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Edição 1 703 - 6 de junho de 2001
Entrevista: James Waldroop

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Lições do fracasso

Professor de Harvard diz que
erros evitáveis de comportamento
e estilo são os grandes inimigos
do sucesso na vida profissional

Fábio de Oliveira

Nas duas últimas décadas, o psicólogo americano James Waldroop trabalhou na escola de administração e negócios da Universidade Harvard, onde dirigiu o setor de orientação de carreiras dos alunos de mestrado em administração de empresas. Ali, acumulou boa parte da experiência que lhe permitiu escrever o livro Sucesso Máximo, recém-lançado no Brasil pela editora Campus. Waldroop descreve uma dúzia de tipos de comportamento que podem levar um executivo bem-sucedido a beijar a lona. A obra foi feita a quatro mãos com o colega Timothy Butler, também de Harvard, seu sócio na Peregrine Partners, consultoria voltada para treinamento e aconselhamento de profissionais de alto escalão. Eles assessoram empresas do porte da Sony Music Entertainment, General Electric, Citibank, Gillette, Philip Morris e BankBoston. Na internet, a dupla mantém um site (www.careerdiscovery.com) que oferece uma avaliação interativa de desempenho.

Veja — Qual é o caminho mais curto para o fracasso?
Waldroop — Culpar sempre as outras pessoas pelos próprios problemas ajuda muito a ir para o buraco. Não aprender com a própria experiência é outra maneira quase infalível de fracassar. Paradoxalmente, quando se luta fervorosamente apenas para não fracassar, muitas vezes o que se encontra é justamente o fracasso. Há um tipo de profissional, que batizamos de “o herói”, que se esforça compulsivamente para atingir metas ambiciosas. O patrão acha isso maravilhoso até notar que muitas pessoas que trabalham sob a chefia do “herói” pediram demissão. Querem afastar-se. Isso porque eles desejam ver seus filhos mais de uma vez por ano, passar a noite com eles de tempo em tempo, ter um casamento e não um divórcio.

Veja — Há uma fórmula infalível para escapar do fracasso?
Waldroop — O que faz alguém ser bem-sucedido numa organização pode muito bem não fazê-lo em outra. Na realidade, pode até mesmo conduzi-lo ao fracasso. As qualidades que levam um sujeito a se dar muito bem em Wall Street podem não render-lhe fama e fortuna no agribusiness ou num estúdio de cinema. A fórmula do sucesso reúne, em um denominador comum, coisas evidentes e genéricas como: trabalhe duro, conquiste a simpatia de seu chefe. Os fatores que levam as pessoas ao fracasso, entretanto, são muito mais consistentes que os hábitos que conduzem ao sucesso. Fora alguns desabamentos espetaculares, as pessoas evitam falar de fracasso. É sempre melhor conversar sobre Bill Gates, da Microsoft, ou Richard Branson, da Virgin, do que sobre alguém que, por exemplo, tentou montar uma companhia aérea e foi à bancarrota.

Veja — Por que algumas pessoas solidamente bem-sucedidas muitas vezes não conseguem lidar com um fracasso transitório e acabam afundando?
Waldroop — A formação influencia muito. Há pessoas cujos pais enfatizaram na criação que elas não deveriam fracassar de modo algum. Será terrível para elas se um dia acontecer. Outras receberam a noção de que o fracasso é parte da vida e podem conviver com o malogro mais facilmente. Tenho uma citação colada na minha parede, de um dos pioneiros da linguagem de computador. Ele diz que se você não sofrer pelo menos um fracasso, é porque, provavelmente, não está sendo tão criativo quanto poderia ser. O fracasso é o parceiro do sucesso. É um processo de aprender a correr mais riscos. Uma pessoa excessivamente conservadora nas suas ações e pensamentos vai focar muito as conseqüências dos riscos e ignorar os possíveis benefícios de uma ousadia.

Veja — Tudo bem, mas é preciso saber como se levantar depois da queda. Isso nem sempre é possível, não?
Waldroop — Depende do tipo de fracasso. Se você trabalhou como louco para tentar vender algo e ninguém quer comprar seu produto, pode ficar chateado por um tempo. Uma coisa que talvez seja preciso fazer é reservar um tempo para se sentir mal. Não se incomode com o sentimento negativo. Saiba que ele passa. Em seguida é preciso enxergar o problema em perspectiva. Vamos pensar sobre todos os grandes homens e mulheres que foram muito bem-sucedidos e depois fracassaram na vida. O que se pode aprender com isso? Como fazer as coisas de uma maneira diferente? É necessário um pouco de distanciamento psicológico dos acontecimentos para que se possa reagir.

Veja — Há um tipo de gente fadada ao fracasso?
Waldroop — Sim. Existe certo tipo de profissional que sofre de “acrofobia de carreira”. Essa síndrome é bem comum. Ela dá a sua vítima um medo enorme de cair das alturas quando ela atinge um posto superior. Mesmo que a pessoa seja competente e bem preparada, ela terá medo pânico de cair. É como se estivesse no poço de um elevador, com os pés presos num andar lá embaixo e as mãos agarradas num andar lá em cima. Nessa situação, comum na vida corporativa, há muitas pessoas que acabam sabotando a própria carreira e o próprio sucesso. Quando caem, o custo tanto para elas quanto para a empresa é enorme.

Veja — A arrogância ajuda ou atrapalha?
Waldroop — Acho que as chances de ser bem-sucedido em geral são reduzidas quando você revela características como arrogância, pois, entre outras coisas, você faz muitos inimigos.

Veja — E a humildade?
Waldroop — Ajuda. Baixa auto-estima atrapalha. Eu poderia ser capaz de jogar basquete como Michael Jordan ou futebol como Pelé e estar sempre dizendo que o esforço coletivo do time é que conta. Isso é humildade.

Veja — Nos escritórios, há funcionários que buscam evitar o conflito a todo custo e outros que são excessivamente agressivos. Qual comportamento é mais adequado à carreira?
Waldroop — Se alguém é sempre muito agressivo, ele não tem como retroceder de suas posições. Esse alguém se paralisa. Evitar o conflito a qualquer custo também não é uma saída. Vamos pensar na esgrima: o combate se dá ao longo de uma faixa e não se pode sair para a esquerda ou para a direita. Há algumas pessoas que só avançam, avançam e nunca retornam. Num sentido figurado, são fáceis de ser “mortas”, pois são muito previsíveis. Outras só recuam. Elas também serão fáceis de ser “mortas”, pois, mais cedo ou mais tarde, estarão contra a parede. Moral da história: é preciso ser capaz de ir adiante e, outras vezes, de retroceder.

Veja — Quanto da vida privada se deve expor no ambiente de trabalho?
Waldroop — Nem todo mundo quer saber da sua vida privada. Vamos imaginar que nós dois trabalhamos num banco juntos. Eu pergunto: “Como foi seu fim de semana?”. Você responde: “Não muito bom. Fiquei bêbado no sábado à noite de novo, bati na minha mulher e nas crianças. Tentei transar com minha companheira, mas estava impotente”. Eu não queria saber tanto assim sobre sua vida, não é mesmo? Estava apenas sendo educado. Só queria ouvir: “Foi legal”. As pessoas que são muito auto-reveladoras não conseguem entender que estão se impondo e sendo invasivas.

Veja — Por que o sucesso parece ser predominante na vida de algumas pessoas e o fracasso geneticamente embutido em outras?
Waldroop — Há uma parte do sucesso na vida que é pura sorte. Penso na minha própria carreira. Eu era a segunda opção para dois empregos e outro concorrente era a primeira para ambos. Ele optou por outra universidade e deixou a vaga aberta aqui em Boston, o que me deu a chance de trabalhar na Harvard Business School. As pessoas acreditam que são bem-sucedidas pela única razão de que se acham capazes. Claro que muito se deve a méritos próprios, mas não tudo. Algumas vezes por trás de uma história de sucesso está a velha sorte.

Veja — Qual o tempo ideal para permanecer em um emprego?
Waldroop — Até quando isso fizer sentido. Quer dizer, durante o tempo em que estiver aprendendo, crescendo e, mais especificamente, aprendendo coisas que se propôs a aprender. Quando você realmente pára de crescer por um longo período, sua carreira está em risco.

Veja — Em que medida uma dedicação menos obsessiva ao trabalho pode ajudar um profissional?
Waldroop — Reservar uma parte de seu tempo para não trabalhar é importante não só para ter uma vida melhor mas também para ser produtivo nos negócios. Se você não tem tempo para fazer nada a não ser trabalhar, trabalhar, não renderá tanto, pois lhe faltarão alguns elementos fundamentais do que significa ser humano. Até o advento da eletricidade, a maioria das pessoas ia para a cama quando ficava escuro. Agora, trabalhamos até as 11 da noite. Essa é a forma pela qual fomos concebidos como humanos? Acredito que não. Você não pode dirigir um carro a 200 quilômetros por hora 24 horas por dia por muito tempo antes de o motor se apagar. E o mesmo se aplica às pessoas.

Veja — Quais as qualidades essenciais que os profissionais em qualquer ramo de trabalho devem ter hoje para não afundar?
Waldroop — Ser produtivo. Essa é a regra básica. A produtividade é igual à inteligência multiplicada pelo esforço. Então, é preciso ser inteligente, esforçar-se e também ser capaz de trabalhar bem com os outros. Deve-se ser capaz de aceitar os pontos de vista das outras pessoas, ter relacionamentos razoáveis com elas e, com a autoridade, usar o poder confortável e eficientemente. Isso exige que se desenvolva um senso de si próprio que seja positivo, que seja uma auto-estima.

Veja — As pessoas esperavam que as horas de trabalho fossem diminuir com o avanço tecnológico. Mas estamos vendo o oposto. Como o senhor explicaria isso?
Waldroop — A onda da reengenharia tirou o que poderíamos chamar de gordura, ou seja, os postos de trabalho considerados redundantes. Isso foi bom. Mas os que ficaram com os empregos são empurrados para o limite porque, em essência, não há “gordura” suficiente. Temos computador e e-mail em casa e a expectativa agora é que fiquemos disponíveis todo o tempo. As nossas horas livres estão diminuindo, as verdadeiras horas livres. Se estou recebendo ligações de meu escritório a cada duas horas nas minhas férias, será que eu estou mesmo de férias? Eu argumentaria que não.

Veja — Em que medida o modo como os pais criam seus filhos determina o sucesso futuro das pessoas?
Waldroop — Permitindo que eles fracassem sem que isso gere um drama. Encorajando-os a fazer experiências, a tentar coisas novas e a fazer coisas nas quais eles não são bons. Um ótimo campo para exercitar essa atitude é o esporte. É preferível dizer “O.k., você não é o melhor jogador do time, mas jogue assim mesmo” do que desencorajá-lo a continuar praticando o esporte que escolheu. Quando os pais encaram os fracassos como resultados naturais da ousadia dos filhos, estes se divertem e se esforçam para melhorar no jogo em vez de se sentir derrotados. Há algumas pessoas que têm o dom, são capazes de fazer algo extremamente bem desde o começo. Mas a maioria de nós não. As crianças precisam de encorajamento para superar a frustração.

Veja — Que impressão o senhor teve dos estudantes brasileiros com quem conviveu em Harvard?
Waldroop — Eles eram muito inteligentes em termos de suas habilidades e para analisar situações, além de bons nas relações pessoais, o que os tornava bem-sucedidos. Eles costumam ir bem academicamente em Harvard, que é uma escola reconhecidamente muito difícil.

Veja — Que conselho o senhor daria para jovens brasileiros que pretendem fazer um MBA nos Estados Unidos?
Waldroop — Provavelmente, o mesmo conselho que eu daria para muitos americanos, bem, pelo menos para alguns americanos: aprender a falar bem o inglês. Além disso, eles precisam demonstrar qualidades tanto de liderança como de trabalho em grupo. Esse é o caminho para trabalhar no ramo dos negócios. Há algumas pessoas que são investidores talentosos. Mas, para a maioria, trata-se da combinação de trabalhar como parte de um grupo e de liderar. E ser inteligente o suficiente para analisar a informação que você obtém.

Veja — Com tanto tempo de convivência nesse meio de empresas e consultorias, o senhor foi capaz de descobrir o executivo perfeito?
Waldroop — Não. E esse é um aspecto muito importante, porque a idéia não é ser perfeito nem se sentir perfeito. Não sei quais executivos aí no Brasil são vistos como os melhores, mas, no mundo todo, Jack Welch, da General Electric, é visto por muitas pessoas como o melhor executivo, mas ele certamente tem lá suas falhas. É preciso evitar aquele tipo de lamento: “Oh, meu Deus, estou tão envergonhado, não sou perfeito”. Seja bem-vindo ao clube.

Veja — Como os bajuladores são vistos hoje nas grandes corporações?
Waldroop — Esse tipo de comportamento é cada vez menos tolerado, menos produtivo e menos prevalente. A razão para isso é que as companhias se tornaram lugares mais competitivos. Os chefes sabem que não podem se dar ao luxo de ter alguém dizendo só o que eles querem ouvir. Se você só me disser o que eu quero ouvir e isso for errado — e você souber disso —, não terá me servido bem.

Veja — Em quais situações uma qualidade como ser dedicado à empresa pode ser prejudicial?
Waldroop — Uma ocorre quando você é extremamente dedicado à sua companhia e ela não é muito dedicada a você. Outra, quando você é cegamente dedicado à sua companhia. É como estar no Titanic dizendo: “Bem, a parte da frente do navio está debaixo d’água, mas tenho certeza de que vão consertá-la. Não vou entrar no barco salva-vidas porque, apesar de tudo, trata-se do Titanic”. Você já viu o filme e sabe como termina.



 
  
  
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