Edição 1 627 - 8/12/1999

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Páginas de um diário de viagem

As reformas urbanas de Buenos Aires,
as eleições do Uruguai – e, de quebra,
uma lição
de espanhol

 

Buenos Aires, 22/11 – Diga-me como é teu chão e te direi que tipo de cidade és. Desliza-se pelas ruas de Buenos Aires, num táxi ou num ônibus, sem sobressaltos. O chão é de boa qualidade. No Rio ou em São Paulo, Salvador ou Belo Horizonte, o passageiro será importunado pela buraqueira. No item chão, Buenos Aires nos vence de longe. Argentina 1, Brasil 0.

23/11 – Jorge Luis Borges reina na cidade. Há estabelecimentos comerciais com o nome "El Aleph". No Centro Cultural da Recoleta, uma sala reproduz o ambiente em que se dá a cena crucial do famoso conto – um porão, com uma escada em cujo 19º degrau se via, quando se deitava no chão e se contemplava a escada de baixo para cima, a mágica bolinha que resumia o mundo. E há fotos de Borges por toda parte – nas vitrinas das lojas, nos cafés. Borges foi um dos escritores mais fotografados do século, e é fácil adivinhar por quê. Cego, não reclamava. Incapaz de se dar conta da proximidade da câmara, não tinha como fugir. Em matéria de personagem de culto, Borges ameaça Gardel e Evita. De Gardel, diz-se há anos que canta cada vez melhor. Já se pode dizer de Jorge Luis, igualmente, que escreve cada vez melhor. Não há dúvida: cada vez melhor.

24/11 – Puerto Madero é um antigo trecho do Porto de Buenos Aires, de 170 hectares, devolvido ao espaço urbano e integrado a ele na forma de uma esplêndida área onde se alternam restaurantes, escritórios e até uma universidade, além de parques e pacíficas alamedas. Os antigos armazéns portuários viraram prédios modernos, conservando-se a antiga arquitetura. Grande parte das obras já está pronta, o investimento total é de 2 bilhões de dólares e o metro quadrado, ali, já é o mais caro da cidade. Puerto Madero, entre outras virtudes, está abrindo Buenos Aires para o Rio da Prata, do qual historicamente se escondeu. Os argentinos revelam, com tal empreendimento, estar atentos a duas coisas tão singelas quanto fundamentais. Primeiro: para melhorar a vida é crucial melhorar as cidades. Segundo: para bem se apresentar ao mundo, e entrar no circuito de um planeta (vá lá o palavrão) "globalizado", é essencial ter cidades em bom estado. Argentina 2, Brasil 0.

25/11 – Não há dificuldade em falar o espanhol. Basta – esse é o segredo – deslocar o acento tônico das palavras para a sílaba da esquerda. Assim, em vez de democracia se dirá democrácia. Em vez de regime, régimen. E até, surpreendentemente, em vez de periferia, periféria. Alguns sentimentos ganham novo vigor, como o de nostálgia, muito mais pungente, fundo e sofrido, do que a mera nostalgia. Agora se ouve uma sirene na rua. Deve ser a pólicia. Não. É a policía. Desta vez, o acento escorregou para o outro lado. E há alguém falando do alto nivél das construções de Puerto Madero. De novo, o acento deslocou-se para a direita. Reformulemos a regra. Para bem falar o espanhol, desloquem-se os acentos. Para a esquerda ou a direita, não importa. Uma hora, acerta-se.

Montevidéu, 26/11 – O suplemento de programas do jornal La Republica, entre as seções de cinema, teatro, restaurantes e outras, apresenta também a de "luces rojas". Para tornar mais explícito do que se está falando, vem em seguida, entre parênteses – (prostíbulos). E então se listam alguns estabelecimentos, classificados por bairros, todos eles, segundo avisa o jornal, vistoriados por autoridades sanitárias, de forma a oferecer serviços mais seguros. Se o leitor ou a leitora já armaram um sorriso, pensando, "Ah, esses uruguaios", lembrem-se de que no Brasil os jornais publicam, nas páginas de classificados, anúncios de "massagistas". Os uruguaios são mais diretos e francos. Uruguai, 1, hipocrisia, 0.

27/11 – Véspera de eleição. Amanhã, os uruguaios escolherão entre o candidato da Frente Ampla, de esquerda, Tabaré Vásquez, e o do velho Partido Colorado, Jorge Battle. A esquerda sai em peso para as ruas. E eis uma Montevidéu que, em festa, dir-se-ia na véspera de virar São Petersburgo, ou a Paris da Comuna. Buzinaços, bandeiras, apitos, refrões. Onde estão os partidários do outro candidato? Não existem. A julgar pela rua, a esquerda vai ganhar por deserção do adversário – por "forfait", como se diz no turfe. O carnaval avança noite adentro, numa infernal barulheira.

28/11 – Ganhou o colorado Jorge Battle. Há festa, à noite, mas menor do que a de ontem e infinitamente menor, nisso se pode apostar, do que a que haveria se o resultado fosse o inverso. A direita trabalha em silêncio. Ou melhor: a direita, ontem inaudível, na verdade estava toda infiltrada nos vãos de silêncio entre uma buzinada e outra, nos bairros que dormiam, no Uruguai taciturno que se estende para além de Montevidéu. A soma dos silêncios de um país, por mais barulho que se faça numa cidade, sempre será maior. Mas também se pode tirar outra conclusão. A matéria-prima da esquerda é a esperança. A da direita, a segurança. Por isso, uma comemora de véspera. A outra só se anima com o garantido.