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Páginas
de um diário
de viagem
As
reformas urbanas
de Buenos
Aires,
as eleições do Uruguai e, de
quebra,
uma lição de
espanhol
Buenos
Aires, 22/11 Diga-me
como é teu chão e te direi que tipo
de cidade és. Desliza-se pelas ruas de Buenos
Aires, num táxi ou num ônibus, sem
sobressaltos. O chão é de boa qualidade.
No Rio ou em São Paulo, Salvador ou Belo
Horizonte, o passageiro será importunado
pela buraqueira. No item chão, Buenos Aires
nos vence de longe. Argentina 1, Brasil 0.
23/11
Jorge Luis Borges reina na cidade. Há estabelecimentos
comerciais com o nome "El Aleph". No Centro Cultural
da Recoleta, uma sala reproduz o ambiente em que
se dá a cena crucial do famoso conto
um porão, com uma escada em cujo 19º
degrau se via, quando se deitava no chão
e se contemplava a escada de baixo para cima, a
mágica bolinha que resumia o mundo. E há
fotos de Borges por toda parte nas vitrinas
das lojas, nos cafés. Borges foi um dos escritores
mais fotografados do século, e é fácil
adivinhar por quê. Cego, não reclamava.
Incapaz de se dar conta da proximidade da câmara,
não tinha como fugir. Em matéria de
personagem de culto, Borges ameaça Gardel
e Evita. De Gardel, diz-se há anos que canta
cada vez melhor. Já se pode dizer de Jorge
Luis, igualmente, que escreve cada vez melhor. Não
há dúvida: cada vez melhor.
24/11
Puerto
Madero é um antigo trecho do Porto de Buenos
Aires, de 170 hectares, devolvido ao espaço
urbano e integrado a ele na forma de uma esplêndida
área onde se alternam restaurantes, escritórios
e até uma universidade, além de parques
e pacíficas alamedas. Os antigos armazéns
portuários viraram prédios modernos,
conservando-se a antiga arquitetura. Grande parte
das obras já está pronta, o investimento
total é de 2 bilhões de dólares
e o metro quadrado, ali, já é o mais
caro da cidade. Puerto Madero, entre outras virtudes,
está abrindo Buenos Aires para o Rio da Prata,
do qual historicamente se escondeu. Os argentinos
revelam, com tal empreendimento, estar atentos a
duas coisas tão singelas quanto fundamentais.
Primeiro: para melhorar a vida é crucial
melhorar as cidades. Segundo: para bem se apresentar
ao mundo, e entrar no circuito de um planeta (vá
lá o palavrão) "globalizado", é
essencial ter cidades em bom estado. Argentina 2,
Brasil 0.
25/11
Não
há dificuldade em falar o espanhol. Basta
esse é o segredo deslocar o
acento tônico das palavras para a sílaba
da esquerda. Assim, em vez de democracia se dirá
democrácia. Em vez de regime,
régimen. E até, surpreendentemente,
em vez de periferia, periféria. Alguns
sentimentos ganham novo vigor, como o de nostálgia,
muito mais pungente, fundo e sofrido, do que a mera
nostalgia. Agora se ouve uma sirene na rua. Deve
ser a pólicia. Não. É
a policía. Desta vez, o acento escorregou
para o outro lado. E há alguém falando
do alto nivél das construções
de Puerto Madero. De novo, o acento deslocou-se
para a direita. Reformulemos a regra. Para bem falar
o espanhol, desloquem-se os acentos. Para a esquerda
ou a direita, não importa. Uma hora, acerta-se.
Montevidéu,
26/11 O
suplemento de programas do jornal La
Republica,
entre as seções de cinema, teatro,
restaurantes e outras, apresenta também a
de "luces rojas". Para tornar mais explícito
do que se está falando, vem em seguida, entre
parênteses (prostíbulos). E
então se listam alguns estabelecimentos,
classificados por bairros, todos eles, segundo avisa
o jornal, vistoriados por autoridades sanitárias,
de forma a oferecer serviços mais seguros.
Se o leitor ou a leitora já armaram um sorriso,
pensando, "Ah, esses uruguaios", lembrem-se de que
no Brasil os jornais publicam, nas páginas
de classificados, anúncios de "massagistas".
Os uruguaios são mais diretos e francos.
Uruguai, 1, hipocrisia, 0.
27/11
Véspera
de eleição. Amanhã, os uruguaios
escolherão entre o candidato da Frente Ampla,
de esquerda, Tabaré Vásquez, e o do
velho Partido Colorado, Jorge Battle. A esquerda
sai em peso para as ruas. E eis uma Montevidéu
que, em festa, dir-se-ia na véspera de virar
São Petersburgo, ou a Paris da Comuna. Buzinaços,
bandeiras, apitos, refrões. Onde estão
os partidários do outro candidato? Não
existem. A julgar pela rua, a esquerda vai ganhar
por deserção do adversário
por "forfait", como se diz no turfe. O carnaval
avança noite adentro, numa infernal barulheira.
28/11
Ganhou
o colorado Jorge Battle. Há festa, à
noite, mas menor do que a de ontem e infinitamente
menor, nisso se pode apostar, do que a que haveria
se o resultado fosse o inverso. A direita trabalha
em silêncio. Ou melhor: a direita, ontem inaudível,
na verdade estava toda infiltrada nos vãos
de silêncio entre uma buzinada e outra, nos
bairros que dormiam, no Uruguai taciturno que se
estende para além de Montevidéu. A
soma dos silêncios de um país, por
mais barulho que se faça numa cidade, sempre
será maior. Mas também se pode tirar
outra conclusão. A matéria-prima da
esquerda é a esperança. A da direita,
a segurança. Por isso, uma comemora de véspera.
A outra só se anima com o garantido.
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