Edição 1 627 - 8/12/1999

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Macacada de valor


Ilustração Alê Setti


Recebi um e-mail avisando-me que o prefeito da cidade catarinense de Bombinhas apresentou um projeto de lei que permite construir loteamentos dentro da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, um dos últimos trechos de Mata Atlântica do Estado. Um jornalista menos leviano do que eu verificaria a notícia antes de comentá-la. Eu, pelo contrário, não verifico nada. Não conheço o indivíduo que me mandou o e-mail. Nem ao menos sei se realmente existe uma cidade chamada Bombinhas. Talvez seja tudo falso. Talvez estejam debochando da minha cara. O nome do prefeito, segundo o meu misterioso correspondente, é Leopoldo João Francisco Filho. Três prenomes e nenhum sobrenome? Altamente inverossímil. Deve ser mentira. Mas não importa. Eu sou um ecologista fanático. Um
pasdaran do tamanduá. Tomo o partido da natureza em qualquer circunstância, até mesmo quando é inventada.

Os antiecologistas costumam caricaturar os ecologistas como uma gente degenerada que se preocupa mais com árvores e animais do que com seres humanos. Pois eu correspondo perfeitamente a esse estereótipo. Numa situação de emergência, entre salvar uma pessoa ou uma lontra, eu salvaria a lontra. E se, no lugar da lontra, pusessem um macaco, pior ainda. Tenho uma verdadeira fixação por macacos. O sujeito que mais admiro no mundo é um zoólogo holandês que mora na Amazônia e cuida de centenas de macacos em liberdade. Vi-o recentemente na TV, num documentário. Aliás, é esse o modo correto de apreciar os animais: na TV. Eu mandaria fechar todos os zoológicos e circos do país e usaria nossas reservas internacionais para importar toneladas de documentaristas ingleses, de maneira que pudessem nos mostrar o que acontece nas florestas. Porque, a meu ver, cada espécie deve permanecer no próprio ambiente natural: os animais, no meio do mato; nós, no sofá, longe dos mosquitos.

A essa altura, o prefeito Leopoldo João Francisco Filho, só para me aborrecer, poderia usar a sua infinita erudição para comparar nossos macacos aos equivalentes africanos ou asiáticos, alegando que a nossa natureza é bem mais pobre do que as outras. Ele não seria o primeiro a afirmar algo do gênero. Tempos atrás, resenhei um livro extremamente curioso de um italiano chamado Antonello Gerbi, em que se fazia um apanhado de todos os difamadores do Novo Mundo. O escritor francês Voltaire, por exemplo, achava que a onça era um leão acovardado. O filósofo alemão Hegel notava grande semelhança entre os nossos animais e os do Mundo Antigo, mas acrescentava que os nossos eram menores, mais fracos, menos peludos. Até a carne dos nossos animais, para Hegel, era menos nutritiva. É provável que eles tivessem razão. A nossa natureza talvez não seja mesmo grande coisa. Contudo, é melhor do que o resto do Brasil. O que mais temos a oferecer além de mato e bichos? Na minha opinião, um peixe-boi vale mais do que todos os nossos escritores juntos. Um pé de cajazeira vale mais do que todos os cineastas. Um cupinzeiro vale mais do que todos os prefeitos. Por isso é necessário preservá-los: não podemos dar nenhuma contribuição melhor à humanidade. Com a única exceção, possivelmente, do pastel de queijo.