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A colônia, de A a Z

A História do Brasil dos três primeiros
séculos
é o assunto de um competente dicionário

Roberto Pompeu de Toledo

Montagem sobre aquarela de Debret

Atribui-se a Monteiro Lobato a frase: "Um país se faz com homens e livros". O criador de Emília disse coisas mais inteligentes, ou menos sentenciosas. Se se evoca aqui esse seu mau momento, de infeliz concessão ao pedantismo edificante, é para corrigi-lo. Um país, esta seria a nova formulação, se faz com homens (e mulheres, numa barretada às sensibilidades femininas mais agudas) – e livros de referência. Visto por esse ângulo, o Brasil apresenta panorama desolador. Faltam por aqui, em quantidade e qualidade, aqueles que são os mais úteis dos livros, companheiros de todo momento, que se guardam ao alcance da mão. Daí a primeira razão para saudar o lançamento de um Dicionário do Brasil Colonial (Objetiva; 594 páginas; 49,90 reais). A segunda razão é a alta qualidade da obra, dirigida pelo historiador carioca Ronaldo Vainfas (Trópico dos Pecados, A Heresia dos Índios), à frente de uma equipe de cinco membros efetivos, seus colegas na Universidade Federal Fluminense, mais uns tantos colaboradores eventuais. O dicionário vai de "Absolutismo" a "Zumbi", passando por "Maçonaria", "Mandinga", "Marquês de Pombal" e "Martim Afonso de Souza", para ficar na letra "M". Ou "Padre José de Anchieta", "Paraíso", "Pero Vaz de Caminha" e "Pirataria", se o leitor pular para o "P". Na volta ao "M", se procurar algo mais intrigante, encontrará "Murmuração" (veja amostra).

Oscar Cabral

Ronaldo Vainfas: o painel de uma sociedade "meio encantada ou meio diabólica"


Os verbetes não são curtos, como os dos dicionários de idiomas. Em regra, ocupam pelo menos uma página. "Padre Antônio Vieira", com toda a razão, merece três páginas e meia e "Escravidão", quatro e meia. A inspiração da obra, segundo Vainfas, foi o Dicionário Crítico da Revolução Francesa, de François Furet e Mona Ozouf, do qual há tradução brasileira. Vale dizer que é um dicionário que, ao pretender-se "crítico", não se contenta com as explicações mais triviais e as versões mais consagradas dos diferentes fatos, personagens ou instituições. Trata de problematizá-los, trazendo as dúvidas e as diferentes interpretações que suscitam. Ao final dos verbetes, oferece-se uma pequena bibliografia do assunto em tela. Não se assuste, porém, o leitor. Nem por isso o Dicionário fica difícil de enfrentar. A linguagem é acessível, e os temas – ainda bem –, desenvolvidos com suficiente atenção ao detalhe curioso, ou exótico, ou anedótico, ou dramático.

Que galeria de personagens nos oferece o Brasil colonial. Ao lado de tipos, digamos, mais ortodoxos, como os governadores-gerais e os vice-reis, ou daqueles que, mesmo sem ser ortodoxos, são velhas presenças, na idéia que fazemos do período, como o poeta Gregório de Matos, o Dicionário traz gente de sabor mais popular, só recentemente valorizada pelos historiadores, no rastro das pesquisas centradas na vida cotidiana e nas mentalidades. Um caso desses é o da madre Vitória da Encarnação, do convento baiano de Santa Clara do Desterro. Quando menina, ela dizia que nem que lhe cortassem a cabeça entraria num convento. Mas entrou – e que freira nos saiu! Só comia sentada no chão. Carne, nunca, e, se algo mais saboroso lhe fosse servido, lhe estragava o gosto com água e cinzas. Todas as noites, de joelhos, arrastava-se pelo convento com uma cruz nos ombros e coroa de espinhos na cabeça. Dava-se à autoflagelação. E, certa vez – advirta-se o leitor, como se costuma fazer na televisão, de que agora vem uma cena forte –, levou à boca a canela de um morto, em adiantado estado de putrefação. Caiu doente nos dias seguintes.

Caso igualmente pertencente à esfera mística, e porventura mais conhecido, é o de Rosa Egipcíaca, a ex-escrava e ex-prostituta que acabou fundando e dirigindo um convento no Rio de Janeiro do século XVIII. Rosa não ficou por aí, o que já seria muito, mas virou visionária. Previu um dilúvio no Rio de Janeiro. Anunciou que, acompanhada dos quatro evangelistas, embarcaria numa nau, ao encontro do desaparecido rei dom Sebastião. Acabou trancafiada nos cárceres da Inquisição em Lisboa. Somados os tipos místicos aos feiticeiros, estes aos índios que comiam bispos, estes aos escravos tornados temíveis quilombolas, a eles adicionados esses meio heróis, meio monstros, que foram os bandeirantes, e ainda os piratas, e os náufragos, e os barbeiros dublês de cirurgiões, e os governantes mais ou menos atrabiliários e muitos outros tipos e circunstâncias, a época colonial se apresenta em toda a sua riqueza. Temos o painel de uma sociedade, como afirma Vainfas, "meio encantada ou meio diabólica". O Dicionário do Brasil Colonial é um dicionário e, como tal, destina-se primordialmente à consulta. Foi feito para ficar num canto e ser aberto ocasionalmente, ao impulso das necessidades de momento. Quem quiser demorar-se nele, no entanto, percorrendo um e depois outro verbete, como quem lê um livro por entretenimento, não sairá decepcionado. Pode até, em certos instantes, se sentir numa novela de García Márquez.

Um problema, num dicionário desse tipo, é definir a "nominata", nome que tecnicamente se dá ao conjunto dos verbetes. Por que escolher um, e não outro? Quando achar que o conjunto já está bom? Vainfas e equipe definiram um limite de tempo – de 1500 a 1808, quando a seu ver, com a chegada de dom João VI, termina a era colonial – e impuseram-se que a obra coubesse num só volume, e manipulável. Dentro dessas balizas, muito pesquisaram e debateram até chegar ao que lhes pareceu aceitável. Há uma dose de arbítrio nessa empreitada, e sempre haverá quem ache que há verbete faltando ou sobrando, mas essa crítica será tão arbitrária quanto foram porventura os critérios dos autores. O que visivelmente faz falta no livro é um índice remissivo. Quem procurar o verbete "Pelourinho", essa importante expressão do poder no período, não encontrará. Mas encontrará o pelourinho no verbete "Justiça". Quem procurar o verbete "Almotacel", espécie de fiscal de pesos, medidas e mantimentos, não encontrará, mas isso não quer dizer que não haja almotacéis vagando por outros verbetes. Na falta do índice, o leitor fica entregue, em casos como esses, à sua boa intuição, ou à sorte.

 

Murmuração

"Expressão ­ à semelhança de outras, como voz popular, voz geral, saber por ouvir dizer, pública fama, público e notório ­ de um comportamento típico do Antigo Regime, para o qual o vocabulário português continua pródigo em sinônimos: bisbilhotice, fofoca, tagarelice, conversa fiada, falar da vida alheia. Era tão importante na época que as Ordenações Filipinas (1603) previam pena para os mexeriqueiros. (...) Na realidade, a murmuração do Antigo Regime transparece, preferencialmente, das devassas de caráter político conduzidas pela justiça régia, por ocasião de um levante ou sedição, e das inquirições eclesiásticas, realizadas durante a ação pastoral de um bispo ou de uma visita da Inquisição. Não deixa de estar presente igualmente, no entanto, em documentação de aparência mais anódina, como reclamações de fiéis contra o seu pároco ou deste contra o capelão de uma irmandade. Num outro nível, explica a atuação de personagens como os comissários do Santo Ofício, que David Higgs vem estudando há anos, cujas orelhas estavam sempre atentas ao saber por ouvir dizer e cujas mãos se encarregavam de registrar por escrito as denúncias, muitas vezes motivadas pela intriga, multiplicando os boatos que circulavam de boca em boca. (...)"
Verbete do Dicionário do Brasil Colonial

 

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