Edição 1 656 -5/7/2000

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Sobre os efeitos (ou não)
de uma surra

Até que ponto a violência do presente
é herança do passado? Uma questão
suscitada à margem de um grande livro

Havia a surra iniciática. Chegado à fazenda à qual se destinava, depois de todos os horrores por que já havia passado, da captura na selva africana à travessia nos navios negreiros, o escravo ainda era submetido a uma sova, sem outra razão senão a de cumprir um ritual. Um padre e jurista que viveu na Bahia no século XVIII, Ribeiro Rocha, deixou um testemunho de como procediam os senhores: "A primeira hospedagem que lhes fazem, logo que comprados aparecem em sua presença, é mandá-los açoitar rigorosamente, sem mais causa que a vontade própria de o fazer assim (...)". Era para já começar por baixo. Para aprender que ali ele não valia nada – e que o senhor, em contrapartida, valia (e podia) tudo.

A notícia da surra, bem como a citação que a acompanha, consta do magnífico O Trato dos Viventes, livro sobre a escravidão e o tráfico no período colonial recém-lançado pelo historiador (e colunista de VEJA) Luiz Felipe de Alencastro. Uma resenha a respeito encontra-se na página 146 desta revista. Aqui se retoma o livro pela oportunidade que oferece de abordar uma questão problemática: até que ponto a violência do passado influencia o Brasil de hoje? O próprio Alencastro a suscita, ao inserir no livro o seguinte comentário, depois de falar na surra: "Instruídos pela longa experiência escravocrata, os torturadores do DOI-Codi e da Operação Bandeirantes também faziam uso repentino da surra, à entrada das delegacias e das casernas, para desumanizar e aterrorizar os suspeitos de 'subversão' ". Não é o único momento em que o autor ergue uma ponte entre o passado e o presente. No prefácio do livro, escreve que foi o assassinato pela ditadura, em 1972, de três colegas – Heleny Guariba, Paulo de Tarso Celestino e Honestino Guimarães – que o fizeram querer "entender o Brasil". Numa entrevista à Folha de S. Paulo (18/6/2000), disse que "a violência gerada pelo escravismo contaminou a sociedade brasileira até hoje".

As razões de Alencastro são respeitabilíssimas. Ele faz parte de uma geração de estudantes, professores, jornalistas e intelectuais que se arrepiava cada vez que tocava o telefone, naqueles anos 60 e 70. Podia conter a notícia de um amigo preso, ou sumido. Pior ainda, às vezes, era quando continha a de que o amigo fora achado: "Acharam o Vlado". Vlado, ou Vladimir Herzog, como se sabe, foi achado morto numa cela do DOI-Codi em São Paulo, com o cinto amarrado grotescamente ao pescoço para simular suicídio. As razões de Alencastro não só são respeitabilíssimas como é bela a homenagem que faz, num livro que resulta de toda uma vida de estudos e reflexões, aos três amigos, de cuja morte recebeu a notícia na França, onde estudava – e imagina-se o susto, imagina-se o pesar e a revolta. Isso não quer dizer que não seja discutível sua vinculação do presente ao passado.

Distinga-se desde logo entre as várias modalidades ao abrigo da ampla palavra "violência". A violência do preconceito racial no Brasil, país onde quem ganha menos, no emprego, e apanha mais, na polícia, é negro, ou a violência da prepotência senhorial, do sabe-com-quem-está-falando, estas se encaixam bem na conta do passado escravista. Já as surras no DOI-Codi, em vez de a um remoto senhor-de-engenho, seria mais simples conectar, se se quer conectar a algo, com a Escola das Américas, no Panamá, onde instrutores dos Estados Unidos davam aulas de defesa do "mundo livre" aos aprendizes da Latinidad. Alencastro diz que o Brasil é um país violento. É mesmo. Resta saber qual não é. Pense-se na França, da Noite de São Bartolomeu (6 000 mortos, em poucas horas) à colaboração com o nazismo. Na Espanha, da Inquisição à Guerra Civil. Nos Estados Unidos, do extermínio dos índios às leis raciais do Sul. Isso para não falar da Ásia, da África, dos hermanos da América.

E daí? Daí nada, por enquanto. Saber qual país tem a história mais violenta ou se a violência se deve à herança escravista ou aos instrutores do Panamá é questão acadêmica. Mas há um ponto potencialmente danoso na idéia de que somos violentos porque nossa história nos fez violentos. O passo seguinte é concluir que há aí como que uma fatalidade genética. Algo tão incontrolável como a cor dos olhos, tão invencível como a queda dos cabelos. Há, de novo, uma razão respeitabilíssima para Alencastro dizer que a História violenta do Brasil está na base do presente violento. É contrapor-se à idéia, tão ou mais arraigada, de que temos um passado pacífico, o que explicaria uma suposta índole pacífica, apadrinhada por intelectuais influentes – lembra Alencastro – como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. O problema – todo o problema – é que a insistência na violência como herança histórica se presta à causa do imobilismo. Equivale ao vezo, tão freqüente, de explicar um amplo espectro de males nacionais, da corrupção ao mau comportamento no trânsito, com exclamações do tipo: "O Brasil é isso", "Brasileiro é assim". Não é que estamos assim: somos assim. Ora, se somos assim, como mudar? Deixa pra lá.