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Em Seis Propostas para o Próximo Milênio,
testamento literário que deixou inacabado ao morrer, o autor italiano
Italo Calvino defendeu a idéia de que a ficção do futuro deveria investir
na rapidez. "A narrativa é um cavalo", dizia ele, afirmando
preferir as obras que carregam o leitor a galope. Os atuais escritores
brasileiros parecem concordar com Calvino. Em sua grande maioria, os trabalhos
mais interessantes publicados em 1998 foram de ficção ligeira, contida
em livros pequenos, às vezes com pouco mais de 100 páginas. Isso se verificou
tanto no caso das obras que se filiam a um gênero de entretenimento, como
o policial ou a ficção científica, quanto no das narrativas mais "sérias"
e experimentais. A tendência vai na contramão das práticas internacionais:
na Europa e nos Estados Unidos, os editores insistem para que os livros
fiquem em torno das 300 páginas, dando ao consumidor a sensação de que
saiu ganhando na equação custo-benefício. Por aqui, em um mercado que
tem de atender pessoas com frugais hábitos de leitura, iniciativas que
favorecem o formato breve vêm sendo tomadas.
Uma delas é a coleção Plenos Pecados,
da editora Objetiva, em que cada livro tem por assunto um
dos pecados capitais. O mais recente deles é O
Clube dos Anjos (130 páginas; 16,80 reais),
segundo romance de Luis Fernando Verissimo, famoso por
suas crônicas, roteiros e peças de espírito
inconfundível. Verissimo realiza à perfeição aquilo
que vários autores têm procurado fazer nos últimos
anos, quase sempre de maneira desajeitada: reciclar, para
uso brasileiro, a novela policial. O caminho sabiamente
escolhido por Verissimo é o da paródia. Às vezes, isso
lhe permite refletir sobre os clichês do gênero
como no excelente primeiro parágrafo do livro, que
discute o problema da culpa nas histórias de crime.
Noutros casos, o autor simplesmente brinca com as
expectativas do leitor. Mas o uso paródico da estrutura
do policial não é uma mera artimanha literária: tem a
ver também com o sentimento do narrador de que tudo em
sua vida, e na dos outros protagonistas da história, foi
uma farsa, um fracasso. Um fracasso em meio à
abundância, deve-se dizer. Afinal, a gula é o pecado
que Verissimo resolveu explorar em O Clube dos Anjos.
Tomada em sentido literal, a gula é o que faz a
história se mover, sendo a causa de diversas mortes. Mas
ela não deixa de ter também função alegórica, já
que no retrato que traça dos personagens, todos membros
de uma elite balofa e voraz, há um comentário irônico
sobre o Brasil que deu errado.
Além do livro de Verissimo,
a coleção sobre os pecados rendeu uma segunda obra divertida, Xadrez,
Truco e Outras Guerras (183 páginas; 19 reais), em que José Roberto
Torero fala da ira. Torero também faz paródia, agora do romance histórico,
e sua matéria-prima é a Guerra do Paraguai. Mas, enquanto Verissimo leva
o leitor em linha reta até o final da narrativa, o "cavalo"
de Torero é mais arisco. É um cavalo de rodeio, por assim dizer: cada
capítulo curto corresponde a um salto da montaria, a uma gag de comédia-pastelão.
A única frustração é que, dessa maneira, Torero apenas repete o que já
vem fazendo desde seu primeiro livro, O Chalaça. Mais surpreendente
é a estréia do biólogo Maurício Luz na ficção científica, gênero com poucos
praticantes no Brasil. Em A Lição de Prático (Rocco;
275 páginas; 23 reais), Luz aborda um assunto do momento: a clonagem.
Humor negro, notas de rodapé, reportagens e entrevistas forjadas são alguns
dos artifícios usados para dar agilidade à narrativa e aspecto verossímil
a essa distopia (uma utopia com sinal negativo) em que os homens conquistam
a imortalidade pagando um preço alto.
Montaigne minimalista Os livros mencionados
são rápidos porque nem a paródia nem a aventura podem permitir-se a solenidade
e a demora. São ligeiros por sua natureza de entretenimento e porque não
se afastam da narrativa convencional. O mesmo não se pode dizer de O
Filantropo, ficção de estréia do crítico de arte Rodrigo Naves
(Companhia das Letras; 91 páginas; 16 reais). Seus textos são
bastante curtos, com linguagem simples, e cada um, sozinho, não constitui
um problema. A dificuldade começa quando o leitor tenta compor uma unidade
a partir dos fragmentos, uma unidade várias vezes pressentida, mas que
sempre escapa. A sensação de unidade vem do fato de que uma grande parte
dos textos é narrada em primeira pessoa por um personagem masculino, que
investiga a si e ao mundo de modo minucioso, buscando em tudo equilíbrio
e proporção, a justa medida. Freqüentemente as reflexões são éticas, como
se ele fosse um daqueles velhos pensadores morais franceses um
Montaigne minimalista. Outras vezes, a ênfase é na descrição. O problema
é que, vira-e-mexe, essa seqüência é quebrada por textos de tipo diverso
a microbiografia em terceira pessoa de um obscuro boxeador ou uma
narrativa com voz feminina, como Alvura. Qual o papel desses textos?
São interlúdios? Delírios? Embora possa ser lido de uma sentada, O
Filantropo pede ao leitor outras visitas, sem garantia de que no fim
será possível decifrá-lo totalmente. Por mais estranho e original que
seja, no entanto, o livro de Rodrigo Naves encontrou um parente na ficção
brasileira de 1998: Resumo de Ana, de Modesto Carone (Companhia
das Letras; 114 páginas; 16 reais). Não há nada de fragmentário na narrativa
de Carone, pelo contrário: ele segue passo a passo a trajetória de sua
personagem principal. É na austeridade e na ausência de
lirismo que os dois livros se encontram. Naves é obcecado pela exatidão.
Carone enxuga a história até o osso, elimina todas as divagações. É como
se, juntos, Resumo de Ana e O Filantropo inaugurassem
uma vertente minimalista na literatura brasileira, em que a velocidade
de leitura decorre da extrema depuração do texto, e não de sua leveza
ou de sua graça.
Para acabar, uma exceção. É claro
que houve livro grosso em 1998, e um que não decepcionou foi Variações
Goldman, do jornalista Bernardo Ajzenberg (Rocco; 307 páginas;
29 reais). Segundo a definição de um dos personagens, a história é uma
espécie de Dom Casmurro dos anos 90. Nela, o arquiteto Silvio Goldman,
assim como o Bentinho de Machado de Assis, supõe que sua filha não é realmente
sua. Tomado pela desconfiança, torna-se cada vez mais impermeável ao mundo
que o cerca. Ajzenberg explora bem as oportunidades que o romance longo
oferece, como a evocação de um cenário no caso, a cidade de São
Paulo , a criação de um painel social e até mesmo o uso de digressões.
Variações Goldman faz lembrar as exigências de uma ficção de fôlego
e trote mais largo. Uma lembrança oportuna, pois, se nem sempre a "concisão"
é sinônimo de preguiça, como mostram os bons livros de 1998, nada impede
que ela venha a se tornar mais um disfarce para a falta de idéias que
assola a literatura brasileira.

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