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do fracassoProfessor
de Harvard diz que erros evitáveis de comportamento e estilo são
os grandes inimigos do sucesso na vida profissional Fábio
de Oliveira
Nas duas últimas décadas, o psicólogo americano James Waldroop
trabalhou na escola de administração e negócios da Universidade
Harvard, onde dirigiu o setor de orientação de carreiras dos alunos
de mestrado em administração de empresas. Ali, acumulou boa parte
da experiência que lhe permitiu escrever o livro Sucesso Máximo,
recém-lançado no Brasil pela editora Campus. Waldroop descreve uma
dúzia de tipos de comportamento que podem levar um executivo bem-sucedido
a beijar a lona. A obra foi feita a quatro mãos com o colega Timothy Butler,
também de Harvard, seu sócio na Peregrine Partners, consultoria
voltada para treinamento e aconselhamento de profissionais de alto escalão.
Eles assessoram empresas do porte da Sony Music Entertainment, General Electric,
Citibank, Gillette, Philip Morris e BankBoston. Na internet, a dupla mantém
um site (www.careerdiscovery.com)
que oferece uma avaliação interativa de desempenho.
Veja Qual é o caminho mais curto para o fracasso?
Waldroop Culpar sempre as outras pessoas pelos próprios problemas
ajuda muito a ir para o buraco. Não aprender com a própria experiência
é outra maneira quase infalível de fracassar. Paradoxalmente,
quando se luta fervorosamente apenas para não fracassar, muitas vezes o
que se encontra é justamente o fracasso. Há um tipo de profissional,
que batizamos de o herói, que se esforça compulsivamente
para atingir metas ambiciosas. O patrão acha isso maravilhoso até notar
que muitas pessoas que trabalham sob a chefia do herói pediram
demissão. Querem afastar-se. Isso porque eles desejam ver seus filhos mais
de uma vez por ano, passar a noite com eles de tempo em tempo, ter um casamento
e não um divórcio.
Veja Há uma fórmula infalível para escapar
do fracasso? Waldroop O que faz alguém ser bem-sucedido
numa organização pode muito bem não fazê-lo em outra.
Na realidade, pode até mesmo conduzi-lo ao fracasso. As qualidades
que levam um sujeito a se dar muito bem em Wall Street podem não render-lhe
fama e fortuna no agribusiness ou num estúdio de cinema. A fórmula
do sucesso reúne, em um denominador comum, coisas evidentes e genéricas
como: trabalhe duro, conquiste a simpatia de seu chefe. Os fatores que levam as
pessoas ao fracasso, entretanto, são muito mais consistentes que os hábitos
que conduzem ao sucesso. Fora alguns desabamentos espetaculares, as pessoas evitam
falar de fracasso. É sempre melhor conversar sobre Bill Gates, da
Microsoft, ou Richard Branson, da Virgin, do que sobre alguém que, por
exemplo, tentou montar uma companhia aérea e foi à bancarrota.
Veja Por que algumas pessoas solidamente bem-sucedidas muitas vezes
não conseguem lidar com um fracasso transitório e acabam afundando?
Waldroop A formação influencia muito. Há pessoas
cujos pais enfatizaram na criação que elas não deveriam fracassar
de modo algum. Será terrível para elas se um dia acontecer. Outras
receberam a noção de que o fracasso é parte da vida
e podem conviver com o malogro mais facilmente. Tenho uma citação
colada na minha parede, de um dos pioneiros da linguagem de computador. Ele diz
que se você não sofrer pelo menos um fracasso, é porque,
provavelmente, não está sendo tão criativo quanto poderia
ser. O fracasso é o parceiro do sucesso. É um processo
de aprender a correr mais riscos. Uma pessoa excessivamente conservadora nas suas
ações e pensamentos vai focar muito as conseqüências
dos riscos e ignorar os possíveis benefícios de uma ousadia.
Veja Tudo bem, mas é preciso saber como se levantar
depois da queda. Isso nem sempre é possível, não?
Waldroop Depende do tipo de fracasso. Se você trabalhou como
louco para tentar vender algo e ninguém quer comprar seu produto, pode
ficar chateado por um tempo. Uma coisa que talvez seja preciso fazer é reservar
um tempo para se sentir mal. Não se incomode com o sentimento negativo.
Saiba que ele passa. Em seguida é preciso enxergar o problema em perspectiva.
Vamos pensar sobre todos os grandes homens e mulheres que foram muito bem-sucedidos
e depois fracassaram na vida. O que se pode aprender com isso? Como fazer as coisas
de uma maneira diferente? É necessário um pouco de distanciamento
psicológico dos acontecimentos para que se possa reagir.
Veja Há um tipo de gente fadada ao fracasso? Waldroop
Sim. Existe certo tipo de profissional que sofre de acrofobia
de carreira. Essa síndrome é bem comum. Ela dá
a sua vítima um medo enorme de cair das alturas quando ela atinge um posto
superior. Mesmo que a pessoa seja competente e bem preparada, ela terá
medo pânico de cair. É como se estivesse no poço de um
elevador, com os pés presos num andar lá embaixo e as mãos
agarradas num andar lá em cima. Nessa situação, comum na
vida corporativa, há muitas pessoas que acabam sabotando a própria
carreira e o próprio sucesso. Quando caem, o custo tanto para elas quanto
para a empresa é enorme.
Veja A arrogância ajuda ou atrapalha? Waldroop
Acho que as chances de ser bem-sucedido em geral são reduzidas quando você
revela características como arrogância, pois, entre outras coisas,
você faz muitos inimigos.
Veja E a humildade? Waldroop Ajuda. Baixa auto-estima
atrapalha. Eu poderia ser capaz de jogar basquete como Michael Jordan ou futebol
como Pelé e estar sempre dizendo que o esforço coletivo do
time é que conta. Isso é humildade.
Veja Nos escritórios, há funcionários que buscam
evitar o conflito a todo custo e outros que são excessivamente agressivos.
Qual comportamento é mais adequado à carreira? Waldroop
Se alguém é sempre muito agressivo, ele não
tem como retroceder de suas posições. Esse alguém se paralisa.
Evitar o conflito a qualquer custo também não é uma
saída. Vamos pensar na esgrima: o combate se dá ao longo de uma
faixa e não se pode sair para a esquerda ou para a direita. Há algumas
pessoas que só avançam, avançam e nunca retornam. Num sentido
figurado, são fáceis de ser mortas, pois são
muito previsíveis. Outras só recuam. Elas também serão
fáceis de ser mortas, pois, mais cedo ou mais tarde, estarão
contra a parede. Moral da história: é preciso ser capaz de
ir adiante e, outras vezes, de retroceder.
Veja Quanto da vida privada se deve expor no ambiente de trabalho?
Waldroop Nem todo mundo quer saber da sua vida privada. Vamos imaginar
que nós dois trabalhamos num banco juntos. Eu pergunto: Como foi
seu fim de semana?. Você responde: Não muito bom. Fiquei
bêbado no sábado à noite de novo, bati na minha mulher e nas
crianças. Tentei transar com minha companheira, mas estava impotente.
Eu não queria saber tanto assim sobre sua vida, não é mesmo?
Estava apenas sendo educado. Só queria ouvir: Foi legal. As
pessoas que são muito auto-reveladoras não conseguem entender que
estão se impondo e sendo invasivas.
Veja Por que o sucesso parece ser predominante na vida de algumas
pessoas e o fracasso geneticamente embutido em outras? Waldroop
Há uma parte do sucesso na vida que é pura sorte. Penso na
minha própria carreira. Eu era a segunda opção para dois
empregos e outro concorrente era a primeira para ambos. Ele optou por outra universidade
e deixou a vaga aberta aqui em Boston, o que me deu a chance de trabalhar na Harvard
Business School. As pessoas acreditam que são bem-sucedidas pela única
razão de que se acham capazes. Claro que muito se deve a méritos
próprios, mas não tudo. Algumas vezes por trás de uma história
de sucesso está a velha sorte.
Veja Qual o tempo ideal para permanecer em um emprego? Waldroop
Até quando isso fizer sentido. Quer dizer, durante o tempo
em que estiver aprendendo, crescendo e, mais especificamente, aprendendo coisas
que se propôs a aprender. Quando você realmente pára de crescer
por um longo período, sua carreira está em risco.
Veja Em que medida uma dedicação menos obsessiva ao
trabalho pode ajudar um profissional? Waldroop Reservar uma
parte de seu tempo para não trabalhar é importante não
só para ter uma vida melhor mas também para ser produtivo nos negócios.
Se você não tem tempo para fazer nada a não ser trabalhar,
trabalhar, não renderá tanto, pois lhe faltarão alguns elementos
fundamentais do que significa ser humano. Até o advento da eletricidade,
a maioria das pessoas ia para a cama quando ficava escuro. Agora, trabalhamos
até as 11 da noite. Essa é a forma pela qual fomos concebidos
como humanos? Acredito que não. Você não pode dirigir um carro
a 200 quilômetros por hora 24 horas por dia por muito tempo antes de o motor
se apagar. E o mesmo se aplica às pessoas.
Veja Quais as qualidades essenciais que os profissionais em qualquer
ramo de trabalho devem ter hoje para não afundar? Waldroop
Ser produtivo. Essa é a regra básica. A produtividade é igual
à inteligência multiplicada pelo esforço. Então, é preciso
ser inteligente, esforçar-se e também ser capaz de trabalhar bem
com os outros. Deve-se ser capaz de aceitar os pontos de vista das outras pessoas,
ter relacionamentos razoáveis com elas e, com a autoridade, usar o poder
confortável e eficientemente. Isso exige que se desenvolva um senso de
si próprio que seja positivo, que seja uma auto-estima.
Veja As pessoas esperavam que as horas de trabalho fossem diminuir
com o avanço tecnológico. Mas estamos vendo o oposto. Como o senhor
explicaria isso? Waldroop A onda da reengenharia tirou o que
poderíamos chamar de gordura, ou seja, os postos de trabalho considerados
redundantes. Isso foi bom. Mas os que ficaram com os empregos são empurrados
para o limite porque, em essência, não há gordura
suficiente. Temos computador e e-mail em casa e a expectativa agora é que
fiquemos disponíveis todo o tempo. As nossas horas livres estão
diminuindo, as verdadeiras horas livres. Se estou recebendo ligações
de meu escritório a cada duas horas nas minhas férias, será
que eu estou mesmo de férias? Eu argumentaria que não.
Veja Em que medida o modo como os pais criam seus filhos determina
o sucesso futuro das pessoas? Waldroop Permitindo que eles fracassem
sem que isso gere um drama. Encorajando-os a fazer experiências, a tentar
coisas novas e a fazer coisas nas quais eles não são bons. Um ótimo
campo para exercitar essa atitude é o esporte. É preferível
dizer O.k., você não é o melhor jogador do time,
mas jogue assim mesmo do que desencorajá-lo a continuar praticando
o esporte que escolheu. Quando os pais encaram os fracassos como resultados naturais
da ousadia dos filhos, estes se divertem e se esforçam para melhorar no
jogo em vez de se sentir derrotados. Há algumas pessoas que têm o
dom, são capazes de fazer algo extremamente bem desde o começo.
Mas a maioria de nós não. As crianças precisam de encorajamento
para superar a frustração. Veja Que impressão
o senhor teve dos estudantes brasileiros com quem conviveu em Harvard? Waldroop
Eles eram muito inteligentes em termos de suas habilidades e para analisar
situações, além de bons nas relações pessoais,
o que os tornava bem-sucedidos. Eles costumam ir bem academicamente em Harvard,
que é uma escola reconhecidamente muito difícil.
Veja Que conselho o senhor daria para jovens brasileiros que pretendem
fazer um MBA nos Estados Unidos? Waldroop Provavelmente, o mesmo
conselho que eu daria para muitos americanos, bem, pelo menos para alguns americanos:
aprender a falar bem o inglês. Além disso, eles precisam demonstrar
qualidades tanto de liderança como de trabalho em grupo. Esse é o
caminho para trabalhar no ramo dos negócios. Há algumas pessoas
que são investidores talentosos. Mas, para a maioria, trata-se da combinação
de trabalhar como parte de um grupo e de liderar. E ser inteligente o suficiente
para analisar a informação que você obtém.
Veja Com tanto tempo de convivência nesse meio de empresas
e consultorias, o senhor foi capaz de descobrir o executivo perfeito? Waldroop
Não. E esse é um aspecto muito importante, porque
a idéia não é ser perfeito nem se sentir perfeito. Não
sei quais executivos aí no Brasil são vistos como os melhores, mas,
no mundo todo, Jack Welch, da General Electric, é visto por muitas
pessoas como o melhor executivo, mas ele certamente tem lá suas falhas.
É preciso evitar aquele tipo de lamento: Oh, meu Deus, estou
tão envergonhado, não sou perfeito. Seja bem-vindo ao clube.
Veja Como os bajuladores são vistos hoje nas grandes corporações?
Waldroop Esse tipo de comportamento é cada vez menos
tolerado, menos produtivo e menos prevalente. A razão para isso é que
as companhias se tornaram lugares mais competitivos. Os chefes sabem que não
podem se dar ao luxo de ter alguém dizendo só o que eles querem
ouvir. Se você só me disser o que eu quero ouvir e isso for errado
e você souber disso , não terá me servido bem.
Veja Em quais situações uma qualidade como ser dedicado
à empresa pode ser prejudicial? Waldroop Uma ocorre quando
você é extremamente dedicado à sua companhia e ela não
é muito dedicada a você. Outra, quando você é cegamente
dedicado à sua companhia. É como estar no Titanic dizendo:
Bem, a parte da frente do navio está debaixo dágua,
mas tenho certeza de que vão consertá-la. Não vou entrar
no barco salva-vidas porque, apesar de tudo, trata-se do Titanic. Você
já viu o filme e sabe como termina. | |  |