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Roberto Pompeu de Toledo

Alexandre Dumas
sai a passeio

E a França, ao render homenagem
ao autor de Os Três Mosqueteiros,
no fundo homenageia a si mesma

Edmund Dantès, o futuro Conde de Monte Cristo, fugiu da masmorra onde por catorze anos estivera enclausurado, na ilhota de If, vizinha a Marselha, fingindo-se de morto. O habitante da cela vizinha, o padre Faria, acabara de morrer, e o cadáver mereceu dos carcereiros o tratamento habitual: embalado num saco, seria em seguida lançado ao mar. "Só mesmo morto para escapar deste lugar", pensou Dantès. Ato contínuo veio-lhe a idéia salvadora. Tirou o corpo do padre e meteu-se, ele mesmo, no saco. Ao chegarem, os carcereiros sentiram que o saco parecia mais volumoso e pesado, mas tocaram em frente. Dirigiram-se até os rochedos que cercam a ilhota. Ali amarraram uma pedra ao saco, para que afundasse, e o lançaram ao mar. Caíra a noite, o ambiente era hostil e as circunstâncias aterradoras. Mas Dantès, forte, sagaz e heróico, conseguiu desvencilhar-se do saco e saiu nadando para a vida, a liberdade e novas e incríveis aventuras.

O criador do Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas, perpetrou na semana passada proeza similar: saiu da tumba para a glória. Ou, melhor dizendo, da tumba para maior glória ainda, pois de glória já não era, exatamente, um despossuído. Dumas, 132 anos depois da morte, teve os restos retirados do cemitério da cidade natal, Villers-Cotterêts (cerca de 10.000 habitantes, 65 quilômetros a nordeste de Paris), e iniciou um périplo que o levaria ao templo supremo dos heróis da nacionalidade, o Panthéon, onde repousam Rousseau, Voltaire, Victor Hugo e Emile Zola, para ficar nos grandes escritores. Como D'Artagnan, o mais ardiloso e valente dos quatro mosqueteiros, mas também o mais ingênuo e caipira, Dumas deixava a província para reiniciar a vida – no caso a vida eterna – entre o estrépito e o frenesi da capital. "É estranho, mas, depois de ter autorizado a exumação, sinto-me numa espécie de luto", disse o prefeito de Villers-Cotterêts. Pierre Georges, jornalista do diário Le Monde, comentou que não via nada de estranho na desolação do prefeito. "Pode ocorrer às vezes", escreveu, "que os cemitérios sejam habitados por gente realmente insubstituível."

Dumas pôs-se a caminho da glória sem pressa. Por dois dias, terça e quarta-feira últimas, tiveram lugar várias cerimônias de despedida na própria Villers-Cotterêts, entre as quais homenagem na prefeitura e cortejo pelas ruas. Em seguida, os restos foram levados ao Castelo de Monte Cristo, uma extravagância erguida pelo próprio Dumas, nos arredores de Paris, no auge do sucesso de Os Três Mosqueteiros e do livro com cujo nome batizou a construção. Nesse castelo, onde entre outras atrações instalou uma Sala Mourisca, com arquitetura das Mil e Uma Noites, o escritor costumava promover memoráveis recepções. De novo, por dois dias, ele esteve ali para receber, mas o público só das 14 às 18 horas. A noite era reservada para convidados, entre os quais especialistas em sua obra e personalidades do mundo das artes. Enfim, para a manhã do sábado estava previsto o deslocamento até Paris, onde Dumas faria a primeira parada – e receberia as primeiras homenagens – no Palácio Luxemburgo, a sede do Senado francês. No fim da tarde, os restos ilustres atravessariam os poucos quarteirões que dali conduzem ao Panthéon escoltado por quatro mosqueteiros. Atores, no caminho, recitariam trechos do escritor. A TV estatal transmitiria tudo ao vivo.

Eis um exemplo de como a velha Europa se aperfeiçoou na arte de fazer do passado presente e do presente passado. Assim como a Inglaterra reafirma sua identidade e se faz lembrar pelo mundo nas cerimônias da família real, assim também a França se aproveita do prestígio de sua cultura para rever-se no espelho e revigorar-se. É um engano freqüente confundir tais iniciativas com decadência. A Europa nunca esteve tão próspera. No caso da França, trata-se do quarto país mais rico do mundo. Antes, a manipulação permanente do passado é um elixir com múltiplas utilidades: promove a coesão social, reforça o charme nacional e – como não? – atrai dinheiro, seja sob a forma de incremento ao negócio da cultura, seja sob a forma de turismo.

No Pantheón, Dumas, escritor chinfrim, mas criador de histórias tão mirabolantes quanto inesquecíveis, terá, além dos colegas de letras, a companhia de heróis de outros ramos – de Jean Moulin, líder da Resistência à ocupação nazista, a Louis Braille, o inventor do método de leitura para cegos. Ao ser introduzido à nova e (espera-se) definitiva morada, ele seria saudado pelo presidente Jacques Chirac, investido do papel da própria França. Certas personalidades já se evidenciam tão formidáveis que vão direto para o Pantheón, como um santo vai direto para o céu. Foi o caso de Victor Hugo, ali enterrado sem escalas. Outros enfrentam um purgatório que se pode estender por mais de 100 anos, como Dumas. Faz parte dos usos e costumes franceses de tempo em tempo levar alguém ao Panthéon. Segundo o referido jornalista do Le Monde, o próximo – ou próxima, no caso – seria George Sand.

   
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