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Réquiem
para o século
"O
Brasil chega despreparado ao novo milênio
por não ter corrigido duas deficiências
fundamentais:
a
carência de
poupança interna e o déficit educacional"
Ilustração: Alê
Setti
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Parafraseando
Charles Dickens, em Tale
of Two Cities,
pode-se dizer que o atual século foi o melhor
dos séculos e o pior dos séculos.
Segundo Hobsbawm, foi também um século
curto, tendo começado com a I Guerra Mundial
(1914) e a eclosão do comunismo (1917) e
terminado com o colapso do império soviético,
em 1991. Tão curto que um oitentão
como eu pode dizer que viveu menos de um século
e viveu mais de um século. Foi também
um século esquisito. Começou com a
belle époque liberal até a I Guerra
Mundial, em que se conjugaram três movimentos
que repontam neste fim de século: uma revolução
tecnológica, acompanhada de expansão
do espaço democrático e globalização
financeira e comercial. Houve depois um longo interregno
coletivista, com duas ameaças malignas ao
liberalismo o comunismo e o nazismo
e um desafio benigno, o keynesianismo (este postulava
apenas maior intervenção estatal,
e não a destruição do liberalismo).
Foi
o pior dos séculos, pela maré montante
de violência: duas guerras mundiais e duas
ideologias assassinas o comunismo e o nazi-fascismo.
O primeiro produziu três grandes carniceiros
Lenin, Stalin e Mao Tsé-tung. O segundo,
além de ter provocado a II Guerra Mundial,
aperfeiçoou duas sinistras tecnologias: a
do holocausto e a dos campos de concentração.
Foi
também o melhor dos séculos, pela
explosão científica e tecnológica,
que nos trouxe coisas milagrosas:
.a
descoberta do segredo do átomo, que inviabiliza
guerras mundiais e que, quando substituirmos a fissão
pela fusão nuclear, será fonte inesgotável
de energia;
.a
descoberta do segredo da vida a dupla hélice
do DNA , que pode levar à clonagem de
animais e à reengenharia do corpo humano;
.a
morte da distância e o encurtamento do tempo
pela comunicação e pelo comércio
via internet;
o rompimento
da nossa prisão planetária, podendo
o homem sonhar com a exploração de planetas;
.a
passagem de nações da pobreza à
abastança no espaço de uma só
geração, feito inédito na história
humana. Apesar dos solavancos recentes, os leste-asiáticos
demonstraram que é possível escapar
da pobreza coletiva em uma só geração
e que a riqueza não está nos recursos
naturais, e sim nos artificiais, isto é,
tecnologia e educação.
No
Brasil sobram recursos naturais, mas faltam os "recursos
artificiais", infectados que somos por dois animais
nocivos: os necrófilos e os paranóicos.
Os necrófilos são os nacionalistas,
tão ciumentos dos cadáveres geológicos
no subsolo, como petróleo e minério,
que preferem lá deixá-los a vê-los
explorados por estrangeiros. Exemplos de burrice
necrofílica foram a campanha do "minério
de ferro é nosso", nos anos 20, e a campanha
do "petróleo é nosso", nos anos 50.
Exemplo de paranóia tecnológica foi
a política de informática nos anos
70 e 80, que encareceu computadores e fez abortar,
pela reserva de mercado, a fabricação
de chips, como se não fôssemos carentes
nos três pré-requisitos da revolução
informática: massa crítica universitária,
maciços investimentos em pesquisa e acesso
a mercados externos.
A
sociedade do próximo milênio será
uma sociedade globalizada e digitalizada. Em vez
de lamentações sobre a globalização,
dela devemos aproveitar-nos, como parece estar fazendo
a China, ao abandonar cacoetes protecionistas para
ingressar na OMC. Precisamos nos preparar para a
quarta onda de crescimento do pós-guerra,
que provavelmente advirá na primeira década
do milênio, alicerçada em três
revoluções tecnológicas: a
revolução da internet, que eliminará
constrangimentos de tempo e espaço; a revolução
da engenharia genética, com a clonagem de
animais e a geneterapia; e a revolução
da nanotecnologia, que, por meio da miniaturização,
substituirá cada vez mais insumos físicos
por insumos cognitivos.
O
Brasil chega despreparado ao novo milênio por
não ter corrigido duas deficiências fundamentais:
a carência de poupança interna e o déficit
educacional. Este exigirá maciça concentração
de recursos na educação primária
e secundária. O déficit de poupança
exigirá a correção da despoupança
governamental, por uma revolução fiscal
que substitua impostos declaratórios sonegáveis
por impostos cobráveis eletronicamente na fonte.
E a adoção, na Previdência Social,
do sistema de capitalização individual,
para alavancagem de investimentos.
Roberto
Campos é
economista e diplomata,
foi deputado federal, senador e ministro do Planejamento
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