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Roberto Pompeu de Toledo

Notas para um dicionário brasileiro
de política (6)

Uma cândida repassada em
verbetes suscitados pela
grande despedida
do Senado
da semana passada

ACM – Iniciais que identificam um dos políticos brasileiros mais influentes e duradouros do último meio século. O costume de identificar políticos pelas iniciais começa com Juscelino Kubitschek (1902-1976), o JK. Com origem na imprensa, atende à necessidade de encurtar os nomes para fazê-los caber nas manchetes. Em princípio, ser popularizado pelas iniciais equivale a uma consagração. Supõe prestígio e alto grau de notoriedade. Os próprios aquinhoados assim o entendem, como demonstra o trecho em que, no discurso da semana passada, o político em questão, depois de pedir perdão pela "imodéstia", referiu-se à "sigla ACM" como "uma legenda viva, que ninguém vai destruir assim, sem mais nem menos". No governo Collor, porém, as iniciais foram reservadas ao vilão-mor do período, o PC de famigerada memória. Já no atual governo, ao surgirem suspeitas envolvendo o assessor presidencial Eduardo Jorge, os adversários passaram a referi-lo por EJ, mesmo que nunca antes fosse assim designado, para aproximá-lo do outro. Tais exemplos indicam que aquilo que era uma honra pode resultar, em certos casos, numa pecha.

Bahia – Estado brasileiro que, já não fosse a anomalia ortográfica representada pelo "h" sem função fonética no nome, apresenta igualmente uma anomalia política. No Império, nenhuma província produziu tantos e tão notáveis presidentes do Conselho, como eram chamados os primeiros-ministros – de Zacarias ao primeiro Rio Branco, de Saraiva a Cotegipe. Na República, o máximo que a Bahia conseguiu foi um vice-presidente que ocupou a Presidência longamente, por doença do titular – Manuel Vitorino, vice de Prudente de Moraes. Rui Barbosa candidatou-se à Presidência duas vezes e perdeu. E o único baiano que verdadeiramente chegou lá, Itamar Franco, se declara mineiro. A sina da Bahia tem sido a de chegar perto.

Bola da vez – Expressão emprestada ao jogo de snooker, ou sinuca, cujas regras impõem que o jogador, entre as diferentes bolas na mesa, se dedique a uma por vez. Começou a ser empregada em sentido figurado nas crises econômicas que, nestes tempos de chamada globalização, começam num país e contagiam outro, e outro. Assim, depois de um ataque especulativo contra a Argentina, a bola da vez seria o Uruguai, e, depois da Rússia, a Polônia. Na verdade, os países citados só o foram a título de exemplo, pois a verdadeira bola da vez, em crises como essas, surjam de onde surgirem, tem sido, lamentável e invariavelmente, o Brasil. No atual caso do Senado, como já há algum tempo há três bolas na mesa, encaçapadas duas, sobra uma. É a bola da vez.

Coronelismo – Fenômeno que caracteriza o exercício do poder, de forma pessoal e abusiva, por parte de chefes regionais ou locais, com recurso à proteção e aos favores, quando não ao terror, para exigir estrita obediência. O título de "coronel" dado ao titular desse "exorbitante poder privado", para citar o livro clássico sobre o assunto (Coronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal), origina-se na patente de "coronel" da Guarda Nacional que, no Império e na República Velha, era concedida a mandões paroquiais. O poderoso político que na semana passada se despediu do Senado foi freqüentemente apodado de "coronel". Na verdade em certos aspectos foi (é) mais que isso, e em outros menos. Mais problemático ainda é chamá-lo de "último coronel". O vezo retórico de qualificar alguém de "último" – o "último romântico", o "último trovador" – costuma ser desmentido com freqüência pelos fatos.

"Nos braços do povo" – Lugar-comum de que se socorrem os políticos para dizer de que forma voltarão, depois de, por alguma razão, serem afastados do jogo. Mesmo considerando que, segundo o Hino Nacional, o brasileiro tem "braço forte", há cargas que necessitam de braços em quantidade além da disponível.

Renúncia – Ato pelo qual o político abre mão do mandato. Fora do contexto político, o conceito de renúncia tem, com freqüência, conotação nobre. Renuncia-se ao trono pela mulher amada, como o duque de Windsor, ou à riqueza pelo serviço de Deus, como São Francisco de Assis. Na política brasileira, o mais célebre caso de renúncia, o do presidente Jânio Quadros, mistura tentativa de golpe, para voltar "nos braços do povo" (vide verbete), e desequilíbrio emocional. No Congresso, numa sucessão considerável de episódios recentes, renuncia-se quando se divisa a inevitabilidade do mal maior – a cassação do mandato.

Vice-rei do Norte – Título pelo qual foi conhecido o militar e político Juarez Távora (1898-1975), destacada figura do chamado tenentismo e, depois da Revolução de 30, supremo manda-chuva das regiões Norte e Nordeste. Juarez Távora era cearense, mas, já não se estendesse sua influência também a essa região do país, valia chamá-lo "do Norte" pelo fato de, à época, não usar dizer-se "Nordeste". O título de vice-rei do Norte (ou do Nordeste) esteve vago desde então. Nunca esteve tão vago quanto na semana passada.

   
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