
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Sérgio
Abranches
Entre
o populismo
e o caos
"Sem
a legitimação das urnas, só
resta ao novo presidente argentino, Eduardo Duhalde, a legitimidade de
resultados"
Ilustração Ale Setti
 |
Eduardo Duhalde perdeu as eleições para Fernando de la Rúa
em outubro de 1999. Agora chega à Presidência como único
nome possível em um acordo de cúpula, dominada por lideranças
do justicialismo pós-peronista. Perdeu as eleições
porque era geral a bronca contra Carlos Menem e porque, embora um duro
crítico de sua política econômica, era seu companheiro
de partido. Sobretudo, sua proposta era velha. Chegou à candidatura
pelos caminhos tradicionais do peronismo, cortejando os sindicatos e o
corporativismo. Em 2002, tornou-se viável porque o Partido Justicialista
se dividiu. Sem uma liderança para uni-lo, ficou entre os que desejavam
eleições e os que preferiam uma escolha de cúpula,
para fazer a ponte entre agora e outubro de 2003.
São muitos os candidatos para 2003. Vários governadores:
José Manuel de la Sota, de Córdoba, Néstor Kirchner,
de Santa Cruz, e Carlos Reutemann, de Santa Fé, defendiam eleições
e não concordaram com a indicação. Carlos Ruckauf,
de Buenos Aires, queria a escolha pelo Congresso. Com ele concordavam
Duhalde e Menem. Prevaleceu a primazia incontrastável da província
central, o "primereo". O novo presidente sabia que jamais seria eleito
pelo voto popular. Só uma escolha indireta, saída de um
acordo de cúpula, entre facções majoritárias
de seu partido e as estruturas corporativistas patronais e trabalhadoras,
lhe daria a Presidência. O apoio dos outros partidos foi coadjuvante.
Seu governo se assentará no velho tripé dominante há
décadas: o peronismo, representado por Duhalde e Ruckauf, este
como chanceler; o corporativismo patronal na produção, com
José Ignacio de Mendiguren, da Unión Industrial Argentina,
portador dos interesses do patriciado industrial, reacionário,
retrógrado e protecionista; e o sindicalismo arcaico no Ministério
do Trabalho, com Alfredo Atanasof, para restaurar o domínio do
principal beneficiário do gasto público argentino, uma espécie
de central de privilégios, com poder de parar o país, bloquear
estradas e acender o rastilho dos protestos de rua. As divisões
que provocou revelam a lenta desagregação de seu partido:
estão contra De la Sota, Kirchner e Reutemann.
Esse tripé está no centro da governança desde Perón,
que controlava dois de seus pés: o partidário e o sindical
e durante muito tempo cooptou o terceiro. De la Rúa descobriu,
da forma mais humilhante, que sem o apoio dele nenhum governo se sustenta
e o país não é governável. São essas
as estruturas que estão conduzindo a Argentina a uma trajetória
de trágica decadência social, política e econômica.
A crise monetária e cambial não é a mais grave nem
a mais profunda. A falência da governabilidade por ela revelada
expõe raízes fincadas nessa hegemonia que impediu a emergência
de novas forças sociais, capazes de dar sustentação
a um novo contrato social. A persistência do poder das estruturas
populistas e corporativistas condena a Argentina à instabilidade
e à ingovernabilidade. A inércia política só
se rompe, no limite do caos, diante da convulsão social. Foi assim
com o regime militar, com a hiperinflação e, agora, com
a desordem monetária. Quanta coisa já mudou na Argentina
nos últimos trinta anos! Mas a hegemonia peronista persiste, embora
com eficácia declinante. O radicalismo perdeu, nesse período,
grande parte de sua sustentação social, localizada predominantemente
na classe média, que envelheceu, empobreceu e definhou econômica
e politicamente.
Duhalde também não mudou. Seu gabinete revela agora, para
se tornar presidente, o mesmo padrão de negociação
que usou para sair candidato em 1999. Seu ataque ao "modelo econômico"
que era de Menem e não de De la Rúa se manteve no tom e
na direção. Para se contrapor ao "panelaço", contratou
a claque peronista para aplaudi-lo. Como Adolfo Rodríguez Saá,
está prometendo o que não pode cumprir e deixando de dizer
o que terá necessariamente de fazer. Se frustrar a população,
perderá a capacidade de governo.
Nada do que acontece na Argentina é por acaso. Não existe
saída sem sacrifício adicional. Duhalde enfrenta o mesmo
desafio de De la Rúa: o da eficácia econômica. Se
não conseguir satisfazer as expectativas econômicas da população
em prazo hábil, tarefa quase impossível, enfrentará
uma crise de governança irremediável. Sem a legitimação
das urnas, só lhe resta a legitimidade de resultados. Está
numa corda bamba, na qual se equilibrará pelo tempo que durar seu
mandato.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|
|
 |