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Esse
Waldeck Ornélas...
"Políticos
gostam de citações.
Eu proibiria. Parece justo: eu
não roubo dinheiro da Sudene,
eles param de citar autores ilustres"
Waldeck Ornélas é senador pela Bahia. É homem de
ACM. Tudo na Bahia é de ACM. Até o suplente de ACM é
de ACM: ACM Júnior. Com grande senso de ironia, ACM Júnior
declarou a um jornal de propriedade de ACM que, depois de assumir a vaga
do pai no Senado, pretende seguir fielmente a linha política do
dito-cujo. Waldeck Ornélas foi posto no Ministério da Previdência
Social por ACM. O mesmo ACM que, algum tempo depois, o tirou de lá.
Waldeck Ornélas é igual a ACM, só que num patamar
inferior. Waldeck Ornélas, por exemplo, é Grande Oficial
da Ordem do Mérito da Bahia. ACM ocupa um grau mais elevado dessa
Ordem: Colar. Waldeck Ornélas também é Grande Oficial
da Ordem do Mérito Naval e recebeu as Medalhas do Mérito
Mauá, Tamandaré e Militar. ACM não apenas recebeu
todas as condecorações de Waldeck Ornélas, como pode
se vangloriar de mais 32, inclusive muitas estrangeiras, da Finlândia
à Itália, da Venezuela ao Líbano. Além disso,
suas atividades como orador oficial da Escola Superior de Guerra garantiram-lhe
a cadeira número 37 da Academia de Letras da Bahia.
É
bem possível que, um dia, o letrado Waldeck Ornélas também
chegue lá. Ouvi seu discurso no Conselho de Ética e Decoro
Parlamentar sobre a quebra do sigilo do painel eletrônico. Claro
que ele defendeu ACM. Seria muito surpreendente se fizesse o contrário.
O fato que me indignou foi outro: em sua defesa de ACM, Waldeck Ornélas
ousou citar Montesquieu. Você sabe quem é Montesquieu. Aquele
do Espírito das Leis. Inspirou a Constituição
dos Estados Unidos, promulgada num tempo em que, no Brasil, estavam enforcando
o infeliz do Tiradentes. Waldeck Ornélas disse que Montesquieu
não concordaria com a cassação do mandato de ACM.
Não sei de onde ele tirou essa idéia. Só sei que,
em 1967, ACM foi nomeado prefeito de Salvador pelos militares. E Waldeck
Ornélas, à época com 22 anos, já estava a
seu lado, como oficial de gabinete da Secretaria de Viação
e Obras Públicas do município. Não há a menor
dúvida de que Montesquieu não aprovaria o regime dos militares.
Tudo o que escreveu foi no sentido de combater o despotismo. Waldeck Ornélas,
portanto, não deveria ter o direito de citá-lo.
Políticos gostam de citações. Vivem citando autores
ilustres. Eu, se pudesse, proibiria. Cassaria os mandatos dos transgressores
por falta de ética e decoro. Parece-me um acordo justo: eu não
roubo dinheiro da Sudene, eles param de citar autores ilustres. Logo depois
do discurso de Waldeck Ornélas, foi a vez de Jefferson Péres,
que se saiu com o shakespeariano "words, words, words", atribuindo-lhe
o significado da velha canção italiana de Mina e Alberto
Lupo, "parole, parole, parole". Enfim, discursou Francelino Pereira, que
só citou livros de sua própria autoria. Isso eu aceito.
Citar os próprios livros, pode. Para quem não sabe, Francelino
Pereira é autor de obras como Doações de Órgãos
e Ressurreição do Cinema, reunindo os discursos que
pronunciou na Subcomissão de Cinema, da qual é relator,
embora não tenha nada a ver com o tema, uma vez que é especialista
em questões relativas ao Vale do Jequitinhonha. Assim que Francelino
Pereira terminou de falar, o presidente do Conselho de Ética interrompeu
os trabalhos para que os senadores tomassem um lanche. É melhor.
Vamos todos tomar um lanche.
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