O rato esperto

Cientistas criam cobaia com cérebro turbinado

Foi-se o tempo em que Mickey Mouse era sinônimo de camundongo esperto. Desde a semana passada, uma família de ratos de verdade, batizada como Doogie, bate todos os demais em termos de agilidade mental. Isso se deve a mudanças feitas com técnicas de engenharia genética a partir de um único gene conhecido pela sigla NR2B no cérebro dos animais por cientistas da Universidade Princeton e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Em pesquisa publicada na última quinta-feira na revista Nature, os pesquisadores demonstraram que um Doogie é capaz de reter a lembrança de um objeto por um tempo até quatro vezes maior que os demais ratos. Também realizaram tarefas difíceis, como encontrar uma plataforma submersa em um recipiente de água turva, na metade do tempo de um rato comum. "Fortalecer o aprendizado e a memória desses camundongos foi como envenenar o motor de um carro", comparou o neurobiologista Joe Tsien, chefe da equipe de pesquisadores.

Doogie, o camundongo

é capaz de se lembrar de um objeto por um período até quatro vezes maior que um rato comum

conseguiu localizar uma plataforma submersa na água na metade do tempo gasto pelos ratos comuns

O ponto de partida da pesquisa foi um estudo sobre os mecanismos bioquímicos da memória e do aprendizado. Os cientistas inseriram cópias do gene NR2B no núcleo de óvulos fertilizados. Os óvulos foram implantados em fêmeas, criando uma geração de ratos geneticamente modificados. Esses ratos, com maior quantidade de NR2B no cérebro, têm melhor desempenho ao ligar as informações recém-aprendidas com as que já estão armazenadas na memória. O gene age diretamente nesses mecanismos neurológicos associado a um neurorreceptor chamado NMDA. O resultado não foram animais mais inteligentes, mas com melhor capacidade de memorização. Isso foi comprovado pelo teste de reconhecimento, que consistia em expor dois objetos às cobaias e observar quanto tempo elas levavam examinando cada um deles. O processo se repetia com a substituição de um desses objetos. A diferença observada foi que o rato mais esperto não perdia tanto tempo como o rato normal checando o objeto já conhecido.

A promessa desse tipo de pesquisa são as perspectivas que se abrem para o uso em seres humanos. Podem surgir dessas descobertas novas drogas e terapias para resolver problemas de déficit de memória, demência e mal de Alzheimer. Tanto em ratos como em seres humanos a atividade do NMDA decai com a idade, causando problemas de memória e aprendizado. O mais animador é a pesquisa ter comprovado que o cérebro dos ratos com carga extra de NR2B se manteve bem mais ágil na velhice. "Não estamos tratando mais de hipóteses", entusiasmou-se Tsien. "O DNA do gene manipulado dos ratos é 98% idêntico ao dos seres humanos."

 
 

 




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