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Guerra santa às mulheres
Com o fim
das últimas escolas para meninas, o regime
fanático do Afeganistão volta aos costumes medievais
Às vésperas do
século XXI e com o mundo todo mergulhado no abraço da
globalização, o Afeganistão é um lugar com a
desesperadora peculiaridade de ter dado um salto para
trás. Desde que tomou a capital, Cabul, menos de dois
anos atrás, a milícia Taliban uma força
guerrilheira nascida nos seminários islâmicos e que
controla dois terços do país transformou em lei
uma versão severa, tacanha e radical da sharia, o
conjunto de leis e regras de comportamento prescritos
para os muçulmanos. Impôs um rígido código de
vestuário, proibiu raspar a barba, música, cinema,
televisão, antenas parabólicas, jogos de cartas, criar
pássaros e soltar pipa. Nada, contudo, é mais sufocante
que a situação das mulheres.
A partir da
adolescência, elas não podem nem falar com homens,
exceto parentes próximos. São impedidas de trabalhar e
estudar. Só saem à rua por motivo justificado, assim
mesmo acompanhadas de um parente e cobertas da cabeça
aos pés pelo burqa, o manto que envolve o corpo todo
um pequeno círculo, à altura dos olhos e do
nariz, permite a visão através de uma tela, protegida
por tecido mais fino. Patrulhas do Ministério da
Propagação da Virtude e de Combate ao Vício percorrem
as ruas, de chicote em punho, atrás de um pecaminoso pé
sem meia dentro da sandália. Os talibans lutam em duas
frentes contra milícias rivais no norte e contra
o pecado no restante do país. A islamização do país,
contudo, parece mais uma guerra às mulheres.
Um país
atrasadíssimo numa região montanhosa do Centro-Oeste da
Ásia, o Afeganistão nunca foi uma sociedade
igualitária para os sexos. Apenas 1% das meninas chegava
à universidade em 1979, quando a União Soviética
invadiu o país para ajudar um presidente comunista e o
transformou num ponto de tensão da Guerra Fria. O
Taliban vê o trabalho feminino como uma arma na
conspiração ocidental contra o Islã e, duas semanas
atrás, fechou as últimas dez escolas para meninas
(eram, na realidade, classes improvisadas em casas
particulares). Só as médicas continuam em atividade,
pois um homem não poderia atender pacientes do sexo
oposto. Os princípios da sharia são aplicados em outros
países, como a Arábia Saudita e o Irã, mas o rigor
primitivo dos afegãos escandaliza até os aiatolás de
Teerã. Depois de dezessete anos de guerra civil, a
milícia fanática trouxe certa ordem e paz para Cabul,
mas o preço tem sido terrível. Três semanas atrás,
com a expulsão das agências humanitárias
internacionais, fechou-se a última porta ao exterior.
Vestidas em seus burqas, só resta às afegãs olhar o
mundo por uma fresta de luz.
O
direito de ser devota
No mundo
muçulmano, onde a regra é impor às mulheres
severos códigos de conduta, a Turquia vive na
contramão. Lá, o governo está às voltas com
manifestações semanais, que chegam a reunir
3000 universitárias diante da Universidade de
Istambul, pelo direito de cobrir os cabelos
segundo o figurino das muçulmanas devotas. A
liberdade de vestimentas está longe de ser um
assunto banal no país. Quando fundou a atual
Turquia nos escombros do Império Otomano, em
1923, Mustafa Kemal, o Ataturk, separou
radicalmente a mesquita do Estado. Entre as
medidas que impôs para tentar criar um país
moderno e laico estão as roupas ocidentais e o
alfabeto latino. O véu, compulsório no regime
teocrático dos sultões, foi banido do serviço
público e das escolas. O Exército e o governo
querem manter essas inovações a todo custo, mas
a maioria da população prefere viver segundo
costumes tradicionais. O uso do véu ressurgiu
com toda força na última década, acompanhando
a efervescência islâmica no Oriente Médio. Em
1995, um partido fundamentalista chegou a ganhar
as eleições e governou por mais de um ano, até
ser cassado pela Suprema Corte. O dilema tem
certa ironia: liberdade para as turcas inclui o
direito de cobrir a cabeça.
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