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Nonada e outras
invenções
Um
dicionário mostra como
Guimarães Rosa criava as
palavras que compõem
seu universo
Flávio
Moura
Diz
a anedota que, para valorizar-se diante de um editor, um tradutor empostou
a voz e declarou: "Domino várias línguas inclusive
a de Guimarães Rosa". Parte do repertório de histórias
saborosas sobre o escritor mineiro, a piada não tem nada de gratuita.
Por uma razão muito simples: nenhum autor brasileiro foi tão
fundo quanto ele na arte de inventar palavras. Com base num conhecimento
lingüístico espantoso, Rosa foi mestre em cunhar novos termos
os neologismos , assim como em desenterrar palavras do português
arcaico e da fala popular. Desamparado pelos dicionários, ao leitor
restava desistir de estabelecer o significado exato dos vocábulos
e ler segundo a intuição. Mas agora há uma alternativa.
O Léxico de Guimarães Rosa (Edusp;
568 páginas; 50 reais), obra recém-lançada de autoria
de Nilce Sant'Anna Martins, é um diligente estudo do vocabulário
empregado pelo autor. Professora aposentada de estilística da Universidade
de São Paulo, ela pesquisou a obra de Rosa por mais de dez anos.
Seu livro desvenda a composição e o significado de nada
menos que 8 000 palavras. O caso mais célebre de neologismo é
o termo "nonada", palavra de abertura do romance Grande Sertão:
Veredas. Significa "coisa sem importância", e, segundo a autora,
resulta da fusão de "non", do português arcaico, com "nada".

O
escritor em viagem pelo sertão: horror ao lugar-comum
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Rosa
não foi o único escritor moderno com gosto pela criação
de novos termos. Antes dele, a prática foi tornada célebre
pelo irlandês James Joyce, que, no início do século
XX, levou-a ao paroxismo nos livros Ulysses e Finnegans Wake.
Segundo a professora Walnice Nogueira Galvão, uma das maiores especialistas
na obra de Rosa, a leitura de Joyce influenciou o brasileiro. Mas Rosa
não gostava dessa comparação. Ele achava Joyce cerebral
demais. E tinha explicações todas próprias para sua
mania de "palavrizar" (um termo, claro, inventado por ele). Elas aparecem
em alguns textos e entrevistas. Antes de mais nada, o autor tinha absoluto
horror ao lugar-comum. A linguagem cotidiana, acreditava ele, estava totalmente
desgastada pelo uso: só expressava clichês, e não
idéias. Para recuperar-lhe a vitalidade, a única solução
era partir para a invenção mais radical. "Cada autor deve
criar seu próprio léxico, do contrário não
pode cumprir sua missão", dizia Rosa.
Para criar sua própria língua, o autor recorreu a vários
métodos. Foi, por exemplo, um pesquisador incansável dos
hábitos e da fala dos sertanejos de Minas Gerais, assim como do
português antigo e de várias outras línguas. Segundo
o crítico alemão Günter Lorenz, Rosa era capaz de ler
em vinte idiomas. Nas diversas incursões que fez pelo sertão
mineiro, ele anotou de tudo em suas cadernetas: de expressões utilizadas
pelos jagunços a frases de pára-choque de caminhão.
Não deixava escapar nenhum detalhe. Grande parte dos termos que
causam estranhamento em seus livros, assim, não foi tirada do vácuo.
Palavras como "alimpar" ou "percurar", por exemplo, são utilizadas
pela população das regiões pesquisadas pelo autor.
Do mesmo modo, "convinhável" e "humildoso" são na realidade
arcaísmos que constam de dicionários e da obra de autores
mais antigos e pouco lidos, entre eles Alexandre Herculano e Fernão
Lopes.
Os termos inventados, no entanto, são os mais curiosos e
correspondem a cerca de 30% dos verbetes incluídos no dicionário
da professora Nilce. Em alguns casos, Rosa simplesmente acrescentou um
prefixo a palavras já existentes, como em "arreleque" (asas abertas
em forma de leque) ou "circuntristeza" (tristeza circundante). Em outros
casos, adicionou um sufixo. O resultado foram palavras peculiaríssimas,
entre elas "suspirância" (suspiros repetidos) e "coraçãomente"
(cordialmente). Rosa também fundia palavras. Cunhou "velhouco"
(junção de velho e louco) e "descreviver" (fusão
de descrever com viver). Em alguns casos, como o da palavra "fluifim"
(veja quadro),
entrava em jogo a idéia de que o som e o sentido das palavras deveriam
caminhar juntos. Para Rosa, a sugestão sonora de determinados termos
era tão ou mais importante do que o significado literal.
Em relação a um dicionário com as palavras que inventou,
Guimarães Rosa talvez torcesse o nariz. Ele sabia que, na maioria
das vezes, o leitor de sua obra não teria a menor idéia
do significado exato de certas invenções lingüísticas.
Mas também acreditava que o contexto deveria bastar para a decifração
das palavras que criava. Nunca foi sua intenção que, para
ler Grande Sertão: Veredas ou os belos contos de livros
como Sagarana e Tutaméia, as pessoas tivessem de
recorrer a cada instante ao Aurélio ou a um outro "pai-dos-burros".
Mas não resta dúvida de que o paciente e amoroso trabalho
de Nilce Martins tem mérito. Sobretudo pela maneira como elucida
o impressionante processo criativo de um dos maiores escritores que o
Brasil já teve.
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As
invenções de Rosa
Taurophtongo.
Neologismo
dos mais eruditos concebidos por Guimarães Rosa. Quer dizer
mugido, voz de touro. O escritor recorreu aos termos gregos "táuros"
(touro) e "phtoggos" (som da fala)
Enxadachim.
Rosa
empregou o termo para designar um trabalhador do campo, que luta
para sobreviver. A palavra é formada por enxada e espadachim
Mimbauamanhanaçara.
Esse
é dos mais complexos. Quer dizer vaqueiro ou "o que vigia
o gado". Para criar a palavra, o autor fundiu os termos tupi "mimbaua"
(criação, animal doméstico) e "manhana" (vigia)
e adicionou o sufixo "çara" (que faz)
Imitaricar.
Significa
arremedar, fazer trejeitos imitativos. Provém da junção
do verbo imitar com o sufixo diminutivo "icar", que indica a repetição
de pequenos atos
Ensimesmudo.
Trata-se
de um amálgama entre as palavras ensimesmado e mudo. Guimarães
Rosa utilizou-o para designar um sujeito fechado e taciturno
Embriagatinhar.
Neologismo
de conotação humorística. Serve para indicar
qualquer um que esteja engatinhando de tão bêbado.
Origina-se da fusão de embriagado e
gatinhar
Fluifim.
Significa
pequenino, gracioso, e se compõe da junção
de fluir e fino. O termo é exemplo da preocupação
do escritor em fazer a sonoridade acompanhar o significado da palavra
Velvo.
Uma
das várias palavras que Rosa criou com base em outros idiomas.
É uma adaptação do inglês velvet, que
quer dizer veludo. No contexto empregado pelo autor, corresponde
a "planta de folhas aveludadas"
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