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Amor escondido

Filme e livro mostram que Woody Allen adora
o prestígio, mas finge desprezar a celebridade

Isabela Boscov

Para todos os efeitos, Woody Allen detesta ser uma celebridade. Bate ponto no badalado restaurante Elaine's, em Nova York, mas não tolera que o abordem. Usufrui com gosto os privilégios alcançados em quatro décadas de prestígio – uma cobertura com vista para o Central Park, cadeiras cativas no Madison Square Garden pela bagatela de 230.000 dólares ao ano –, mas desdenha de quem não fez por merecer a fama, como ele. Também jura não ligar para a opinião alheia. No entanto, segundo revela uma biografia do diretor recentemente lançada nos Estados Unidos, The Unruly Life of Woody Allen (A Vida Turbulenta de Woody Allen), ele corteja os críticos de cinema com bilhetinhos, almoços e sessões especiais. Essa relação de amor e ódio com o sucesso fica evidente na comédia Celebridades (Celebrity, Estados Unidos, 1998), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo.

Mais ainda do que de costume, Allen reuniu um elenco estelar. Leonardo DiCaprio interpreta um astro de cinema voluntarioso e dado a farras homéricas. Charlize Theron, a loiraça de Advogado do Diabo, faz uma top model tresloucada. Melanie Griffith vive uma estrela desfrutável, que se diz totalmente fiel ao marido – do pescoço para baixo. "O que faço daí para cima é assunto meu", declara ela momentos antes de agraciar Kenneth Branagh com talentos dignos da estagiária Monica Lewinsky. À primeira vista, trata-se de uma versão moderna e nova-iorquina de A Doce Vida. Como no filme de Federico Fellini, o protagonista (Branagh, imitando Allen minuciosamente) é um repórter que vive de parasitar gente famosa e experimenta um grande vazio interior. Ele acha que deveria almejar um destino mais elevado, como escrever um livro. Allen imita o clássico italiano também na fotografia em preto-e-branco e na estrutura, uma sucessão de episódios que vão transformando a vida do repórter num torvelinho. Mas terminam aí as semelhanças. Onde Fellini mostrava grandeza, o bardo de Nova York praticamente só exibe irrelevâncias. Sua crítica da obsessão pela fama é superficial. Ele está mais interessado em escarnecer dos "vermes" que a perseguem e em puxar a brasa para a sua sardinha. Embora seu protagonista lamente os descaminhos de uma civilização doentia, na qual o importante é ser famoso, não importa pelo quê, o diretor coloca as celebridades quase que no papel de vítimas. Pecam pela vaidade, mas têm de viver rodeadas de oportunistas.

Manias folclóricas – É claro que Allen não deixou de ser o grande cineasta de Manhattan, de Hannah e Suas Irmãs ou ainda do recente Desconstruindo Harry. Celebridades é engraçado e oferece várias observações argutas sobre a frivolidade. Tem ainda cenas magistrais, como aquela em que o personagem de Branagh despacha a namorada que acabou de se mudar para a casa dele. Mas o placar final é cruel: enquanto Fellini compôs o grande épico existencialista deste século de cinema, o americano escreveu um sonetinho. Ainda assim, Celebridades revela muito sobre a personalidade do cineasta – ao menos pelo que se lê no livro da jornalista Marion Meade. The Unruly Life of Woody Allen é a primeira biografia do diretor que ele não conseguiu teleguiar. Tarimbada, a autora entrevistou dezenas de pessoas próximas a Allen e chegou a conclusões interessantes. Por exemplo, que ele é perito num esporte típico das verdadeiras celebridades: manipular a própria imagem.

Pode parecer estranho dizer isso de um cineasta que fez carreira explorando suas neuroses em filmes abertamente autobiográficos. Marion demonstra, porém, que Allen mostra suas fraquezas sob uma luz muito conveniente. No dia-a-dia, não é bem assim. Aquele sujeito desastrado e encantador da tela é, no set de filmagens, um chefe tenso e distante, que há anos trabalha com a mesma equipe mas mal dirige a palavra a ela. O diretor não gosta nem de cumprimentar seus vizinhos de prédio. Quando se mudou para lá, impôs como condição não dar autógrafo a nenhum deles. À exceção dos filhos menores de Mia Farrow (com quem conviveu, em casas separadas, por mais de uma década), sua reação à vasta prole da atriz era de total indiferença. Até Soon-Yi, a filha adotiva de Mia com quem ele se envolveu em 1990 (e com quem se casou, tendo adotado recentemente duas meninas), o odiava quando mais nova. Como era de esperar, o escandaloso envolvimento entre Allen e Soon-Yi merece vários capítulos do livro. Eles revelam que o diretor nunca entendeu por que o romance com a jovem enteada coreana, de 18 anos na época, deixou Mia tão revoltada. Allen achava que a companheira e o público esqueceriam o episódio "em uma semana". Não contava que a briga fosse parar nos tribunais e incluísse acusações de abuso sexual contra a filha Dylan, então com 7 anos, por quem ele era obcecado desde a adoção.

A autora desencava um arsenal das folclóricas manias do cineasta (veja quadro), mas não só. Conta, por exemplo, que Allen não queria que soubessem que seu filho biológico com Mia, Satchel, faz análise desde os 2 anos e meio. Pagava então um extra à terapeuta para que ela atendesse o garoto em casa. Também não é edificante descobrir que muitas das ótimas personagens e piadas de seus filmes são decalques cruéis de pessoas íntimas. Quando ele se separou de sua primeira mulher, o vício de expô-la ao ridículo ficou tão sério que exigiu a intervenção de um juiz. Em uma de suas gagues favoritas sobre a ex, ele disparava: "Ela é uma mulher estranha. Já fez uma meia dúzia de operações de mudança de sexo, mas ainda não achou nenhum de que gostasse". É lógico que a intimidade não deve ser a régua pela qual se medem as realizações de um artista – ainda mais do calibre de Allen. Mas, se o homem é a soma de suas obsessões, como dizia Nelson Rodrigues, o cineasta deu um passo adiante: fez da neurose a sua vida e obra.

 

Diretor neurótico, amigos nervosos

Allen não varia o cardápio do almoço há mais ou menos 45 anos: todos os dias, come um sanduíche de atum no pão branco, sem alface e sem tomate, seguido de uma barra de chocolate ou um pedaço de bolo e uma xícara de café.

O diretor converteu o terraço de sua cobertura dupla, num prédio da 5ª Avenida, em Nova York, em um jardim luxuriante. Mas nunca o freqüentou, com medo de encontrar insetos por ali. Pior: quando ia a uma casa de campo visitar seus filhos adotivos, fazia questão de circular protegido por um traje de apicultor.

Completamente dependente de sessões diárias de terapia (que freqüenta há algumas décadas), Allen não faltava a elas nem quando estava fora de Nova York. Nessas ocasiões, tratava de se pendurar num telefone público e conversar com seu analista sem pausa, durante 45 minutos, cronometrados em seu relógio.

Quando começou a namorar Mia Farrow, o diretor era um típico apaixonado. Mostrava-se carinhoso, mas nunca telefonava. Todos os seus encontros com Mia eram marcados por sua secretária. Depois de dois anos de convivência, ele ainda relutava em deixá-la manter um robe e uma escova de cabelos em seu banheiro.

Entre suas fobias de infância incluíam-se o medo da morte, do escuro, de barcos, aviões e de ser seqüestrado. Já adulto, adicionou à lista o pavor de sujeira, que o impede de tomar banhos de banheira. Ele obrigou uma namorada a reformar o chuveiro de casa, para que os germes escorressem melhor pelo ralo.

 
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