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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
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Sérgio Abranches

Entre o populismo
e o caos

"Sem a legitimação das urnas, só resta ao novo presidente argentino, Eduardo Duhalde, a legitimidade de resultados"

Ilustração Ale Setti


Eduardo Duhalde perdeu as eleições para Fernando de la Rúa em outubro de 1999. Agora chega à Presidência como único nome possível em um acordo de cúpula, dominada por lideranças do justicialismo pós-peronista. Perdeu as eleições porque era geral a bronca contra Carlos Menem e porque, embora um duro crítico de sua política econômica, era seu companheiro de partido. Sobretudo, sua proposta era velha. Chegou à candidatura pelos caminhos tradicionais do peronismo, cortejando os sindicatos e o corporativismo. Em 2002, tornou-se viável porque o Partido Justicialista se dividiu. Sem uma liderança para uni-lo, ficou entre os que desejavam eleições e os que preferiam uma escolha de cúpula, para fazer a ponte entre agora e outubro de 2003.

São muitos os candidatos para 2003. Vários governadores: José Manuel de la Sota, de Córdoba, Néstor Kirchner, de Santa Cruz, e Carlos Reutemann, de Santa Fé, defendiam eleições e não concordaram com a indicação. Carlos Ruckauf, de Buenos Aires, queria a escolha pelo Congresso. Com ele concordavam Duhalde e Menem. Prevaleceu a primazia incontrastável da província central, o "primereo". O novo presidente sabia que jamais seria eleito pelo voto popular. Só uma escolha indireta, saída de um acordo de cúpula, entre facções majoritárias de seu partido e as estruturas corporativistas patronais e trabalhadoras, lhe daria a Presidência. O apoio dos outros partidos foi coadjuvante.

Seu governo se assentará no velho tripé dominante há décadas: o peronismo, representado por Duhalde e Ruckauf, este como chanceler; o corporativismo patronal na produção, com José Ignacio de Mendiguren, da Unión Industrial Argentina, portador dos interesses do patriciado industrial, reacionário, retrógrado e protecionista; e o sindicalismo arcaico no Ministério do Trabalho, com Alfredo Atanasof, para restaurar o domínio do principal beneficiário do gasto público argentino, uma espécie de central de privilégios, com poder de parar o país, bloquear estradas e acender o rastilho dos protestos de rua. As divisões que provocou revelam a lenta desagregação de seu partido: estão contra De la Sota, Kirchner e Reutemann.

Esse tripé está no centro da governança desde Perón, que controlava dois de seus pés: o partidário e o sindical e durante muito tempo cooptou o terceiro. De la Rúa descobriu, da forma mais humilhante, que sem o apoio dele nenhum governo se sustenta e o país não é governável. São essas as estruturas que estão conduzindo a Argentina a uma trajetória de trágica decadência social, política e econômica.

A crise monetária e cambial não é a mais grave nem a mais profunda. A falência da governabilidade por ela revelada expõe raízes fincadas nessa hegemonia que impediu a emergência de novas forças sociais, capazes de dar sustentação a um novo contrato social. A persistência do poder das estruturas populistas e corporativistas condena a Argentina à instabilidade e à ingovernabilidade. A inércia política só se rompe, no limite do caos, diante da convulsão social. Foi assim com o regime militar, com a hiperinflação e, agora, com a desordem monetária. Quanta coisa já mudou na Argentina nos últimos trinta anos! Mas a hegemonia peronista persiste, embora com eficácia declinante. O radicalismo perdeu, nesse período, grande parte de sua sustentação social, localizada predominantemente na classe média, que envelheceu, empobreceu e definhou econômica e politicamente.

Duhalde também não mudou. Seu gabinete revela agora, para se tornar presidente, o mesmo padrão de negociação que usou para sair candidato em 1999. Seu ataque ao "modelo econômico" que era de Menem e não de De la Rúa se manteve no tom e na direção. Para se contrapor ao "panelaço", contratou a claque peronista para aplaudi-lo. Como Adolfo Rodríguez Saá, está prometendo o que não pode cumprir e deixando de dizer o que terá necessariamente de fazer. Se frustrar a população, perderá a capacidade de governo.

Nada do que acontece na Argentina é por acaso. Não existe saída sem sacrifício adicional. Duhalde enfrenta o mesmo desafio de De la Rúa: o da eficácia econômica. Se não conseguir satisfazer as expectativas econômicas da população em prazo hábil, tarefa quase impossível, enfrentará uma crise de governança irremediável. Sem a legitimação das urnas, só lhe resta a legitimidade de resultados. Está numa corda bamba, na qual se equilibrará pelo tempo que durar seu mandato.

 

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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