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Chá
entre os imortais
"Se
eu fosse da ABL, fundaria uma ala
tradicionalista
radical.
Agora falam
até
em eleger Paulo Coelho para dar 'projeção
internacional'
à
casa"
Academia
Brasileira de Letras. Chá de fim de ano. É a única
circunstância em que comparecem esposas e viúvas dos imortais,
embora seja estranho pensar que imortais possam ter viúvas. Zélia
Gattai é obrigada a se desdobrar, sendo, ao mesmo tempo, imortal
e recente viúva de imortal. Arnaldo Niskier, ex-presidente da ABL,
é o Virgílio que me conduz por esses círculos infernais,
apresentando-me seus colegas e revelando-me os pecados literários
que cada um cometeu ao longo da vida. Muito prazer, Antonio Olinto. Muito
prazer, Carlos Heitor Cony. Muito prazer, Celso Furtado.
Se Arnaldo
Niskier é meu Virgílio, Nélida Piñon só
pode ser minha Beatriz. É ela quem senta ao meu lado e manda o
garçom servir o ótimo bolo inglês introduzido em seu
período de presidência. É ela quem, para quebrar o
gelo, começa a falar da partida do Flamengo. É ela quem
primeiro elogia meus artigos. Aliás, nunca recebi tantos elogios
quanto na ABL. Difícil entender o motivo. Pelas minhas contas,
falei mal das obras de nove imortais nos últimos anos. Ou me elogiam
sem nunca me ter lido, ou secretamente detestam uns aos outros, ou fizeram
tantos falsos elogios para chegar aonde estão que já não
sabem fazer outra coisa. O único rebelde do grupo é um velhinho
trêmulo chamado Oscar Dias Corrêa, ex-udenista, ex-ministro
de José Sarney, que, ao saber que escrevo para VEJA, recupera o
ardor perdido e promete dar uns cascudos num repórter que acusou
seu filho de perfurar poços artesianos no Nordeste com dinheiro
público.
Em menos
de meia hora, me enturmo e viro amigo fraterno de Carlos Nejar, Ivan Junqueira
e Alberto da Costa e Silva. Mostram-me a biblioteca de Manuel Bandeira
e presenteiam-me os tomos publicados pela ABL em 2001. Há muitos
títulos que genuinamente me interessam. Só não sei
por que não podem ser publicados por editoras comerciais, sem usar
verbas do Estado. A ABL recebe 2 milhões de reais por mês.
Meus novos amigos tentam me convencer de que o dinheiro é bem gasto,
em atividades culturais, e que a imagem caricatural da ABL como um antro
de conchavistas e politiqueiros é injusta. Meus novos amigos querem
desfazer os lugares-comuns a respeito da ABL. Querem dar-lhe novo brilho,
rejuvenescê-la. Ainda que à custa de artifícios como
tintura para os cabelos, aplicada generosamente por boa parte dos acadêmicos.
Depois do
chá, fui embora, cabisbaixo, melancólico. Eu tinha uma certa
simpatia pela velha ABL, aquela em que ninguém sentia a necessidade
de mostrar serviço e as mulheres não eram admitidas. Se
eu pertencesse à ABL, fundaria uma ala tradicionalista radical.
Acho que as hostes renovadoras estragaram seus encantos. Falam até
em eleger Paulo Coelho para a vaga de Roberto Campos, a fim de dar "projeção
internacional" à casa, desrespeitando os preceitos de um de seus
membros mais ilustres, Afrânio Peixoto, para quem "vulgaridade é
crime". Visitei a ABL com a esperança de que me desse a reconfortante
sensação de que certas coisas vão continuar sempre
iguais. Não foi o que aconteceu. Os imortais agora se preocupam
com sua projeção internacional e, pior ainda, com as opiniões
de um simples colunista de VEJA.
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