Brigada ligeira

Melhor ficção brasileira de 1998 esteve
nas obras curtas e de leitura rápida

Carlos Graieb

 



 


Em Seis Propostas para o Próximo Milênio, testamento literário que deixou inacabado ao morrer, o autor italiano Italo Calvino defendeu a idéia de que a ficção do futuro deveria investir na rapidez. "A narrativa é um cavalo", dizia ele, afirmando preferir as obras que carregam o leitor a galope. Os atuais escritores brasileiros parecem concordar com Calvino. Em sua grande maioria, os trabalhos mais interessantes publicados em 1998 foram de ficção ligeira, contida em livros pequenos, às vezes com pouco mais de 100 páginas. Isso se verificou tanto no caso das obras que se filiam a um gênero de entretenimento, como o policial ou a ficção científica, quanto no das narrativas mais "sérias" e experimentais. A tendência vai na contramão das práticas internacionais: na Europa e nos Estados Unidos, os editores insistem para que os livros fiquem em torno das 300 páginas, dando ao consumidor a sensação de que saiu ganhando na equação custo-benefício. Por aqui, em um mercado que tem de atender pessoas com frugais hábitos de leitura, iniciativas que favorecem o formato breve vêm sendo tomadas.

Uma delas é a coleção Plenos Pecados, da editora Objetiva, em que cada livro tem por assunto um dos pecados capitais. O mais recente deles é O Clube dos Anjos (130 páginas; 16,80 reais), segundo romance de Luis Fernando Verissimo, famoso por suas crônicas, roteiros e peças de espírito inconfundível. Verissimo realiza à perfeição aquilo que vários autores têm procurado fazer nos últimos anos, quase sempre de maneira desajeitada: reciclar, para uso brasileiro, a novela policial. O caminho sabiamente escolhido por Verissimo é o da paródia. Às vezes, isso lhe permite refletir sobre os clichês do gênero — como no excelente primeiro parágrafo do livro, que discute o problema da culpa nas histórias de crime. Noutros casos, o autor simplesmente brinca com as expectativas do leitor. Mas o uso paródico da estrutura do policial não é uma mera artimanha literária: tem a ver também com o sentimento do narrador de que tudo em sua vida, e na dos outros protagonistas da história, foi uma farsa, um fracasso. Um fracasso em meio à abundância, deve-se dizer. Afinal, a gula é o pecado que Verissimo resolveu explorar em O Clube dos Anjos. Tomada em sentido literal, a gula é o que faz a história se mover, sendo a causa de diversas mortes. Mas ela não deixa de ter também função alegórica, já que no retrato que traça dos personagens, todos membros de uma elite balofa e voraz, há um comentário irônico sobre o Brasil que deu errado.

Além do livro de Verissimo, a coleção sobre os pecados rendeu uma segunda obra divertida, Xadrez, Truco e Outras Guerras (183 páginas; 19 reais), em que José Roberto Torero fala da ira. Torero também faz paródia, agora do romance histórico, e sua matéria-prima é a Guerra do Paraguai. Mas, enquanto Verissimo leva o leitor em linha reta até o final da narrativa, o "cavalo" de Torero é mais arisco. É um cavalo de rodeio, por assim dizer: cada capítulo curto corresponde a um salto da montaria, a uma gag de comédia-pastelão. A única frustração é que, dessa maneira, Torero apenas repete o que já vem fazendo desde seu primeiro livro, O Chalaça. Mais surpreendente é a estréia do biólogo Maurício Luz na ficção científica, gênero com poucos praticantes no Brasil. Em A Lição de Prático (Rocco; 275 páginas; 23 reais), Luz aborda um assunto do momento: a clonagem. Humor negro, notas de rodapé, reportagens e entrevistas forjadas são alguns dos artifícios usados para dar agilidade à narrativa e aspecto verossímil a essa distopia (uma utopia com sinal negativo) em que os homens conquistam a imortalidade pagando um preço alto.

Montaigne minimalista — Os livros mencionados são rápidos porque nem a paródia nem a aventura podem permitir-se a solenidade e a demora. São ligeiros por sua natureza de entretenimento e porque não se afastam da narrativa convencional. O mesmo não se pode dizer de O Filantropo, ficção de estréia do crítico de arte Rodrigo Naves (Companhia das Letras; 91 páginas; 16 reais). Seus textos são bastante curtos, com linguagem simples, e cada um, sozinho, não constitui um problema. A dificuldade começa quando o leitor tenta compor uma unidade a partir dos fragmentos, uma unidade várias vezes pressentida, mas que sempre escapa. A sensação de unidade vem do fato de que uma grande parte dos textos é narrada em primeira pessoa por um personagem masculino, que investiga a si e ao mundo de modo minucioso, buscando em tudo equilíbrio e proporção, a justa medida. Freqüentemente as reflexões são éticas, como se ele fosse um daqueles velhos pensadores morais franceses — um Montaigne minimalista. Outras vezes, a ênfase é na descrição. O problema é que, vira-e-mexe, essa seqüência é quebrada por textos de tipo diverso — a microbiografia em terceira pessoa de um obscuro boxeador ou uma narrativa com voz feminina, como Alvura. Qual o papel desses textos? São interlúdios? Delírios? Embora possa ser lido de uma sentada, O Filantropo pede ao leitor outras visitas, sem garantia de que no fim será possível decifrá-lo totalmente. Por mais estranho e original que seja, no entanto, o livro de Rodrigo Naves encontrou um parente na ficção brasileira de 1998: Resumo de Ana, de Modesto Carone (Companhia das Letras; 114 páginas; 16 reais). Não há nada de fragmentário na narrativa de Carone, pelo contrário: ele segue passo a passo a trajetória de sua personagem principal. É na austeridade e na ausência de lirismo que os dois livros se encontram. Naves é obcecado pela exatidão. Carone enxuga a história até o osso, elimina todas as divagações. É como se, juntos, Resumo de Ana e O Filantropo inaugurassem uma vertente minimalista na literatura brasileira, em que a velocidade de leitura decorre da extrema depuração do texto, e não de sua leveza ou de sua graça.

Para acabar, uma exceção. É claro que houve livro grosso em 1998, e um que não decepcionou foi Variações Goldman, do jornalista Bernardo Ajzenberg (Rocco; 307 páginas; 29 reais). Segundo a definição de um dos personagens, a história é uma espécie de Dom Casmurro dos anos 90. Nela, o arquiteto Silvio Goldman, assim como o Bentinho de Machado de Assis, supõe que sua filha não é realmente sua. Tomado pela desconfiança, torna-se cada vez mais impermeável ao mundo que o cerca. Ajzenberg explora bem as oportunidades que o romance longo oferece, como a evocação de um cenário — no caso, a cidade de São Paulo —, a criação de um painel social e até mesmo o uso de digressões. Variações Goldman faz lembrar as exigências de uma ficção de fôlego e trote mais largo. Uma lembrança oportuna, pois, se nem sempre a "concisão" é sinônimo de preguiça, como mostram os bons livros de 1998, nada impede que ela venha a se tornar mais um disfarce para a falta de idéias que assola a literatura brasileira.




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