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O traço
que açoita
A
história do Brasil e do mundo, na visão
dos mais representativos caricaturistas nacionais
Lucila
Soares
Em
1837, o Brasil era uma jovem nação
governada por um regente dom Pedro I abdicara
em 1831 e dom Pedro II tinha apenas 12 anos. Ao
lado de uma certa instabilidade administrativa,
pipocavam revoltas pelas províncias, que
colocavam em ameaça a unidade do país.
Mas, no dia 14 de dezembro daquele ano, não
foi nenhuma notícia relacionada a esses fatos
que chamou a atenção dos leitores
do Jornal
do Commercio,
editado no Rio de Janeiro. A surpresa veio de uma
ilustração diferente. Saudada como
"nova invenção artística",
a primeira caricatura impressa no Brasil foi apresentada
ao público em grande estilo. "A bela invenção
das caricaturas, tão apreciada na Europa,
aparece hoje pela primeira vez no nosso país
e sem dúvida receberá do público
aqueles sinais de estima que ele tributa às
coisas úteis, necessárias e agradáveis",
alardeava o editorialista.
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Os
presidentes militares
pós-64,
por Nássara:
eles tiveram
de aturar
a ironia
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A
ilustração era uma litografia (gravura
com matriz em pedra) do gaúcho Araújo
Porto Alegre e ridicularizava Justiniano José
da Rocha, um político cuja importância
se evaporou. Seu mérito foi mesmo ter sido
o personagem inaugural da caricatura. Era o início
de uma nova maneira de comentar os eventos políticos
e sociais brasileiros. Desde então, a irreverência
da crítica ilustrada não parou de
açoitar os poderosos. Getúlio Vargas,
por exemplo, é uma das figuras mais retratadas
pelos caricaturistas. Até mesmo os presidentes
militares que se sucederam depois do golpe de 64
tiveram de aturar o humor corrosivo desses artistas.
Não é à toa que, já
em 1788, o inglês Francis Goose, autor da
primeira obra que faz referência ao tema,
considerava a caricatura "um dom perigoso, mais
próprio a tornar seu possuidor temido do
que estimado".
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O
compositor Noel
Rosa, na
visão de Nássara:
um
mestre dos
anos 50
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Foi
sobre esse assunto que o livreiro e colecionador
Pedro Corrêa do Lago se debruçou durante
um ano inteiro. De sua pesquisa resultou o volume
Caricaturistas
Brasileiros,
uma seleção de trabalhos de quarenta
artistas. O livro será lançado no
próximo dia 20 pela editora Sextante, ao
preço de 75 reais. Pela primeira vez vêm
a público ilustrações de um
álbum de humor de 1836, no qual Araújo
Porto Alegre, ainda vivendo na Europa, debochou
da elite brasileira que circulava por Paris. Quem
fecha o time é o paulista Angeli, com destaque
para O
Grito,
caricatura do presidente Fernando Henrique Cardoso
feita a partir do famoso quadro do artista norueguês
Edvard Munch.
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| O
Baile, de J. Carlos: salões
dos anos 30 |
Adolf
Hitler assedia
a
França:
obra de
Belmonte
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Corrêa
do Lago adotou a definição ampla de
caricatura como desenho de humor e deixou de lado
as nuances entre caricatura, charge e cartum. Para
alguns especialistas, caricatura é apenas
o retrato satírico de um personagem. Já
a charge se refere a um episódio circunscrito
no tempo e o cartum a uma situação
engraçada, sem data definida. No livro há
espaço para todas essas manifestações.
Também não existe o compromisso de
contar uma história completa da caricatura
nacional. Dessa tarefa, avisa o autor, já
se desincumbiu Herman Lima, com quatro volumes que
somam 1.800
páginas, publicados em 1963 pela editora
José Olympio. Pelos trabalhos selecionados,
no entanto, é possível ver claramente
a evolução artística da caricatura
brasileira. Para Cássio Loredano, um dos
mais expressivos caricaturistas da atualidade e
estudioso do tema, o grande mérito de nossos
artistas do traço foi digerir e adaptar rapidamente
ao país o que de melhor havia na produção
mundial. "Hoje, podemos falar numa escola brasileira
de caricatura", afirma. Uma escola respeitável,
diga-se de passagem. Ela está entre o melhor
que o Brasil produz em termos de artes gráficas
e visuais.
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| Dom
Pedro II, por Angelo Agostini: o melhor caricaturista
da época e sua vítima predileta
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Ao
longo das 216 páginas e 500 ilustrações
de Caricaturistas Brasileiros, há
artistas famosos por sua produção
acadêmica e outros que se formaram na escola
da caricatura. No primeiro time está o paraibano
Pedro Américo. Autor de quadros manjadíssimos,
como Grito
do Ipiranga,
ele cultivou um lado de caricaturista pouco conhecido.
Américo realizava trabalhos para a revista
Comédia
Social,
fundada em 1870. Nessa publicação,
estava em companhia de pioneiros como o italiano
Angelo Agostini, considerado o maior talento do
gênero no século passado. Agostini
não deixava escapar nada. O imperador dom
Pedro II era a vítima predileta do artista
republicano e abolicionista, que o retratou inclusive
caindo do trono. No século XX há muitos
nomes, a começar por J. Carlos, que imprimiu
sua marca a várias publicações
e deixou descendentes. São dele ilustrações
clássicas, como aquela em que Getúlio
Vargas aparece espalhando cascas de banana em frente
do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.
A partir da década de 40, a extinta revista
O Cruzeiro
tornou-se a publicação com maior número
de talentos nessa área. Um de seus nomes
principais era o pernambucano Péricles, criador
do Amigo da Onça. Péricles ocupou
quase 1.000
páginas da revista durante dezoito anos.
Sua crueldade, que vai contra a imagem do brasileiro
cordial, encontraria eco vinte anos mais tarde no
sadismo do Fradim, uma das melhores criações
de Henfil. Entre os artistas contemporâneos,
o maior espaço fica com os irmãos
Chico e Paulo Caruso, cuja produção
publicada na imprensa soma milhares de páginas.
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A
atriz Josephine
Baker,
por Di
Cavalcanti:
o lado irônico do pintor das mulatas
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Um
elemento fundamental para entender a evolução
artística do humor gráfico é
a disponibilidade de recursos técnicos. Até
o final do século passado os artistas tinham
na litografia a única técnica disponível,
o que trazia em si uma limitação:
o desenho era transposto em negativo para uma matriz
de pedra, trabalho feito na maior parte das vezes
por um litógrafo, e não pelo próprio
caricaturista. Só na virada do século
a possibilidade de reprodução direta
do desenho nas publicações tornou
possível que se desenvolvessem estilos mais
personalizados. Nas décadas de 10 e 20, mais
um avanço. A popularização
da fotografia liberou os desenhistas da obrigação
de reproduzir a realidade. "Ficamos livres para
interpretar, abstrair, delirar", diz Loredano. Até
então, a acentuação do ridículo
e do grotesco, que é a marca da caricatura,
ficava restrita às situações.
O personagem não sofria deformações
importantes. A partir dos anos 20 a caricatura lançou
mão da deformação como recurso
para acentuar aspectos físicos ou psicológicos
de seus retratados. A origem da palavra caricatura,
que vem do verbo italiano "caricare" (carregar),
passou a fazer mais sentido. A cada inovação
tecnológica pode-se dizer que se seguiu uma
revolução na caricatura. Hoje, o caricaturista
pode crescentemente assumir o papel de cronista,
registrando sua crítica em tempo real.
A
produção de Caricaturistas Brasileiros
foi uma tarefa árdua. O universo abriga
centenas de nomes, como mostra o exaustivo levantamento
feito por Herman Lima há quase quatro décadas.
"O que realmente interessa está no livro
de Corrêa do Lago. Mas é uma pena que
o critério utilizado deixe de fora gente
talentosa da nova geração", diz Loredano.
Ao escolher apenas quarenta nomes, seria impossível
não cometer injustiças. O próprio
organizador lamenta ter deixado de fora da seleção,
por exemplo, Hilde Weber, a artista gráfica
alemã que chegou ao Brasil nos anos 30 e
atuou nas páginas da imprensa paulista nas
duas décadas seguintes. Ele explica a decisão
de deixar de fora gente do talento de Laerte e Luiz
Gê pela necessidade de se ater aos artistas
já considerados "expoentes máximos
na caricatura pessoal e na charge política".
As lacunas não tiram o mérito do formidável
escrete reunido no livro.
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| O
Amigo da Onça, de Péricles: quase
1 000 desenhos em dezoito anos |
Jejuns
do Reverendíssimo,
de Bordalo:
a Igreja
como
inimiga
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No
decorrer do tempo, a caricatura brasileira não
conseguiu fugir a um paradoxo que acompanha esse
tipo de arte desde a sua origem. Ao deformar a realidade
para criticar, ela simplifica e pode se tornar maniqueísta.
Ao privilegiar o ridículo, pode ser conservadora.
A campanha sanitária de Oswaldo Cruz no início
do século, por exemplo, foi demolida pelos
desenhistas da época. Apesar dessa limitação,
a caricatura é a forma de expressão
artística que traça o panorama mais
original da história do país. Para
relativizar sua crueldade, Herman Lima observou:
"Não é a caricatura que torna os homens
ridículos. Eles são ridículos
por si mesmos".
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