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Denise
Ramiro
As
companhias privadas podem ser tão ou mais lesadas que as
repartições estatais pela corrupção.
A roubalheira não é uma moléstia restrita ao
Terceiro Mundo. Países ricos como Estados Unidos, França,
Inglaterra e Alemanha ainda não sabem como se ver livres
da ousadia dos fraudadores. Segundo estimativas oficiais do FBI,
a polícia federal dos Estados Unidos, empresas americanas
vêem escorrer para o bolso de funcionários desonestos
e seus comparsas 400 bilhões de dólares por ano, mais
da metade do PIB brasileiro. As estatísticas são menos
precisas no Brasil, mas calcula-se que o prejuízo anual das
companhias privadas atinja várias dezenas de bilhões
de dólares. A impunidade, outro perverso subproduto da corrupção
estatal, é ainda mais presente no mundo das empresas privadas.
Outro estudo feito pelo FBI mostra que um ladrão de banco
leva, em média, 12.000 dólares
de cada assalto e enfrenta um risco em nove de ser preso. Um fraudador
agindo silenciosamente dentro de uma empresa privada rouba, em média,
100.000 dólares durante sua carreira
de crimes e há apenas uma probabilidade em 10.000
de ele vir a ser pego com a boca na botija.
Como
bom importador de virtudes e vícios do capitalismo central,
o Brasil vai pelo mesmo caminho. Meses atrás, uma das maiores
empresas mundiais de investigação de fraudes, a Kroll
Associates, que tem setenta escritórios em quarenta países,
foi contratada por uma montadora de automóveis instalada
no Brasil para vasculhar a vida de um funcionário denunciado
por um colega. O suspeito atuava na área de contratos com
transportadoras e recebia um salário de cerca de 1.000
reais por mês para fazer pagamentos. Ia trabalhar de Fusquinha,
vestia roupas simples e não dava nenhum sinal de enriquecimento
repentino. A Kroll descobriu que no período de dois anos
esse homem desviou 2 milhões de reais da montadora. Tinha
até iate em seu nome. Ele foi flagrado. Mas a lei do silêncio
que impera nesses casos fez com que fosse demitido sem justa causa.
O fraudador da montadora recebeu seu fundo de garantia e indenizações.
Nada mais se falou a respeito na empresa. O procedimento indolor,
feito debaixo de panos quentes, é a regra. Dos mais de 4.000
casos que a Kroll investiga todos os anos ao redor do mundo, pouquíssimos
chegam aos tribunais. "As empresas temem manchar sua imagem e mais
ainda que o funcionário punido acabe se transformando num
inimigo. Preferem tratá-lo bem", explica Eduardo Sampaio,
diretor-geral da Kroll no Brasil.
Uma
grande multinacional da área farmacêutica sentiu na
pele, recentemente, o que significa ter um funcionário como
inimigo. Nesse caso, o funcionário não roubava diretamente
a companhia, mas agia de modo a prejudicar sua imagem. Às
vésperas de fechar um contrato de fusão com outro
laboratório, a multinacional foi alvo de uma saraivada de
mensagens difamatórias enviadas via internet. A campanha,
dirigida ao candidato à fusão, por pouco não
colocou em risco o negócio. O atraso nas negociações
gerou um prejuízo calculado pelas partes em 7,5 milhões
de dólares. O laboratório decidiu descobrir o autor
das mensagens. Os detetives chegaram ao computador que emitia os
e-mails difamatórios. O funcionário usava os computadores
de uma livraria em São Paulo. Na vida real, já são
poucos os crimes perfeitos. Via internet, a chance de escapar é
ainda menor. Providencialmente, a livraria tinha um sistema de vigilância
eletrônica por câmaras. Ao cruzar as imagens dos aparelhos
com as datas e os horários dos e-mails, foi fácil
identificar o autor das mensagens. A única punição
ao culpado foi seu desmascaramento público. A fita de vídeo
usada como prova foi exibida numa reunião de executivos a
que o próprio acusado estava presente. O que aconteceu com
ele? Foi demitido, com todos os direitos que a lei garante a um
trabalhador honesto.
Fotos Renato dos Anjos/Claudio Rossi
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Sakagushi,
ex-diretor do banco Noroeste, vendido para o espanhol Santander:
242 milhões de dólares desaparecidos e processo
por danos morais
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Um
caso notório de fraude que vitimou o Banco Noroeste, comprado
pelo espanhol Santander em 1997, até hoje não tem
culpado punido. Logo depois da compra, foi descoberto um rombo de
242 milhões de dólares no caixa da instituição
brasileira nada menos que a metade de seu valor. O diretor
da área internacional do Noroeste, Nelson Sakagushi, foi
inicialmente apontado como culpado pelo desvio. Sua alegação
de que investiu e emprestou o dinheiro nunca foi comprovada. Agora
Sakagushi diz que, no caso, a vítima é ele. Move um
processo por danos morais contra o banco. Os 242 milhões
de dólares nunca voltaram ao caixa.
Especialistas
que investigam fraudes dentro de empresas garantem que o número
de ocorrências e o volume das negociatas vêm crescendo
a cada ano. A Kroll, fundada em 1972 nos Estados Unidos, famosa
por ter descoberto as contas secretas do presidente iraquiano Saddam
Hussein, desembarcou no Brasil em 1993, contratada pela Câmara
dos Deputados para investigar o caso PC Farias. Não conseguiu
muita coisa naquele caso. Mas prosperou assim mesmo. Está
abrindo seu segundo escritório no Brasil. Outra empresa do
ramo, a Antão Fernandes & Associados, viu sua clientela
crescer mais de 30% neste ano. Marcelo Gomes, sócio-diretor
da GBE, empresa especializada na investigação de fraudes,
diz que há três anos o custo da corrupção
representava 1% do faturamento das empresas. Hoje o porcentual pulou
para 8%. Os processos também ficaram mais complexos. Antes,
o roubo envolvia a participação de dois funcionários,
no máximo. Agora, os especialistas estão descobrindo
quadrilhas inteiras dentro das empresas, formadas em alguns casos
por mais de vinte pessoas.
Antonio Milena
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| O
contador Marcelo Gomes, que defendeu tese sobre fraudes em empresas
na Universidade de São Paulo: a corrupção
engoliria 8% do faturamento das companhias brasileiras |
Marcelo Gomes, que é contador, acaba de defender uma tese
a respeito do assunto na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da Universidade de São Paulo. "A abertura
da economia fez com que as empresas se organizassem melhor, adotassem
processos mais rígidos de controle interno para suportar
a concorrência, e isso acabou revelando uma porção
de falcatruas que antes ficavam escondidas", diz. Em seu trabalho
ele traça o perfil dos fraudadores:
A maioria é formada por funcionários do sexo masculino
que não têm mais perspectiva de ascensão profissional.
Os mais jovens costumam agir a longo prazo. Os mais maduros dão
um único e grandioso golpe.
Entre os casos desvendados, 6% envolvem mais de 1 milhão
de dólares.
Os golpes mais comuns ocorrem nos departamentos de compras.
A
legislação brasileira e os processos judiciais não
favorecem quem quer punir malandros corporativos. O processo criminal,
em que se pede indenização, pode levar muitos anos
até ser decidido. E, enquanto as coisas tramitam, o empregado
ainda pode mover outro processo na Justiça contra seus empregadores,
alegando ter sofrido danos morais, e ganhar outra bolada. "A situação
da empresa é tão frágil que é mais seguro,
para ela, manter o fraudador como empregado, em outra área,
sob controle, do que processá-lo", diz o advogado gaúcho
Eduardo Spalding Duarte, especialista em causas cíveis. "Em
geral, o que acontece é que as empresas se sentem tão
sem saída que preferem pagar para não continuar tendo
prejuízo. Demitem o sujeito sem nem ao menos falar em justa
causa."
Não
é à toa que a Transparency International, uma ONG
sediada na Alemanha que é o maior fiscal da roubalheira do
planeta, colocou o Brasil em 49º lugar entre noventa países,
em seu ranking de corrupção, pendendo mais para a
Nigéria (o país mais corrupto do mundo) que para a
Finlândia (o mais honesto). Nem todas as companhias agem da
mesma forma. Existem as exceções. A Dow Agrosciences,
a divisão de produtos agrícolas da americana Dow Chemical
no Brasil, foi roubada em 20 milhões de dólares por
dez funcionários em 1992. O processo criminal corre na Justiça
há oito anos. "Ainda tenho esperança de reaver o dinheiro.
Mas, mais importante que isso, é reafirmar os valores éticos
de nossa empresa. O fato de que não toleramos desonestos
em nossos quadros", diz Kazuo Ojo, diretor de assuntos corporativos
da Dow em São Paulo. Ainda assim não há certeza
de punição para os culpados. Se um dia os ex-funcionários
de Ojo forem condenados, pegarão no máximo quatro
anos de prisão.
Diante
desse cenário, os especialistas recomendam a prevenção
como o melhor remédio. Não deixar o fraudador entrar
na empresa é menos penoso que arcar mais tarde com os prejuízos
financeiros e de imagem. As firmas especializadas propõem
que os empresários sejam mais rigorosos, a ponto de verificar
a situação perante o Fisco e a ficha policial de candidatos
a cargos mais sensíveis. Mesmo providências que qualquer
dona-de-casa precavida toma, como pedir carta de recomendação
a uma empregada doméstica, são aconselhadas por eles.
Quem está no ramo da prevenção é mais
desconfiado que as demais pessoas. Eles sugerem que, como cuidado
adicional, não se deve permitir a um recém-contratado
cujo passado não é conhecido trazer para a empresa
diversos de seus ex-colegas. "É natural que os fraudadores
andem em bando", diz Marcelo Gomes, o consultor da GBE.
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