Ilustração
Alê Setti
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Recebi um e-mail avisando-me que o prefeito da cidade
catarinense de Bombinhas apresentou um projeto de
lei que permite construir loteamentos dentro da
Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, um
dos últimos trechos de Mata Atlântica
do Estado. Um jornalista menos leviano do que eu
verificaria a notícia antes de comentá-la.
Eu, pelo contrário, não verifico nada.
Não conheço o indivíduo que
me mandou o e-mail. Nem ao menos sei se realmente
existe uma cidade chamada Bombinhas. Talvez seja
tudo falso. Talvez estejam debochando da minha cara.
O nome do prefeito, segundo o meu misterioso correspondente,
é Leopoldo João Francisco Filho. Três
prenomes e nenhum sobrenome? Altamente inverossímil.
Deve ser mentira. Mas não importa. Eu sou
um ecologista fanático. Um pasdaran
do tamanduá. Tomo o partido da natureza em
qualquer circunstância, até mesmo quando
é inventada.
Os
antiecologistas costumam caricaturar os ecologistas
como uma gente degenerada que se preocupa mais com
árvores e animais do que com seres humanos.
Pois eu correspondo perfeitamente a esse estereótipo.
Numa situação de emergência,
entre salvar uma pessoa ou uma lontra, eu salvaria
a lontra. E se, no lugar da lontra, pusessem um
macaco, pior ainda. Tenho uma verdadeira fixação
por macacos. O sujeito que mais admiro no mundo
é um zoólogo holandês que mora
na Amazônia e cuida de centenas de macacos
em liberdade. Vi-o recentemente na TV, num documentário.
Aliás, é esse o modo correto de apreciar
os animais: na TV. Eu mandaria fechar todos os zoológicos
e circos do país e usaria nossas reservas
internacionais para importar toneladas de documentaristas
ingleses, de maneira que pudessem nos mostrar o
que acontece nas florestas. Porque, a meu ver, cada
espécie deve permanecer no próprio
ambiente natural: os animais, no meio do mato; nós,
no sofá, longe dos mosquitos.
A
essa altura, o prefeito Leopoldo João Francisco
Filho, só para me aborrecer, poderia usar
a sua infinita erudição para comparar
nossos macacos aos equivalentes africanos ou asiáticos,
alegando que a nossa natureza é bem mais
pobre do que as outras. Ele não seria o primeiro
a afirmar algo do gênero. Tempos atrás,
resenhei um livro extremamente curioso de um italiano
chamado Antonello Gerbi, em que se fazia um apanhado
de todos os difamadores do Novo Mundo. O escritor
francês Voltaire, por exemplo, achava que
a onça era um leão acovardado. O filósofo
alemão Hegel notava grande semelhança
entre os nossos animais e os do Mundo Antigo, mas
acrescentava que os nossos eram menores, mais fracos,
menos peludos. Até a carne dos nossos animais,
para Hegel, era menos nutritiva. É provável
que eles tivessem razão. A nossa natureza
talvez não seja mesmo grande coisa. Contudo,
é melhor do que o resto do Brasil. O que
mais temos a oferecer além de mato e bichos?
Na minha opinião, um peixe-boi vale mais
do que todos os nossos escritores juntos. Um pé
de cajazeira vale mais do que todos os cineastas.
Um cupinzeiro vale mais do que todos os prefeitos.
Por isso é necessário preservá-los:
não podemos dar nenhuma contribuição
melhor à humanidade. Com a única exceção,
possivelmente, do pastel de queijo.