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Edição 1 780 - 4 de dezembro de 2002
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Gustavo Franco

Expectativas
de inflação

"Ninguém quer sair na fotografia dizendo
que espera uma inflação de 30% pelo IGP-M
para 2003, mas essa é, goste-se ou não, a
opinião média do mercado"


Ilustração Ale Setti


Há uma novidade perturbadora neste fim de governo, e sobre a qual os especialistas exibem desconforto em revelar suas verdadeiras opiniões. Trata-se dela mesmo, a Velha Senhora, o monstro que se julgava extinto, o vício que aparentemente abandonamos.

A despeito dos indícios, ninguém se atreve a se revelar pessimista, ao menos em público. O país está carregado de bons fluidos gerados pela eleição. A estabilização foi uma dura conquista da sociedade, que apoiou a URV, o real e a desindexação e, com isso, redefiniu hábitos e conceitos e recompôs uma parte importante de nossa identidade nacional, a moeda, um símbolo tão prezado quanto a bandeira e o hino. Saímos do ilusório, a inflação, para o real, com todas as suas mazelas. Não queremos voltar no tempo.

Com certa licença sociológica, diz-se que foi a sociedade que se negou, a partir de 1999, a "transmitir" a desvalorização cambial em inflação, tendo em vista seu desejo de preservar a estabilidade. Mais preciso, e nada contraditório, seria lembrar que a política monetária foi estrita, a indexação salarial, contida, e a execução fiscal, apertada. Nesse regime, o repasse do câmbio para os preços ao consumidor tem sido pequeno. Diz-se que o IPCA "engravidou" algumas vezes, nos últimos anos, do dólar, este rufião incontrolável, e dos volúveis IGPs, que o seguem. Mas a atmosfera macro tem sido hostil à evolução dessa gravidez; o bebê de Rosemary não nasceu.

Com efeito, não retornamos à esbórnia anterior a 1994, mas, de praticamente zero em 1996-1997, a inflação foi para 21,05% no IGP-M, considerando doze meses terminados em novembro de 2002. E 8,4% no IPCA até outubro. Pior que isso é verificar que as expectativas para 2003 estão ruins, e piorando. Sobre isso pouco se fala, e o que é dito não é propriamente a expressão da verdade.

Tempos atrás, quando foi inventado o Comitê de Política Monetária (Copom), no Banco Central, começaram a ser coletadas opiniões das instituições financeiras sobre o que elas esperavam para juros e inflação, entre outras variáveis da economia. Os membros do Copom sabiam que as respostas não revelavam o que os bancos realmente pensavam, mas o que eles gostariam que o BC pensasse ser a opinião deles sobre juros e inflação. A diferença é enorme, e evidente.

Senão, vejamos: na posição de 22 de novembro de 2002, o "survey" do BC revelava que a mediana das expectativas para a inflação pelo IGP-M em 2003 era de exatos 14%, ou seja, um recuo moderado diante dos números de hoje.

Será que é nisso que o mercado acredita mesmo?

Para testar essa hipótese, o leitor deve tentar comprar um título indexado ao IGP-M para o prazo de doze meses. O papel apenas será encontrado com ágio, de tal sorte que o rendimento efetivo do título, ou a taxa interna de retorno, será de menos 0,29% anuais. Para o mesmo prazo, uma aplicação a juros pré-fixados rende 30,81%. Como essas taxas estão arbitradas, ou seja, o mercado é indiferente entre IGP-M menos 0,29% e 30,81%, segue-se que a expectativa "implícita" de variação do IGP-M nos próximos doze meses é de 30,52%. Isso antes no anúncio do IGP-M para novembro, que cresceu espantosos 5,19%.

Por que, então, esse mesmo povo diz ao BC que está esperando que seja 14%?

É claro que há uma diferença entre prever, de público, um número ruim para 2003 e escolher um número para apostar algum dinheiro. Se o ato de prever é grátis, e se há boa vontade a ser amealhada revelando-se publicamente otimista e confiante, todos o farão, no limite do que for sensato. Mas quando se trata de apostar, e perder muito dinheiro se o número escolhido for diferente do observado, aí, sim, o sujeito deve usar seu melhor julgamento, e sem fazer propaganda. O fato é que ninguém quer sair na fotografia dizendo que espera uma inflação de 30% pelo IGP-M para 2003, mas essa é, fora de dúvida, goste-se ou não, a opinião média do mercado. Reverter essas expectativas antes de elas se consolidarem é um desafio já posto para o próximo governo.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com ­ www.gfranco.com.br)

 



 
 
   
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