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Edição 1 780 - 4 de dezembro de 2002
Diogo Mainardi

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O Show da Fome

"Lula enfrenta problemas de peso.
Poucos dias atrás, declarou que,
para ser ministro, é irrelevante
possuir uma grande massa cerebral.
Menos irrelevante, presume-se, é
possuir uma grande massa corporal.
Graças aos petistas superalimentados,
renovamos nossas esperanças"

O lado bom dessas tragédias é que acabam aumentando nossa cultura geral. O que eu saberia sobre a abundante safra de ópio em Jalalabad sem os bombardeios americanos? Ou sobre o marido da presidente da Indonésia sem o atentado de Bali? Ou sobre o musical russo Nord-Ost sem os terroristas chechenos? Ou sobre o concurso de Miss Mundo sem os massacres na Nigéria? Lamento apenas que minha memória seja tão curta. Durante o genocídio em Ruanda e Burundi, aprendi montes de coisas sobre hutus e tutsis. Agora nem lembro mais quais eram os altos e quais eram os baixos. Atualmente, meu interesse está todo voltado para o governador Julio Miranda, da província de Tucumán, na Argentina, onde criancinhas miseráveis morrem de fome. Daqui a alguns meses, certamente já terei esquecido todos os escândalos envolvendo seu nome.

A fome é uma importante fonte de curiosidades socioeconômicas. Quase tudo o que sei sobre os países mais desastrados do planeta depende exclusivamente de seus famintos. De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, da ONU, 800 milhões de pessoas estão passando fome neste momento. Cerca de 10 milhões se encontram na Etiópia, cuja renda per capita anual, nas últimas duas décadas, caiu de 190 para 108 dólares. Em Madagascar, o número de famintos deve chegar a 400.000, em conseqüência de crises políticas e desastres naturais. Na Coréia do Norte, 45% das crianças com menos de 5 anos podem ser consideradas subnutridas. E mais de 600.000 palestinos, nos territórios ocupados, sobrevivem apenas graças à ajuda de órgãos humanitários.

Para quem quer testar os próprios conhecimentos geográficos, o Programa Mundial de Alimentos distribui gratuitamente um Mapa da Fome. É possível transformá-lo numa espécie de Show do Milhão da miséria, com perguntas sobre o índice de desenvolvimento humano de Malauí, ou sobre os Estados fronteiriços de Mianmar, ou sobre a taxa de analfabetismo feminino do Iêmen. Vergonhosamente, o Brasil não consta desse mapa. Fomos excluídos pela ONU. Como se nossos 40 milhões de famintos fossem uma mera invenção eleitoreira de Lula. Como se Ronaldo pudesse perder tempo com o programa Fome Zero. É paradoxal que, no mesmo período em que Ronaldo se engajava na campanha alimentar de Lula, os dirigentes de seu time, o Real Madrid, o acusavam de estar diversos quilos acima do peso, por causa de sua voracidade por hambúrgueres e Coca-Cola. O hipercalórico Ronaldo fez uma única exigência a Lula: a de que seu desafeto Sócrates fosse mantido a distância. Quando ainda estava em atividade, Sócrates era conhecido como Magrão, atributo que o tornaria uma testemunha perfeita para o Fome Zero. Infelizmente, nada em seu atual estado justifica o apelido. Outro que enfrenta problemas de peso é Lula, assim como todos os seus principais assessores e ministeriáveis. Poucos dias atrás, Lula declarou que, para ser ministro em seu governo, é irrelevante possuir uma grande massa cerebral. Muito menos irrelevante, presume-se, é possuir uma grande massa corporal. De fato, o governo petista terá a mais alta tonelagem da história da República. É graças a essa gente superalimentada que podemos renovar nossas esperanças no futuro. Daqui por diante, nenhum brasileiro comerá menos de 11.000 calorias por dia.

 
 
   
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