ainda estiverem vendendo. Com o tempo, a tendência
é que esse rendimento diminua drasticamente. Apesar de ter faturado
quase 1 milhão de reais no último ano, a cantora também
não deixou um patrimônio que garanta o futuro do menino.
Cássia havia realizado seu desejo de dar uma casa a sua mãe
e planejava para breve a compra de um imóvel para seu pai. No entanto,
como filha de família de classe média baixa, sentia-se culpada
com o sucesso financeiro. "Pensar em dinheiro me deixa pirada", dizia.
Como resultado, apesar de pródiga em presentes para a família,
seu único bem era o apartamento de cobertura, no Cosme Velho, bairro
da Zona Sul do Rio de Janeiro, avaliado em 350.000 reais.
Com reportagem de Silvia Rogar,
Daniela Pinheiro e Anna Paula Buchalla
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