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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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Gustavo Franco

Alternância no poder

"A vitória de Lula e o espetáculo de
educação política proporcionado pelo
governo que se retira parecem sugerir
que amadurecemos uns 100 anos
nessas últimas semanas"


Ilustração Ale Setti


É enorme a expectativa sobre os novos rumos da economia, mas está difícil de antever, pois a primazia está na política, em que tudo parece diferente do que sempre foi. A vitória de Lula e o espetáculo de educação política proporcionado pelo governo que se retira parecem sugerir que amadurecemos uns 100 anos nessas últimas semanas. Tudo é visto com a naturalidade de quem sempre viveu numa veterana democracia européia, embora saibamos que estamos desbravando território inteiramente novo. A esquerda nunca esteve no poder.

Com efeito, na política como na economia, mudanças atmosféricas estão ocorrendo com extraordinária velocidade, o que torna muito difícil para os atores sociais exibir "coerência". Essas eleições estiveram repletas de alianças estranhas e inimigos reconciliados, além de notáveis revisões de conceitos anteriores. Ninguém é mais o que era, ou é o que parecia ser. O Lula de hoje não é mais o de 1989, e por isso mesmo venceu Serra, que se parece com o Mário Covas de 1989. Aliás, se estivesse vivo, Covas teria sido um contendor muito mais forte para Lula, pois, como Lula, mudou muito desde 1989.

O mundo é muito complexo mesmo, e os políticos têm de estar em constante movimento, ainda que todos na mesma direção. Circunstâncias e agendas estão em contínua transformação, mas dentro de pressupostos institucionais muito bem estabelecidos: desapareceram as alternativas fora da economia de mercado e da democracia representativa. Por isso mesmo eu não acho que vai haver "mudança de modelo econômico", pois o presidente, este como qualquer outro, terá de encontrar termos de convivência com o mercado, um ator obrigatório no jogo econômico, e com o Parlamento, a expressão institucional da democracia em movimento.

Por isso, convém começar a despir o presidente eleito de dotes messiânicos, inclusive para seu próprio bem. Não há dúvida de que o presidente eleito tem ótimas intenções, mas não vamos esquecer que isso também existiu em todos os governos anteriores, e seria irreal aceitar que tudo o que foi feito até aqui, na economia e na área social, foi inteiramente errado, e que todos os governantes anteriores foram incompetentes, ou era gente mal-intencionada a serviço de interesses escusos. E que apenas agora, com o PT, teremos competência, probidade e prioridades corretas.

Como essa hipótese é falsa, ainda que repetida por muitos áulicos do PT, o encontro com a realidade será questão de tempo. Faria bem o presidente eleito em reconhecer os méritos daqueles que o precederam, principalmente porque não foram poucos, mas também em razão de seus interesses, uma vez que serve como hedge contra a possibilidade (altíssima) de ele próprio não atingir os níveis (inatingíveis) de excelência que impôs a seus predecessores.

O presidente que se retira chama a atenção para outro paradoxo interessante no âmbito do jogo parlamentar. O governo que termina pode, com toda razão, queixar-se da atuação parlamentar do PT, que sempre foi destrutiva e contrária a tudo o que vinha do Planalto, pouco importando se fizesse bem ao Brasil.

Agora que é governo, todavia, é fácil ver que o PT não apenas terá de propor temas e projetos contra os quais lutou, como também se verá na posição de vetar temas e projetos pelos quais trabalhou. De forma simétrica, a futura oposição, integrada por porções do PSDB e da antiga base governista, ficará tentada a comportar-se como o PT, adotando a lógica de "jamais rechear a empada do governo" e, assim, será contrária a temas e projetos que propôs ou apoiou, e proporá temas e projetos que vetou na encarnação anterior. O próprio presidente que se retira teve a grandeza de propor que o PSDB não repita a "ação destrutiva do PT" no Congresso. Uma ironia finíssima, já que não vai ser possível atendê-lo, e ele sabe disso.

Enfim, está oficialmente inaugurada a tão esperada alternância no poder.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com ­ www.gfranco.com.br)


 
 
   
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