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Mar de papéis

Maior acervo sobre o Brasil colônia
é enfim catalogado

Flávio Moura

 
Planta da Baía de Paranaguá, de 1653: arquivo em Lisboa detém 3 milhões de páginas manuscritas

Durante mais de um século, historiadores nacionais acalentaram a idéia de organizar o enorme acervo de documentos sobre o Brasil colônia armazenado no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. O primeiro a receber a tarefa foi o poeta Gonçalves Dias, que tinha interesse em História, em meados do século XIX. Ele ficou paralisado diante do mar de papéis. Só agora o antigo projeto foi realizado. Um simpósio em São Paulo, na semana passada, comemorou o término de cinco anos de trabalho, que possibilitaram a ordenação dos 3 milhões de páginas manuscritas guardadas em Portugal. Uma equipe de 52 estudiosos brasileiros, financiada por órgãos federais e estaduais de incentivo à pesquisa e coordenada pela historiadora da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro Esther Bertoletti, foi responsável pelo feito notável. A documentação, referente às dezenove capitanias brasileiras, será posta ao alcance do público de diversas maneiras. Em catálogos impressos, será possível encontrar a descrição de cada um dos papéis. A íntegra dos documentos poderá ser consultada em breve, em formato digital. "Esse trabalho abre caminho para pesquisas futuras", diz o historiador José Jobson Arruda, que supervisionou a confecção do primeiro catálogo relativo a São Paulo, lançado na semana passada (Edusc/Fapesp; 316 páginas; 30 reais). "A iniciativa está para as ciências humanas assim como o Projeto Genoma está para as biológicas."

A produção histórica sobre o período colonial é bastante respeitável, mas o acervo do Arquivo Ultramarino abre novas perspectivas, permitindo aos estudiosos ajustar, rever ou até criar teses. Será preciso rediscutir, por exemplo, a idéia de que havia um abismo quase intransponível entre o Estado e a população no Brasil colônia. Essa crença, difundida por autores como Oliveira Viana, é contraditada pela enorme presença de manifestações de gente comum nos documentos catalogados. Outra tese a ser revista é a de que o regime escravista era incompatível com a pecuária. Não é isso o que demonstram os inventários dos criadores de gado. Em outros casos, porém, algumas certezas sobre a História brasileira serão confirmadas. Basta ler um processo de devassa, até agora desconhecido, contra um governador de Santa Catarina. Ele foi preso no final do século XVIII. Roubou dinheiro do Estado e o investiu na própria casa.

 

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