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O país das cabeças cortadas
Com
espantosa seqüência de massacres de civis indefesos, a
Argélia mergulha no martírio sem fim
Em todo o mundo
islâmico, o mês do Ramadã é o período no qual os
fiéis se dedicam às orações, ao jejum e às ações
piedosas. Na Argélia, onde governo e fundamentalistas
muçulmanos travam há seis anos uma sangrenta guerra
civil com mais de 80.000 mortos, o mês santo tornou-se
sinônimo de matança, medo e cabeças cortadas. As
chacinas de civis, com inacreditáveis requintes de
crueldade, ocorrem com feroz regularidade desde 1996.
Nesta época do ano, porém, assumem uma progressão
ensandecida que culmina no Ramadã. Durante o mês de
dezembro, bandos terroristas massacraram entre 600 e
1.000 pessoas, na maioria habitantes de vilarejos pobres
e poeirentos, sobretudo na área apelidada de Triângulo
da Morte, que vai da periferia de Argel, a capital, até
a cidade de Medéia, a 70 quilômetros de distância. Na
noite de terça-feira passada, a primeira do Ramadã,
pelo menos oitenta pessoas foram mortas em três chacinas
na província de Relizane, a 250 quilômetros da capital.
Repetiu-se, em todos esses lugares, a orgia de crueldade.
Os assaltantes chegam nas primeiras horas da madrugada,
em caminhões e peruas, dinamitam casas e degolam os
moradores, sem discriminar homens, mulheres e crianças.
O morticínio
obedece a um padrão: a degola das vítimas, gesto que
lembra o sacrifício ritual de cordeiros, uma prática
milenar que subsiste entre os muçulmanos. A
evisceração e outras mutilações também são comuns.
As vítimas, na maioria, são mulheres, crianças e
idosos, mais fracos para resistir e mais lentos na fuga.
Em algumas regiões, os assassinos circulam com uma
guilhotina instalada na caçamba de uma picape, de modo a
dar eficiência quase industrial à decapitação. As
vítimas são amarradas e têm a boca tapada com pedaços
de jornal, para impedir que gritem. Em Zouabria, a 225
quilômetros a sudoeste de Argel, 27 civis foram
chacinados na véspera do Natal, entre eles um
recém-nascido de 12 dias degolado no colo da mãe. Na
aldeia vizinha de Shari, dois dias antes, os assassinos
decapitaram um velho de 88 anos e cinco mulheres e
rasgaram a faca o peito de um bebê de 6 meses. O horror
é tamanho que ninguém consegue entender por que os
radicais integristas, que começaram atacando alvos
"compreensíveis"
militares, policiais, funcionários públicos,
jornalistas e intelectuais considerados anti-religiosos ,
agora se dedicam à matança de gente comum. Numa rara
entrevista a um jornal francês, um líder da
organização fundamentalista mais ativa, o Grupo
Islâmico Armado, GIA, esboçou uma justificativa de
arrepiar: não há razão para se preocupar com a
seleção das vítimas, afirmou, pois "Alá conhece
a identidade do inocente e o transforma imediatamente em
anjo".
Tática
maoísta Em parte por causa dos atentados em
Israel, o fundamentalismo islâmico tornou-se sinônimo
de terrorismo selvagem contra civis desarmados. A
violência indiscriminada na Argélia, contudo, escapa
às explicações convencionais. Se há uma lógica
política e uma estratégia definidas por trás dos
ataques palestinos em Israel (tumultuar o capenga
processo de paz, que não aceitam), é difícil encontrar
sentido na selvageria dos radicais argelinos contra seu
próprio povo. É como se o Hamas, guardadas as
diferenças, detonasse seus homens-bombas na Faixa de
Gaza e não nas ruas de Tel Aviv. Uma possibilidade é a
de que a guerrilha islâmica esteja tentando amedrontar
os moradores dos bairros e aldeias pobres para mantê-los
distantes dos grupos de autodefesa formados pelo governo,
tática similar à posta em prática pelos militantes
maoístas do Sendero Luminoso no Peru. Os grupos de
autodefesa, que hoje reúnem 57.000 membros em todo o
país, começaram a ser formados em 1996 para proteger
suas casas e famílias com armas velhas e algum
treinamento oferecidos pelo Exército. Mas, se o objetivo
dos massacres é sabotar o programa militar do governo,
por que tantas matanças ocorrem em tradicionais redutos
eleitorais dos partidos islâmicos?
A Argélia sangra
desde o Ramadã de 1992, quando as Forças Armadas, num
golpe preventivo, cancelaram o segundo turno das
eleições parlamentares e colocaram fora da lei a Frente
Islâmica de Salvação, FIS, o braço político do
fundamentalismo islâmico, sob o argumento de que era a
única maneira de evitar uma ditadura teocrática.
Nascido nos bairros e aldeias mais pobres, em torno de
mesquitas e instituições de assistência social
mantidas pelo movimento islâmico, a FIS tinha vencido no
primeiro turno e estava a um passo da maioria
parlamentar. O fundamentalismo islâmico se reorganizou
na clandestinidade e uma série de grupos armados, entre
eles o GIA, partiu para a violência. O regime
militarizado respondeu na mesma linguagem, cometendo sua
própria cota de barbaridades. Numa fase posterior, no
entanto, passou a procurar interlocutores
comparativamente moderados entre os fundamentalistas e
promoveu eleições. Radicais de ambos os lados não
gostaram. Da mesma forma que o cessar-fogo decretado pela
FIS no ano passado é ignorado pelos combatentes
islâmicos na linha de frente, militares linha-dura não
engolem uma solução negociada. Talvez as chacinas
estejam servindo aos interesses dos dois extremos,
ocupados em levar o conflito às últimas
conseqüências. Seria a explicação para a facilidade
com que têm ocorrido massacres nas barbas de
guarnições militares, que só atendem aos pedidos de
socorro depois que os assassinos terminam o serviço.
O turbante
e a espada É uma ironia histórica que no fim
do século a Argélia agonize numa luta mortal entre
militares linha-dura e fundamentalistas religiosos.
Quarenta anos atrás, recém-saída de sete anos de
guerra anticolonialista, a Argélia galvanizou a simpatia
da esquerda mundial. Colônia francesa durante 132 anos,
o país chegou à independência em 1962 com um regime de
partido único, a Frente de Libertação Nacional,
líderes com aura de austeridade e bandeiras
terceiro-mundistas. Com uma economia de comando, como era
obrigatório entre a esquerda na época, e uma renda
razoável proporcionada pelo petróleo bom e farto, o
país embarcou num ambicioso programa de
industrialização. No fim dos anos 70, um ministro da
Indústria fez uma previsão que se tornou famosa pela
vacuidade: a Argélia se transformaria em um segundo
Japão.
A fragilidade da
economia semi-estatizada, já agravada pelo desemprego
crônico e pelos pesados subsídios aos produtos de
consumo popular, tornou-se evidente quando o preço do
barril de petróleo desabou pela metade em 1986. Dois
anos depois, uma revolta popular tomou as ruas, com
centenas de mortos. Para acalmar os ânimos no país
traumatizado pela matança, o presidente da época,
Chadli Bendjedid, partiu para a abertura política, com
liberdades democráticas e a legalização de mais de
sessenta partidos. O que emergiu das sombras do regime
autoritário foi uma oposição democrática fragmentada
e um movimento fundamentalista bem organizado. A primeira
reação do governo ao crescimento dos integristas
religiosos foi deixar o barco correr, imaginando que a
população ficaria assustada com as medidas medievais
adotadas nas prefeituras dominadas desde 1990 pelos
fundamentalistas, nas quais a FIS tinha imposto a charia,
o severo código de conduta muçulmano, proibindo música
e obrigando as mulheres a cobrir os cabelos. Um estupendo
erro de cálculo, pois, sem esperança de progresso
econômico e com escassa experiência democrática, os
eleitores votaram nos turbantes dos religiosos.
Encostados
nos muros Hoje, grande parte dos argelinos
vive no pior dos mundos. O pouco de paternalismo social
do passado, herança do período socialista, acabou-se. O
aumento de atividade em certos setores da economia,
promovido pelas medidas liberalizantes impostas quando o
governo se viu obrigado a cumprir o ritual dos falidos e
passar o chapéu no FMI, tem produzido poucos benefícios
para a maioria da população. Fora alguns oásis de
relativa prosperidade, onde é possível fazer compras no
shopping de Riad-El-Feth, na Baía de Argel, ou dançar o
raï, o popular ritmo do norte da África, no
Triângulo, a discoteca da moda, sem temor de ser
degolado na saída, a realidade argelina é a de um país
apenas alguns degraus acima dos mais pobres do planeta,
agravada pelo clima de terror. Desde 1994, quando o
governo começou a cortar despesas, investimentos e
subsídios para fazer o ajuste econômico, o preço dos
alimentos subiu sem contrapartida salarial. O PIB per
capita (1.200 dólares) caiu para a metade do que foi há
cinco anos. O desemprego, na faixa dos 30%, está em
ascensão. Sem perspectivas, os jovens passam os dias sem
fazer nada seu apelido é hittistas,
literalmente "os que ficam encostados nos
muros". Na família do funcionário público Rachid
(sobrenome omitido a pedido), que mora em Bab-el-Oued, um
bairro popular no coração de Argel, a rotina diária é
marcada pelo medo dos atentados e pelo desencanto com o
futuro. Hakim, de 18 anos, um dos filhos, foi reprovado
no colégio, mas não se preocupa. "Com ou sem
diploma, sei que não vou mesmo conseguir emprego",
disse a VEJA. Yasmina e Hayat, as duas filhas
adolescentes, nunca saem à noite, e de dia, por
segurança, só vão para a rua com o hidjab, o
lenço que cobre os cabelos das muçulmanas devotas
nos bairros mais pobres, as "patrulhas
islâmicas" perseguem e espancam as mulheres
flagradas de cabeça descoberta. Houve caso de garotas
mortas por mostrar os cabelos.
Severíssima em
assuntos de moralidade, a guerrilha muçulmana adotou a
prática do estupro sistemático, uma abominação aos
olhos da religião revelada a Maomé, mas permitida por
uma perversa interpretação dos preceitos islâmicos.
Nas chacinas, os atacantes costumam separar da fila dos
que vão morrer as jovens entre 17 e 28 anos de idade.
Seqüestradas para os esconderijos na condição de
"esposas temporárias", são forçadas a
prestar serviços domésticos e regularmente violentadas.
Ao cabo de alguns meses, geralmente quando ficam
grávidas, têm a garganta cortada. Yamila, de 23 anos,
que no mês passado conseguiu escapar de um campo, contou
como era tratada, na condição de butim de guerra.
"O que você merece é o inferno", dizia-lhe o
seu seqüestrador. "É o que eles chamam de
Zawadj-el-Moutaa, casamento temporário por prazer,
prática desconhecida pelo Islã magrebino que os
integristas importaram dos mulás iranianos", disse
a VEJA Zazi Sadou, líder da União Argelina das Mulheres
Democratas. "A mulher que resiste é terrivelmente
mutilada antes de ser degolada." No país das
cabeças cortadas, cerca de 1.600 jovens argelinas
tiveram esse destino nos últimos dois anos.
Cotidiano
de medo e bombas
Areski
Aït-Larbi, de Sidi-Iousef
No vilarejo
de Sidi-Iousef, as crianças não vão à escola
e os adultos não trabalham. Aqui, o empenho de
todos, 24 horas por dia, é conseguir sobreviver.
Em setembro passado, um bando armado invadiu o
lugar de casas pobres e ruas de terra e matou
mais de setenta pessoas, muitas mulheres e
crianças, bebês inclusive, a maioria degolada.
Uns dizem que foram terroristas do famigerado
Grupo Islâmico Armado, GIA, que tem como tática
de guerra chacinar civis. Outros, que foram
soldados do Exército disfarçados, numa
incursão destinada a aumentar a conta de
barbáries do terror islâmico. Dos habitantes de
Sidi-Iousef, um quase subúrbio de Argel, a
capital da Argélia, quem pôde foi morar em
outro lugar. Os que ficaram vivem com medo, pois
o pesadelo está longe de acabar
Sidi-Iousef fica bem ao lado de um bosque ocupado
há dois anos pelo bando do emir Athmane
Khélifi, um chefete terrorista. Hamid, 32 anos,
rosto cansado, funcionário público que, por
segurança, omite o sobrenome, conta: "Há
um mês, seis homens armados, com uniforme de
guardas-florestais, entraram na minha casa e
degolaram minha mãe, meu irmão e meu sobrinho.
Depois, seqüestraram minha irmã de 15
anos". Compreensivelmente, os sobreviventes
não confiam em ninguém e mantêm vigilância
contínua. Cada noite agrupam as mulheres e
crianças em um lugar diferente e montam guarda
em guaritas improvisadas sobre casas em
construção, armados com umas poucas espingardas
de caça cedidas pelo Exército.
A vida em
Sidi-Iousef está no extremo da precariedade e do
terror, mas, de um modo geral, vive-se hoje no
medo e no sobressalto constante em boa parte da
Argélia. Em outra aldeia, Aït-Méraou, situada
na região de Kabylie, os terroristas não se
aventuram há meses, depois de rechaçados a bala
pela população reunida em comitês de
autodefesa. Mesmo assim, Tahar, morador de uma
casa isolada, esteve à beira da morte em julho
do ano passado. Capturado, mãos atadas, jogado
no chão, ouviu sua condenação à morte e a
convocação de Farid, o degolador oficial do
grupo, para cumprir a sentença. "Fiz minhas
preces em silêncio e implorei a ajuda de Deus.
Fui atendido: Farid tinha sido morto no
ataque". Os atacantes acabaram fugindo,
deixando Tahar para trás. "Não podemos
nunca baixar a guarda", alerta Djaffar,
sociólogo que atualmente, de arma na mão,
protege a casa da família.
Perfume
e pólvora Em Argel, os
períodos agitados e tensos, com medo de
atentados, alternam-se com fases tranqüilas.
Janeiro do ano passado começou com bombas,
tiroteios e mortos, mas depois sobreveio a calma.
No verão, as praias encheram e a população
redescobriu as delícias da vida noturna, lotando
bares e casas de shows, para ouvir o raï.
Em setembro, contudo, quando o GIA invadiu um
balneário encostado em Argel e chacinou dezenas
de pessoas em férias, a população da capital
voltou a se assustar. Entre as vítimas, quase
todas degoladas, foi achado o corpo carbonizado
de um bebê de 4 meses no forno de um fogão.
No início
da década, quando os fundamentalistas
muçulmanos estavam por cima, Bab-el-Oued, um dos
bairros mais populosos de Argel, era sua
"capital espiritual". Vestidos de
combatentes afegãos (o integrismo floresceu com
os voluntários na luta contra os russos que
ocupavam o Afeganistão), os militantes marchavam
pelas ruelas proibindo música ocidental e
obrigando as mulheres a cobrir a cabeça. Mais
tarde, o bairro foi tomado pelos ninjas das
forças especiais, encarregadas de caçar os
extremistas islâmicos. Hoje reina uma certa
normalidade no bairro. Mas ninguém se deixa
enganar. Dois meses atrás, o perfume de
especiarias e de coentro que caracteriza o
mercado de Nelson, em Bab-el-Oued, foi
substituído pelo cheiro de pólvora
a explosão de uma bomba caseira deixou dezenas
de feridos. Viver é sempre perigoso na Argélia.
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