Sobre os efeitos (ou não)
de uma surra
Até que ponto a
violência do presente
é herança do passado? Uma questão
suscitada à margem de um grande livro
Havia a surra iniciática. Chegado à fazenda
à qual se destinava, depois de todos os horrores
por que já havia passado, da captura na selva africana
à travessia nos navios negreiros, o escravo ainda
era submetido a uma sova, sem outra razão senão
a de cumprir um ritual. Um padre e jurista que viveu na
Bahia no século XVIII, Ribeiro Rocha, deixou um testemunho
de como procediam os senhores: "A primeira hospedagem que
lhes fazem, logo que comprados aparecem em sua presença,
é mandá-los açoitar rigorosamente,
sem mais causa que a vontade própria de o fazer assim
(...)". Era para já começar por baixo. Para
aprender que ali ele não valia nada e que o senhor,
em contrapartida, valia (e podia) tudo.
A notícia da surra, bem como a citação
que a acompanha, consta do magnífico O Trato dos
Viventes, livro sobre a escravidão e o tráfico
no período colonial recém-lançado pelo
historiador (e colunista de VEJA) Luiz Felipe de Alencastro.
Uma resenha a respeito encontra-se na página
146 desta revista. Aqui se retoma o livro pela oportunidade
que oferece de abordar uma questão problemática:
até que ponto a violência do passado influencia
o Brasil de hoje? O próprio Alencastro a suscita,
ao inserir no livro o seguinte comentário, depois
de falar na surra: "Instruídos pela longa experiência
escravocrata, os torturadores do DOI-Codi e da Operação
Bandeirantes também faziam uso repentino da surra,
à entrada das delegacias e das casernas, para desumanizar
e aterrorizar os suspeitos de 'subversão' ". Não
é o único momento em que o autor ergue uma
ponte entre o passado e o presente. No prefácio do
livro, escreve que foi o assassinato pela ditadura, em 1972,
de três colegas Heleny Guariba, Paulo de Tarso
Celestino e Honestino Guimarães que o fizeram
querer "entender o Brasil". Numa entrevista à Folha
de S. Paulo (18/6/2000), disse que "a violência
gerada pelo escravismo contaminou a sociedade brasileira
até hoje".
As razões de Alencastro são respeitabilíssimas.
Ele faz parte de uma geração de estudantes,
professores, jornalistas e intelectuais que se arrepiava
cada vez que tocava o telefone, naqueles anos 60 e 70. Podia
conter a notícia de um amigo preso, ou sumido. Pior
ainda, às vezes, era quando continha a de que o amigo
fora achado: "Acharam o Vlado". Vlado, ou Vladimir Herzog,
como se sabe, foi achado morto numa cela do DOI-Codi em
São Paulo, com o cinto amarrado grotescamente ao
pescoço para simular suicídio. As razões
de Alencastro não só são respeitabilíssimas
como é bela a homenagem que faz, num livro que resulta
de toda uma vida de estudos e reflexões, aos três
amigos, de cuja morte recebeu a notícia na França,
onde estudava e imagina-se o susto, imagina-se o pesar
e a revolta. Isso não quer dizer que não seja
discutível sua vinculação do presente
ao passado.
Distinga-se desde logo entre as várias modalidades
ao abrigo da ampla palavra "violência". A violência
do preconceito racial no Brasil, país onde quem ganha
menos, no emprego, e apanha mais, na polícia, é
negro, ou a violência da prepotência senhorial,
do sabe-com-quem-está-falando, estas se encaixam
bem na conta do passado escravista. Já as surras
no DOI-Codi, em vez de a um remoto senhor-de-engenho, seria
mais simples conectar, se se quer conectar a algo, com a
Escola das Américas, no Panamá, onde instrutores
dos Estados Unidos davam aulas de defesa do "mundo livre"
aos aprendizes da Latinidad. Alencastro diz que o
Brasil é um país violento. É mesmo.
Resta saber qual não é. Pense-se na França,
da Noite de São Bartolomeu (6 000 mortos, em poucas
horas) à colaboração com o nazismo.
Na Espanha, da Inquisição à Guerra
Civil. Nos Estados Unidos, do extermínio dos índios
às leis raciais do Sul. Isso para não falar
da Ásia, da África, dos hermanos da
América.
E daí? Daí nada, por enquanto. Saber qual
país tem a história mais violenta ou se a
violência se deve à herança escravista
ou aos instrutores do Panamá é questão
acadêmica. Mas há um ponto potencialmente danoso
na idéia de que somos violentos porque nossa história
nos fez violentos. O passo seguinte é concluir que
há aí como que uma fatalidade genética.
Algo tão incontrolável como a cor dos olhos,
tão invencível como a queda dos cabelos. Há,
de novo, uma razão respeitabilíssima para
Alencastro dizer que a História violenta do Brasil
está na base do presente violento. É contrapor-se
à idéia, tão ou mais arraigada, de
que temos um passado pacífico, o que explicaria uma
suposta índole pacífica, apadrinhada por intelectuais
influentes lembra Alencastro como Gilberto Freyre
e Darcy Ribeiro. O problema todo o problema é
que a insistência na violência como herança
histórica se presta à causa do imobilismo.
Equivale ao vezo, tão freqüente, de explicar
um amplo espectro de males nacionais, da corrupção
ao mau comportamento no trânsito, com exclamações
do tipo: "O Brasil é isso", "Brasileiro é
assim". Não é que estamos assim: somos
assim. Ora, se somos assim, como mudar? Deixa pra
lá.