Roberto
Pompeu de Toledo
...E
o presidente foi
jantar
sozinho
Uma
história contada por Walther
Moreira Salles em tributo à sua
memória e
para edificação dos que ficam
O
embaixador Walther Moreira Salles, que morreu de uma gentil
morte sem dor nem doença, durante o sono, nos feriados
do Carnaval, aos 88 anos, era um emérito contador de
histórias dos grandes da República, e isso por
dois motivos. Primeiro porque, como embaixador em Washington
duas vezes (governos Vargas e JK), ministro da Fazenda (fase
parlamentarista do governo Goulart) e outros cargos oficiais,
ou então como banqueiro (Unibanco), ou simplesmente
como amigo, conheceu todo mundo
presidentes, ministros,
parlamentares, empresários. Segundo porque, e isso
saltava à vista e aos ouvidos do interlocutor, tinha,
em contar suas histórias, o prazer do menino degustando
o doce predileto. Ele as desfiava com requintes de artista
da conversa, enriquecendo o enredo com uma multidão
de detalhes, fazendo uma pausa ora para lembrar a data exata
de certo acontecimento, ora o exato nome de algum personagem,
soltando um olhar de surpresa aqui, um sorriso malicioso ali.
Ao narrar a visita que recebeu do recém-eleito presidente
Jânio Quadros, em sua famosa casa da Gávea
hoje sede carioca do Instituto Moreira Salles
, não
se limitava a dizer que ela se deu ao lusco-fusco das 6 horas
da tarde. Diria: "Você sabe, 6 da tarde é hora
que a luz começa a cair, aqui no Rio, aqui nos trópicos".
Então sentaram-se no sofá, e Moreira Salles
não seria Moreira Salles se deixasse de explicar que
Jânio ficou à sua direita. Como escurecia, acendeu
os abajures, mas logo percebeu que o convidado levava a mão
ao olho direito, como incomodado. "Presidente, estou vendo
que esta luz o incomoda", disse. "Não quer que a apague?"
A reprodução dos diálogos, na modalidade
direta, incluídas as formas de tratamento (no caso,
tratavam-se de "presidente" e "embaixador"), e refeitos na
memória como se tivessem ocorrido ontem, era de rigor.
Jânio, no episódio em questão, pediu para
apagar sim a luz, pois ela lhe perturbava justamente a vista
boa
"Da outra sou praticamente cego"
e concluiu: "Só
tenho um olho, mas também, se tivesse dois, neste país,
seria demais".
Este era apenas o começo de uma longa história,
mas, ao contrário do que faria Moreira Salles, vai-se
abandoná-la por aqui, para saltar para outra. O presidente
é agora Getúlio Vargas, aquele a quem Moreira
Salles mais se ligou, e a época março de 1954.
Moreira Salles foi visitá-lo no Palácio Rio
Negro, em Petrópolis, onde os presidentes, na época
em que a capital ficava no Rio de Janeiro, passavam temporadas.
Era à tarde, e os dois conversaram muito. O tempo passava,
e a conversa não terminava. O presidente a prolongava
sempre. A certa altura, Getúlio perguntou: "O senhor
não quer jantar comigo?" Moreira Salles respondeu que
sim, claro, com muita honra. Só pedia licença
para dar um telefonema, pois precisava cancelar um compromisso
anterior. "Ah, o senhor tinha um compromisso?", disse o presidente.
"E onde ia jantar?" Moreira Salles respondeu: "Na casa do
Leite Garcia, aqui em Petrópolis". "Ah", disse Getúlio,
"mas lá é tão agradável. A casa
é tão animada, o senhor não deve deixar
de ir." Moreira Salles disse que não, absolutamente,
não queria recusar o convite do presidente, mas este
insistia: "Lá tem moças bonitas, o senhor é
moço, vai se divertir. Aqui vai se aborrecer". E tanto
insistiu que Moreira Salles acabou cedendo. Para preservar
o compromisso anterior, não ficaria para jantar.
Enfim deu-se a visita por encerrada, e Getúlio foi
acompanhar o visitante até a saída. Os dois
se despediram na passagem que separava a ala residencial da
ala oficial do palácio. O presidente pôs-se então
a caminhar de volta, e Moreira Salles deixou-se estar ali
um instante, a observar o outro, de costas, andando devagar,
chapéu na cabeça. Foi então assaltado
por uma melancólica certeza: o presidente, naquela
noite, jantaria sozinho.
Políticos são os mais gregários dos seres.
Adoram gente, e de preferência gente a favor, gente
que os solicita e os homenageia com as evidências de
que são importantes. O Getúlio daqueles dias
estava cansado e começava a ser abandonado. Poucos
meses depois, seu reinado terminaria em tragédia. Moreira
Salles flagrou ali, na fugacidade daquele momento, como num
instantâneo fotográfico, o ocaso do grande homem.
Getúlio recolhia-se não só para dentro
do palácio, mas para dentro de si mesmo, pequeno e
triste.
Moreira Salles era um homem elegante e cavalheiresco como
raros. Difícil ter pela frente interlocutor mais agradável,
influente e rico, de riqueza, de prestígio e de vivências,
mas, de tão educado, trabalhava para gerar a ilusão
de que importante era o outro. O autor destas linhas, em três
ou quatro ocasiões, quase sempre em missões
jornalísticas, teve a sorte de ouvir suas histórias
de viva voz. Essa do Palácio Rio Negro, tal qual filtrada
por sua sensibilidade, encerra uma lição para
os políticos, e especialmente aqueles mais embriagados
de poder, e dependentes da sensação de possuí-lo:
um dia acaba-se sozinho, à mesa do jantar.
|