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Como
ficar rico
Primeiro-ministro explica
como
a Espanha saltou para o Primeiro
Mundo em apenas uma geração
e ainda cresce mais que o resto
da Europa

Raul Juste Lores
José María Aznar é primeiro-ministro da Espanha há
seis anos. Nesse período, seu país se transformou no maior
investidor europeu no Brasil, com mais de 26 bilhões de dólares
aplicados aqui. Aznar zerou o déficit público, garantiu
um crescimento médio de 3% ao ano, mais que o dobro da média
da União Européia, e também baixou o desemprego de
escandalosos 22% para 11%, índice alto, mas razoável para
os padrões europeus. Quando assumiu, poucos apostavam em tanto
sucesso. Faltavam-lhe o charme e o carisma do antecessor, o socialista
Felipe González, que governou a Espanha por treze anos. O que aconteceu
foi que os espanhóis aprovaram seu estilo discreto e o reelegeram,
dois anos atrás, com maioria no Parlamento. Aznar era um solitário
governante conservador numa Europa majoritariamente socialista. Hoje ele
é a figura mais destacada da direita moderna que governa alguns
dos países mais importantes, como a França. Advogado, ex-fiscal
da Receita, o primeiro-ministro é casado com a bonita e extrovertida
Ana Botella e tem três filhos. Aznar recebeu VEJA para esta entrevista
no Palacio de la Moncloa, em Madri.
Veja O desemprego na Espanha foi reduzido à metade
nos últimos seis anos e o crescimento da economia se mantém
bem acima da média européia. Qual a receita desse sucesso
econômico?
Aznar
A receita consiste em garantir a manutenção da estabilidade
econômica. Consegue-se isso com uma sólida abertura ao exterior
e com a promoção de reformas na legislação
trabalhista e na tributária. Essa economia mais flexível
e competitiva gera crescimento e, por conseqüência, empregos.
Quando assumi, em 1996, o desemprego na Espanha chegava a 22%. Hoje, está
em 11%. Criar empregos é a melhor política social que existe.
Na verdade, graças ao crescimento econômico foi possível
melhorar ainda mais o estado de bem-estar social. Com as contas do governo
saneadas, pode-se aumentar o valor das aposentadorias e tornar mais eficientes
o sistema de saúde e o de educação. Não teria
sido possível conseguir tudo isso com políticas populistas
ou com o endividamento público.
Veja O senhor conversou longamente com o presidente eleito
Lula, logo depois da vitória dele. Que conselhos lhe deu?
Aznar
Não dei nenhum conselho. O Brasil é um país fundamental
no mundo, e desejo sinceramente o sucesso de Lula. O êxito de seu
governo é muito importante para as Américas e, portanto,
para o mundo. Seria um bom sinal para toda a região. Acho que Lula
sabe muito bem o que fazer. É evidente que a estabilidade e a credibilidade
são as bases necessárias para o crescimento e a prosperidade,
para a criação de riquezas e para a solução
dos problemas sociais.
Veja Lula costuma citar o Pacto de Moncloa, o acordo entre
partidos, empresários e sindicatos espanhóis após
o fim da ditadura franquista, como um exemplo de transição.
Que lições os brasileiros podem tirar desse pacto?
Aznar
O
Pacto de Moncloa foi a expressão de um compromisso, assumido por
todas as forças políticas e sociais, de olhar apenas para
o futuro. Não se deve deixar que os problemas do passado nos impeçam
de assentar as bases essenciais de uma política econômica
de desenvolvimento. Cada um dos participantes precisou renunciar a alguma
coisa para que todos pudessem ganhar. Nesse sentido, o exemplo espanhol
é muito positivo e pragmático.
Veja Neste ano, pela primeira vez em uma década, diminuíram
os investimentos espanhóis na América Latina. Quando eles
voltarão?
Aznar
O investimento espanhol na América Latina é um investimento
estratégico. Vai ser mantido de qualquer maneira, apesar da crise
argentina. A Espanha tinha investido 4,5 bilhões de dólares
na região de 1990 a 1995. Nos cinco anos seguintes, foram 108 bilhões
de dólares. Estamos no Brasil para ficar. Confiamos no futuro do
país e em sua capacidade de desenvolvimento. As empresas espanholas
estão dispostas a fazer as contribuições necessárias
para ajudar.
Veja Como a América Latina pode se desenvolver?
Aznar
A situação na América Latina é difícil.
Mas é melhor do que foi alguns anos atrás. Há mais
democracia, as instituições são mais fortes e foram
feitas algumas reformas importantes. Só falta prosseguir nesse
caminho. Nada acontece por acidente. Quem acreditaria, cinco anos atrás,
que a Espanha seria um exemplo de estabilidade econômica e que a
Alemanha teria sérios problemas de déficit? O continente
precisa de maior coesão e objetivos históricos a médio
prazo. O presidente Fernando Henrique Cardoso definiu bem isso na última
cúpula ibero-americana, na República Dominicana. Ele dizia
que, durante muito tempo, o Brasil não queria saber nada sobre
seus vizinhos. Agora, sabe que necessita deles. É uma grande mudança.
Faz falta aos latino-americanos a existência de países líderes.
Vejo o Brasil como um país com essa vocação para
ser o líder.
Veja Os países latino-americanos crescem pouco, mas
enfrentam enormes barreiras dos países ricos. Como é possível
competir com o protecionismo?
Aznar
Pessoalmente,
acredito em um mundo baseado nas relações de livre-comércio.
Mas acho que há outras prioridades no caminho do desenvolvimento.
O fim dos subsídios agrícolas europeus não é
a pedra filosofal do crescimento latino-americano. Mesmo quando não
havia subsídios, alguns países cresciam e outros não.
O primeiro passo para o desenvolvimento é fazer as lições
de casa. Isso significa promover reformas estruturais, que ninguém
vai fazer por eles.
Veja Os Estados Unidos e a Alemanha vão aumentar o
déficit público como um instrumento para reanimar a economia.
Mas o FMI não aceita que o Brasil use o mesmo recurso. Por que
a receita prescrita para os brasileiros é mais amarga?
Aznar
A necessidade de sair de uma recessão ou de uma crise econômica
não é desculpa para o aumento do gasto público ou
para o endividamento. Os Estados Unidos e a Alemanha são países
muito diferentes do Brasil. São a primeira e a terceira maiores
economias do mundo e não têm a credibilidade em jogo. Para
outros países, a combinação déficit e endividamento
pode ser fatal. A Espanha possui hoje equilíbrio orçamentário,
déficit zero, e estamos contentes por isso. É o que nos
permitiu reduzir os juros, atrair e promover novos investimentos. Essa
é realmente a única receita para o crescimento.
Veja O desenvolvimento econômico da Espanha deve ser
creditado ao fato de o país ter a ajuda da União Européia?
Aznar
A
economia espanhola deu três grandes saltos de progresso nos últimos
quarenta anos. O primeiro nos anos 60. O segundo, quando entramos para
a União Européia, em 1986. O terceiro desde 1996. Os três
coincidiram com grandes aberturas do país ao exterior. Há
vinte anos, a Espanha recebia ajuda oficial para o desenvolvimento. Hoje,
é o sétimo país que mais ajuda países em desenvolvimento.
Somos o sexto que mais faz investimentos no mundo e o primeiro entre os
europeus na América Latina. Só perdemos para os Estados
Unidos.
Veja Por que o crescimento econômico dos países
da União Européia é tão pequeno?
Aznar
Não
temos problemas de estabilidade, mas de crescimento. Para superá-los,
as economias deveriam ser mais liberais. Muitos países ainda não
fizeram as reformas fiscais e trabalhistas que lhe dariam maior competitividade.
Os países mais flexíveis são os que mais progridem.
Nós baixamos duas vezes o valor dos impostos sem diminuir a arrecadação.
Isso porque as empresas prosperam e a base de onde se arrecada cresceu.
Veja A centro-direita tem vencido as eleições
na maioria dos países da União Européia. O que isso
significa?
Aznar
Não acredito nos velhos debates ideológicos. Acredito em
resultados. Quando se quer só ficar queixando-se dos problemas,
como faz a esquerda européia, obtêm-se maus resultados eleitorais.
A situação tem sido diferente para aqueles que estão
dispostos a assumir os desafios e a tomar decisões difíceis,
às vezes incompreendidas a princípio. No final, a coerência
e a clareza sempre dão bons resultados. A melhor política
social é aquela que consegue criar empregos. Quando se tenta consertar
as coisas apenas com subsídios, a situação se complica.
Veja A Espanha exportava mão-de-obra barata até
os anos 70. Hoje, muitos espanhóis querem fechar o país
aos imigrantes. Como a Espanha deve lidar com os trabalhadores estrangeiros?
Aznar
Viramos um país próspero, e muita gente vem participar dessa
prosperidade, trabalhar por ela. É uma das grandes mudanças.
De um país de emigrantes para um que recebe imigrantes. Em cinco
anos, cresceu de 300.000 para 1,5 milhão o número de imigrantes
em condição legal. É um sinal de prosperidade. Devemos
recebê-los com a mesma generosidade com que os espanhóis
foram acolhidos em tantos países. Quando recebemos um latino-americano,
estamos recebendo alguém da família.
Veja O senhor não teme pelo crescimento da xenofobia
na Espanha, como em tantos países europeus?
Aznar
Não, de maneira alguma. Até agora, não houve nenhum
problema grave. Faz falta, contudo, que os fluxos migratórios no
mundo sejam ordenados, que não dependam da clandestinidade.
Veja As relações da União Européia
com os Estados Unidos azedaram devido às discordâncias em
relação ao Iraque. Esse distanciamento vai aumentar?
Aznar
A União Européia e os Estados Unidos têm muito a ganhar
se encontrarem pontos de entendimento. E têm muito a perder, sobretudo
a Europa, se procurarem o confronto. Isso não significa dar sempre
razão aos Estados Unidos, mas ter bem claro que é bom trabalhar
de comum acordo com eles nas questões de segurança e no
desenvolvimento do mundo. Os Estados Unidos salvaram a Europa em quatro
ocasiões no século XX. Na I e na II Guerra, com o Plano
Marshall e com a queda do Muro de Berlim. Não é pouca coisa.
A Europa deve assumir responsabilidade sobre a própria segurança,
mas a partir de um sólido entendimento com os Estados Unidos. Em
conjunto, americanos e europeus devem irradiar normas internacionais baseadas
na liberdade, no livre-comércio e no respeito à democracia
e aos direitos humanos. A vida política oferece oportunidades e
riscos. Pode-se optar pelo caminho europeu ocidental, da democracia e
da prosperidade. Ou não. Todos sabem onde, no mundo, está
o desenvolvimento.
Veja Se os Estados Unidos atacarem o Iraque, o senhor manterá
seu apoio?
Aznar
O regime de Saddam é obrigado pelas resoluções da
ONU a se desarmar. A chegada dos inspetores internacionais ao Iraque não
é o fim de uma situação, é o começo
de um trabalho. Se o Iraque tivesse cumprido suas obrigações,
não teríamos chegado a essa situação. A bola
está no campo do Iraque. Temos agora de esperar e ser conseqüentes
com a resolução aprovada por unanimidade pelo Conselho de
Segurança. Ninguém gosta de guerras, com exceção
dos que as declaram. Aliás, as democracias não declaram
guerras, elas simplesmente se defendem. Não existe o conceito de
democracia agressiva, mas, sim, o de regimes tirânicos e ameaçadores.
Uma parte do antiamericanismo que existe hoje na Europa tem um componente
ideológico primário, de que eu não compartilho.
Veja A Espanha sofre com o terrorismo dos separatistas bascos
do ETA há trinta anos e parece longe de derrotá-lo. Por
que é tão difícil vencer o terror?
Aznar
O terrorismo não tem solução imediata ou fácil.
Ele opera com o medo, com a intimidação, com a extorsão.
As pessoas temem falar, temem manifestar-se. Com o terrorismo, não
se pode transigir. Ele ameaça os valores democráticos, da
liberdade e a própria convivência. O destino lógico
para o terrorismo é sua derrota. Se uma democracia vacila, se um
estado de direito se ajoelha, se a lei não se aplica, se o terror
é capaz de impor as normas internacionais, as democracias correm
risco de desaparecimento, e o mundo ficará muito mais inseguro.
A lei do terror terá se apropriado dele. A responsabilidade das
democracias é enorme.
Veja O senhor foi vítima de um atentado terrorista
em 1995, quando o ETA colocou 70 quilos de dinamite em seu carro. Sua
vida mudou muito depois do atentado?
Aznar
Minha vida cotidiana não mudou nada. Mas agora comemoro dois aniversários,
um do dia em que nasci, outro do dia em que deixei de morrer. Minhas convicções
não foram alteradas. Continuo tendo as mesmas opiniões sobre
o terrorismo, por isso tentaram me matar. Minha família está
acostumada a essas coisas, com uma fortaleza admirável. O que não
podemos nunca é nos esquecer das vítimas. Gente que morreu
por defender a liberdade, a Constituição, a convivência
pacífica entre os espanhóis. Muita gente foi assassinada
na Espanha pela liberdade de pensar.
Veja O senhor anunciou que deixará o cargo em 2004,
depois de dois mandatos. Em que situação o senhor voltaria
a se candidatar?
Aznar
Se estivermos diante de um conflito bélico às nossas portas,
se ocorrer alguma das pestes bíblicas, alguma calamidade, teria
de enfrentá-las. Minha decisão é categórica,
não serei candidato em 2004. Não me preocupo muito com o
que vou fazer depois. A vida não começa nem termina na política.
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