
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Gustavo
Franco
Alternância
no poder
"A
vitória de Lula e o espetáculo de
educação política proporcionado pelo
governo que se retira parecem sugerir
que amadurecemos uns 100 anos
nessas últimas semanas"
Ilustração Ale Setti
 |
É enorme a expectativa sobre os novos rumos da economia, mas está
difícil de antever, pois a primazia está na política,
em que tudo parece diferente do que sempre foi. A vitória de Lula
e o espetáculo de educação política proporcionado
pelo governo que se retira parecem sugerir que amadurecemos uns 100 anos
nessas últimas semanas. Tudo é visto com a naturalidade
de quem sempre viveu numa veterana democracia européia, embora
saibamos que estamos desbravando território inteiramente novo.
A esquerda nunca esteve no poder.
Com efeito,
na política como na economia, mudanças atmosféricas
estão ocorrendo com extraordinária velocidade, o que torna
muito difícil para os atores sociais exibir "coerência".
Essas eleições estiveram repletas de alianças estranhas
e inimigos reconciliados, além de notáveis revisões
de conceitos anteriores. Ninguém é mais o que era, ou é
o que parecia ser. O Lula de hoje não é mais o de 1989,
e por isso mesmo venceu Serra, que se parece com o Mário Covas
de 1989. Aliás, se estivesse vivo, Covas teria sido um contendor
muito mais forte para Lula, pois, como Lula, mudou muito desde 1989.
O mundo
é muito complexo mesmo, e os políticos têm de estar
em constante movimento, ainda que todos na mesma direção.
Circunstâncias e agendas estão em contínua transformação,
mas dentro de pressupostos institucionais muito bem estabelecidos: desapareceram
as alternativas fora da economia de mercado e da democracia representativa.
Por isso mesmo eu não acho que vai haver "mudança de modelo
econômico", pois o presidente, este como qualquer outro, terá
de encontrar termos de convivência com o mercado, um ator obrigatório
no jogo econômico, e com o Parlamento, a expressão institucional
da democracia em movimento.
Por isso,
convém começar a despir o presidente eleito de dotes messiânicos,
inclusive para seu próprio bem. Não há dúvida
de que o presidente eleito tem ótimas intenções,
mas não vamos esquecer que isso também existiu em todos
os governos anteriores, e seria irreal aceitar que tudo o que foi feito
até aqui, na economia e na área social, foi inteiramente
errado, e que todos os governantes anteriores foram incompetentes, ou
era gente mal-intencionada a serviço de interesses escusos. E que
apenas agora, com o PT, teremos competência, probidade e prioridades
corretas.
Como essa
hipótese é falsa, ainda que repetida por muitos áulicos
do PT, o encontro com a realidade será questão de tempo.
Faria bem o presidente eleito em reconhecer os méritos daqueles
que o precederam, principalmente porque não foram poucos, mas também
em razão de seus interesses, uma vez que serve como hedge
contra a possibilidade (altíssima) de ele próprio não
atingir os níveis (inatingíveis) de excelência que
impôs a seus predecessores.
O presidente
que se retira chama a atenção para outro paradoxo interessante
no âmbito do jogo parlamentar. O governo que termina pode, com toda
razão, queixar-se da atuação parlamentar do PT, que
sempre foi destrutiva e contrária a tudo o que vinha do Planalto,
pouco importando se fizesse bem ao Brasil.
Agora que
é governo, todavia, é fácil ver que o PT não
apenas terá de propor temas e projetos contra os quais lutou, como
também se verá na posição de vetar temas e
projetos pelos quais trabalhou. De forma simétrica, a futura oposição,
integrada por porções do PSDB e da antiga base governista,
ficará tentada a comportar-se como o PT, adotando a lógica
de "jamais rechear a empada do governo" e, assim, será contrária
a temas e projetos que propôs ou apoiou, e proporá temas
e projetos que vetou na encarnação anterior. O próprio
presidente que se retira teve a grandeza de propor que o PSDB não
repita a "ação destrutiva do PT" no Congresso. Uma ironia
finíssima, já que não vai ser possível atendê-lo,
e ele sabe disso.
Enfim, está
oficialmente inaugurada a tão esperada alternância no poder.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
|
|
 |