Edição 1 627 - 8/12/1999

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O traço que açoita

A história do Brasil e do mundo, na visão
dos mais representativos caricaturistas nacionais

Lucila Soares

Em 1837, o Brasil era uma jovem nação governada por um regente – dom Pedro I abdicara em 1831 e dom Pedro II tinha apenas 12 anos. Ao lado de uma certa instabilidade administrativa, pipocavam revoltas pelas províncias, que colocavam em ameaça a unidade do país. Mas, no dia 14 de dezembro daquele ano, não foi nenhuma notícia relacionada a esses fatos que chamou a atenção dos leitores do Jornal do Commercio, editado no Rio de Janeiro. A surpresa veio de uma ilustração diferente. Saudada como "nova invenção artística", a primeira caricatura impressa no Brasil foi apresentada ao público em grande estilo. "A bela invenção das caricaturas, tão apreciada na Europa, aparece hoje pela primeira vez no nosso país e sem dúvida receberá do público aqueles sinais de estima que ele tributa às coisas úteis, necessárias e agradáveis", alardeava o editorialista.

Os presidentes militares pós-64, por Nássara: eles tiveram de aturar a ironia

A ilustração era uma litografia (gravura com matriz em pedra) do gaúcho Araújo Porto Alegre e ridicularizava Justiniano José da Rocha, um político cuja importância se evaporou. Seu mérito foi mesmo ter sido o personagem inaugural da caricatura. Era o início de uma nova maneira de comentar os eventos políticos e sociais brasileiros. Desde então, a irreverência da crítica ilustrada não parou de açoitar os poderosos. Getúlio Vargas, por exemplo, é uma das figuras mais retratadas pelos caricaturistas. Até mesmo os presidentes militares que se sucederam depois do golpe de 64 tiveram de aturar o humor corrosivo desses artistas. Não é à toa que, já em 1788, o inglês Francis Goose, autor da primeira obra que faz referência ao tema, considerava a caricatura "um dom perigoso, mais próprio a tornar seu possuidor temido do que estimado".

 


O compositor Noel Rosa, na visão de Nássara: um mestre dos anos 50

Foi sobre esse assunto que o livreiro e colecionador Pedro Corrêa do Lago se debruçou durante um ano inteiro. De sua pesquisa resultou o volume Caricaturistas Brasileiros, uma seleção de trabalhos de quarenta artistas. O livro será lançado no próximo dia 20 pela editora Sextante, ao preço de 75 reais. Pela primeira vez vêm a público ilustrações de um álbum de humor de 1836, no qual Araújo Porto Alegre, ainda vivendo na Europa, debochou da elite brasileira que circulava por Paris. Quem fecha o time é o paulista Angeli, com destaque para O Grito, caricatura do presidente Fernando Henrique Cardoso feita a partir do famoso quadro do artista norueguês Edvard Munch.

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Corrêa do Lago adotou a definição ampla de caricatura como desenho de humor e deixou de lado as nuances entre caricatura, charge e cartum. Para alguns especialistas, caricatura é apenas o retrato satírico de um personagem. Já a charge se refere a um episódio circunscrito no tempo e o cartum a uma situação engraçada, sem data definida. No livro há espaço para todas essas manifestações. Também não existe o compromisso de contar uma história completa da caricatura nacional. Dessa tarefa, avisa o autor, já se desincumbiu Herman Lima, com quatro volumes que somam 1.800 páginas, publicados em 1963 pela editora José Olympio. Pelos trabalhos selecionados, no entanto, é possível ver claramente a evolução artística da caricatura brasileira. Para Cássio Loredano, um dos mais expressivos caricaturistas da atualidade e estudioso do tema, o grande mérito de nossos artistas do traço foi digerir e adaptar rapidamente ao país o que de melhor havia na produção mundial. "Hoje, podemos falar numa escola brasileira de caricatura", afirma. Uma escola respeitável, diga-se de passagem. Ela está entre o melhor que o Brasil produz em termos de artes gráficas e visuais.


Dom Pedro II, por Angelo Agostini: o melhor caricaturista da época e sua vítima predileta

Ao longo das 216 páginas e 500 ilustrações de Caricaturistas Brasileiros, há artistas famosos por sua produção acadêmica e outros que se formaram na escola da caricatura. No primeiro time está o paraibano Pedro Américo. Autor de quadros manjadíssimos, como Grito do Ipiranga, ele cultivou um lado de caricaturista pouco conhecido. Américo realizava trabalhos para a revista Comédia Social, fundada em 1870. Nessa publicação, estava em companhia de pioneiros como o italiano Angelo Agostini, considerado o maior talento do gênero no século passado. Agostini não deixava escapar nada. O imperador dom Pedro II era a vítima predileta do artista republicano e abolicionista, que o retratou inclusive caindo do trono. No século XX há muitos nomes, a começar por J. Carlos, que imprimiu sua marca a várias publicações e deixou descendentes. São dele ilustrações clássicas, como aquela em que Getúlio Vargas aparece espalhando cascas de banana em frente do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. A partir da década de 40, a extinta revista O Cruzeiro tornou-se a publicação com maior número de talentos nessa área. Um de seus nomes principais era o pernambucano Péricles, criador do Amigo da Onça. Péricles ocupou quase 1.000 páginas da revista durante dezoito anos. Sua crueldade, que vai contra a imagem do brasileiro cordial, encontraria eco vinte anos mais tarde no sadismo do Fradim, uma das melhores criações de Henfil. Entre os artistas contemporâneos, o maior espaço fica com os irmãos Chico e Paulo Caruso, cuja produção publicada na imprensa soma milhares de páginas.

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Um elemento fundamental para entender a evolução artística do humor gráfico é a disponibilidade de recursos técnicos. Até o final do século passado os artistas tinham na litografia a única técnica disponível, o que trazia em si uma limitação: o desenho era transposto em negativo para uma matriz de pedra, trabalho feito na maior parte das vezes por um litógrafo, e não pelo próprio caricaturista. Só na virada do século a possibilidade de reprodução direta do desenho nas publicações tornou possível que se desenvolvessem estilos mais personalizados. Nas décadas de 10 e 20, mais um avanço. A popularização da fotografia liberou os desenhistas da obrigação de reproduzir a realidade. "Ficamos livres para interpretar, abstrair, delirar", diz Loredano. Até então, a acentuação do ridículo e do grotesco, que é a marca da caricatura, ficava restrita às situações. O personagem não sofria deformações importantes. A partir dos anos 20 a caricatura lançou mão da deformação como recurso para acentuar aspectos físicos ou psicológicos de seus retratados. A origem da palavra caricatura, que vem do verbo italiano "caricare" (carregar), passou a fazer mais sentido. A cada inovação tecnológica pode-se dizer que se seguiu uma revolução na caricatura. Hoje, o caricaturista pode crescentemente assumir o papel de cronista, registrando sua crítica em tempo real.

A produção de Caricaturistas Brasileiros foi uma tarefa árdua. O universo abriga centenas de nomes, como mostra o exaustivo levantamento feito por Herman Lima há quase quatro décadas. "O que realmente interessa está no livro de Corrêa do Lago. Mas é uma pena que o critério utilizado deixe de fora gente talentosa da nova geração", diz Loredano. Ao escolher apenas quarenta nomes, seria impossível não cometer injustiças. O próprio organizador lamenta ter deixado de fora da seleção, por exemplo, Hilde Weber, a artista gráfica alemã que chegou ao Brasil nos anos 30 e atuou nas páginas da imprensa paulista nas duas décadas seguintes. Ele explica a decisão de deixar de fora gente do talento de Laerte e Luiz Gê pela necessidade de se ater aos artistas já considerados "expoentes máximos na caricatura pessoal e na charge política". As lacunas não tiram o mérito do formidável escrete reunido no livro.

O Amigo da Onça, de Péricles: quase 1 000 desenhos em dezoito anos
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de
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como inimiga

No decorrer do tempo, a caricatura brasileira não conseguiu fugir a um paradoxo que acompanha esse tipo de arte desde a sua origem. Ao deformar a realidade para criticar, ela simplifica e pode se tornar maniqueísta. Ao privilegiar o ridículo, pode ser conservadora. A campanha sanitária de Oswaldo Cruz no início do século, por exemplo, foi demolida pelos desenhistas da época. Apesar dessa limitação, a caricatura é a forma de expressão artística que traça o panorama mais original da história do país. Para relativizar sua crueldade, Herman Lima observou: "Não é a caricatura que torna os homens ridículos. Eles são ridículos por si mesmos".