Sérgio
Abranches
Risco
do Brasil é político
"Há
uma crise política grave na base
de sustentação do governo, que
ameaça afetar negativamente a
governança"
A
economia brasileira dá sinais claros de retomada. O
consumo de bens duráveis está aumentando, o
emprego subindo, existem indícios de melhora da renda.
A situação fiscal é confortável,
há alguma pressão inflacionária, mas
nada que preocupe. O câmbio tem absorvido choques e
evitado desequilíbrios mais profundos. Há fragilidade
externa, por causa da necessidade de financiar o déficit
em transações correntes. O déficit não
é um problema em si. Significa que o país é
importador de capitais. O Brasil tem atrativos para investidores,
só precisa manter a confiança deles. Essa trajetória
positiva se dá, porém, em um contexto internacional
instável.
Desta vez, diferentemente da crise da Ásia, os fatores
que têm gerado risco e, ocasionalmente, crises financeiras
e cambiais são políticos. Como ocorreu recentemente
na Turquia, mergulhada em grave crise de governabilidade
que, se continuar, pode chegar à ruptura institucional.
A Argentina enfrenta uma crise de governança, que
abalou sua relação com o mercado financeiro
e levou ao programa de blindagem com o FMI. O presidente
De la Rúa tem índices negativos de popularidade.
As pesquisas indicam que sua coalizão, em outubro
próximo, pode perder a maioria na Câmara, e,
no Senado, a oposição pode fazer posição
majoritária ainda mais forte que agora. Apesar dos
esforços do presidente para obter um pacto político
de apoio ao crescimento e aos decretos da "blindagem", domina
no meio político a convicção de que
as ações do governo não foram e não
são suficientes para promover a retomada do crescimento.
Os indicadores que vêm saindo para este início
de ano confirmam essa visão. Com a economia em banho-maria,
ressurgem os ataques ao ministro da Economia, José
Luís Machinea. O presidente reconhece que lhe pedem,
com insistência cada vez maior, sua cabeça.
Ele mesmo afirmou que, se os indicadores de março
não forem favoráveis, a pressão por
sua saída pode tornar-se politicamente irresistível.
Mas não é só o ministro da Economia
que tem seu destino atrelado ao desempenho da economia.
O presidente também. Dificilmente conseguirá
vencer a crise atual de governança e confiança
se o país continuar em recessão. A retomada
é condição indispensável para
reduzir o risco de derrota de sua coalizão nas eleições
de outubro. Senão, a própria Alianza
pode não sobreviver até as eleições.
A reabertura do Congresso pode marcar o aprofundamento da
crise de governança, se De la Rúa não
conseguir virar o sentimento desfavorável que predomina
no Congresso em relação aos decretos da "blindagem".
Os Estados Unidos contribuem para a instabilidade internacional
porque sua economia continua a dar sinais contraditórios,
mantendo os temores de uma recessão, e porque o governo
Bush mostra espantosa falta de sintonia com os novos tempos
políticos e econômicos após o fim da
Guerra Fria e a globalização financeira. Para
compensar a fraqueza política e a baixa popularidade,
Bush tem cedido a uma velha tentação americana:
usar a beligerância externa para ganhar solidariedade
interna.
Os analistas brasileiros acham que o Brasil não seria
afetado por crises em outros países. Nas vezes anteriores,
havia quem pensasse assim, e fomos afetados. Nossos fundamentos
econômicos são bons, mas dependemos da confiança
de investidores. Há uma crise política grave
na base de sustentação do governo, que ameaça
afetar negativamente a governança. O governo aposta
que um programa para os últimos dois anos, a ser
apresentado em breve, servirá de curativo e cimento
para as fraturas expostas em sua coalizão. Nada garante
que seja assim. Uma crise política continuada abalaria
a confiança nos fundamentos econômicos do Brasil.
Em vários momentos, os problemas políticos
poderiam ter tido solução negociada e não
tiveram. Agora mesmo os partidos competem por cargos na
reforma ministerial. O PFL pode sofrer séria divisão
interna, que o enfraqueceria ainda mais. O PSDB está
dividido, e há quem queira polarizar uma disputa
pela sucessão em 2002, colocando José Serra
e Tasso Jereissati em confronto direto. O desafio do presidente
Fernando Henrique será encontrar um novo ponto de
equilíbrio, que afaste a crise de governança
e dê suporte político aos bons fundamentos
econômicos.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)