O angu transgênico

 

Montagem de Pepe Casals sobre foto de Daniel Berinson


Pelo que consegui entender, mas eu sou fraco em matéria de ciência, pegaram uma parte do código genético da castanha-do-pará e a enfiaram no milho. Ignoro qual seja o motivo. Pode ser que aumente descomunalmente seu tamanho. Pode ser que o torne imune a algum tipo de praga. Pode ser que melhore sua resistência a pesticidas. O fato é que enfiaram. E que um garoto europeu, alérgico à castanha-do-pará, acabou sofrendo um ataque depois de comer esse milho híbrido. O episódio é citado como exemplo dos riscos que corremos com a engenharia genética. Um produto pode conter um pedaço de outro e ninguém nos diz do que se trata. Para contornar esse problema, os países da União Européia aprovaram uma lei segundo a qual, a partir de agora, todos os alimentos do gênero precisam ser acompanhados da etiqueta "organismo geneticamente modificado". Quem terá coragem de comprar um tomate ou uma berinjela dotados de uma etiqueta semelhante?

Depois dos escândalos da vaca louca, do frango contaminado e da Coca-Cola tóxica, os europeus parecem intencionados a reforçar o controle sobre os alimentos. Existe certo fanatismo nessa história. Os países escandinavos, por exemplo, querem que todos os queijos europeus sejam fabricados com leite pasteurizado, em ambientes sanificados. Considerando que os melhores queijos franceses e italianos dependem exclusivamente de mofo, a coisa fica meio complicada. O mesmo se aplica ao presunto cru e a inúmeros outros produtos artesanais. Eliminar as impurezas significa matar a gastronomia. A fim de tutelar essa cultura, os legisladores europeus bolaram mais uma etiqueta: "produto de origem controlada ou protegida". Por trás da burocracia européia, porém, há um medo real. Ninguém sabe direito o que pode acontecer com essas plantas transgênicas. Uma delas pode misturar-se a uma praga, tornando-a resistente a qualquer tipo de pesticida. Pior ainda, talvez faça mal a nossa saúde.

Claro que também existe o aspecto da guerra comercial. De um lado, o protecionismo dos europeus. Do outro, a agressividade dos americanos, com sua agricultura tecnológica e sua carne empanturrada de hormônios. Mas mesmo nos Estados Unidos há quem peça uma moratória total sobre os produtos modificados geneticamente, como o economista Jeremy Rifkin, autor de O Século da Biotecnologia. Como diz o título do livro, ele acha que a biotecnologia será o principal tema do próximo século. Espero que esteja enganado. Parece-me um assunto um tanto aborrecido. Prometo, aliás, nunca mais abordá-lo nesta coluna. Porém é raro que o Brasil participe como protagonista dos mais importantes debates da humanidade. Quando acontece, é justo reconhecê-lo. No caso, não participamos com nenhuma brilhante descoberta científica. Não participamos com nenhuma brilhante análise ética. No campo das ciências e no das idéias vamos sempre a reboque, sem nos importunar com perguntas incômodas ou impertinentes. Nossa verdadeira contribuição é uma só: a castanha-do-pará.

 
 

 

 




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