Geral Polícia

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Motel oferece quarto só para gays
A corrupção de funcionários dentro de empresas privadas
Segundo casamento eleva busca por reversão da vasectomia
Igreja tolerante com os costumes atrai ricos e famosos
Ice, a droga da era da internet
Vinho é usado em spa de estética na França
Plástica nasal é moda entre iranianas
Escolas católicas fecharam 130 unidades em cinco anos
Programa de TV ensina os pequenos a reivindicar seus direitos
A saga da imigração árabe
As baleias se multiplicam no litoral brasileiro
Stephen King ameaça parar livro se internautas não pagarem
Profissionais da administração abrem escolas
A volta dos dourados para o dia e a noite
Mais que a vitória, é a imagem de glória que importa
Boatos de doping envenenam os Jogos
O fracasso brasileiro
Depósitos suspeitos na conta de Wanderley Luxemburgo
As festas de casamento que custam até 1 milhão de reais
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Denise Ramiro

As companhias privadas podem ser tão ou mais lesadas que as repartições estatais pela corrupção. A roubalheira não é uma moléstia restrita ao Terceiro Mundo. Países ricos como Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha ainda não sabem como se ver livres da ousadia dos fraudadores. Segundo estimativas oficiais do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, empresas americanas vêem escorrer para o bolso de funcionários desonestos e seus comparsas 400 bilhões de dólares por ano, mais da metade do PIB brasileiro. As estatísticas são menos precisas no Brasil, mas calcula-se que o prejuízo anual das companhias privadas atinja várias dezenas de bilhões de dólares. A impunidade, outro perverso subproduto da corrupção estatal, é ainda mais presente no mundo das empresas privadas. Outro estudo feito pelo FBI mostra que um ladrão de banco leva, em média, 12.000 dólares de cada assalto e enfrenta um risco em nove de ser preso. Um fraudador agindo silenciosamente dentro de uma empresa privada rouba, em média, 100.000 dólares durante sua carreira de crimes e há apenas uma probabilidade em 10.000 de ele vir a ser pego com a boca na botija.

Como bom importador de virtudes e vícios do capitalismo central, o Brasil vai pelo mesmo caminho. Meses atrás, uma das maiores empresas mundiais de investigação de fraudes, a Kroll Associates, que tem setenta escritórios em quarenta países, foi contratada por uma montadora de automóveis instalada no Brasil para vasculhar a vida de um funcionário denunciado por um colega. O suspeito atuava na área de contratos com transportadoras e recebia um salário de cerca de 1.000 reais por mês para fazer pagamentos. Ia trabalhar de Fusquinha, vestia roupas simples e não dava nenhum sinal de enriquecimento repentino. A Kroll descobriu que no período de dois anos esse homem desviou 2 milhões de reais da montadora. Tinha até iate em seu nome. Ele foi flagrado. Mas a lei do silêncio que impera nesses casos fez com que fosse demitido sem justa causa. O fraudador da montadora recebeu seu fundo de garantia e indenizações. Nada mais se falou a respeito na empresa. O procedimento indolor, feito debaixo de panos quentes, é a regra. Dos mais de 4.000 casos que a Kroll investiga todos os anos ao redor do mundo, pouquíssimos chegam aos tribunais. "As empresas temem manchar sua imagem e mais ainda que o funcionário punido acabe se transformando num inimigo. Preferem tratá-lo bem", explica Eduardo Sampaio, diretor-geral da Kroll no Brasil.

Uma grande multinacional da área farmacêutica sentiu na pele, recentemente, o que significa ter um funcionário como inimigo. Nesse caso, o funcionário não roubava diretamente a companhia, mas agia de modo a prejudicar sua imagem. Às vésperas de fechar um contrato de fusão com outro laboratório, a multinacional foi alvo de uma saraivada de mensagens difamatórias enviadas via internet. A campanha, dirigida ao candidato à fusão, por pouco não colocou em risco o negócio. O atraso nas negociações gerou um prejuízo calculado pelas partes em 7,5 milhões de dólares. O laboratório decidiu descobrir o autor das mensagens. Os detetives chegaram ao computador que emitia os e-mails difamatórios. O funcionário usava os computadores de uma livraria em São Paulo. Na vida real, já são poucos os crimes perfeitos. Via internet, a chance de escapar é ainda menor. Providencialmente, a livraria tinha um sistema de vigilância eletrônica por câmaras. Ao cruzar as imagens dos aparelhos com as datas e os horários dos e-mails, foi fácil identificar o autor das mensagens. A única punição ao culpado foi seu desmascaramento público. A fita de vídeo usada como prova foi exibida numa reunião de executivos a que o próprio acusado estava presente. O que aconteceu com ele? Foi demitido, com todos os direitos que a lei garante a um trabalhador honesto.

 
Fotos Renato dos Anjos/Claudio Rossi

Sakagushi, ex-diretor do banco Noroeste, vendido para o espanhol Santander: 242 milhões de dólares desaparecidos e processo por danos morais

Um caso notório de fraude que vitimou o Banco Noroeste, comprado pelo espanhol Santander em 1997, até hoje não tem culpado punido. Logo depois da compra, foi descoberto um rombo de 242 milhões de dólares no caixa da instituição brasileira – nada menos que a metade de seu valor. O diretor da área internacional do Noroeste, Nelson Sakagushi, foi inicialmente apontado como culpado pelo desvio. Sua alegação de que investiu e emprestou o dinheiro nunca foi comprovada. Agora Sakagushi diz que, no caso, a vítima é ele. Move um processo por danos morais contra o banco. Os 242 milhões de dólares nunca voltaram ao caixa.

Especialistas que investigam fraudes dentro de empresas garantem que o número de ocorrências e o volume das negociatas vêm crescendo a cada ano. A Kroll, fundada em 1972 nos Estados Unidos, famosa por ter descoberto as contas secretas do presidente iraquiano Saddam Hussein, desembarcou no Brasil em 1993, contratada pela Câmara dos Deputados para investigar o caso PC Farias. Não conseguiu muita coisa naquele caso. Mas prosperou assim mesmo. Está abrindo seu segundo escritório no Brasil. Outra empresa do ramo, a Antão Fernandes & Associados, viu sua clientela crescer mais de 30% neste ano. Marcelo Gomes, sócio-diretor da GBE, empresa especializada na investigação de fraudes, diz que há três anos o custo da corrupção representava 1% do faturamento das empresas. Hoje o porcentual pulou para 8%. Os processos também ficaram mais complexos. Antes, o roubo envolvia a participação de dois funcionários, no máximo. Agora, os especialistas estão descobrindo quadrilhas inteiras dentro das empresas, formadas em alguns casos por mais de vinte pessoas.


Antonio Milena
O contador Marcelo Gomes, que defendeu tese sobre fraudes em empresas na Universidade de São Paulo: a corrupção engoliria 8% do faturamento das companhias brasileiras


Marcelo Gomes, que é contador, acaba de defender uma tese a respeito do assunto na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. "A abertura da economia fez com que as empresas se organizassem melhor, adotassem processos mais rígidos de controle interno para suportar a concorrência, e isso acabou revelando uma porção de falcatruas que antes ficavam escondidas", diz. Em seu trabalho ele traça o perfil dos fraudadores:

A maioria é formada por funcionários do sexo masculino que não têm mais perspectiva de ascensão profissional.

Os mais jovens costumam agir a longo prazo. Os mais maduros dão um único e grandioso golpe.

Entre os casos desvendados, 6% envolvem mais de 1 milhão de dólares.

Os golpes mais comuns ocorrem nos departamentos de compras.

A legislação brasileira e os processos judiciais não favorecem quem quer punir malandros corporativos. O processo criminal, em que se pede indenização, pode levar muitos anos até ser decidido. E, enquanto as coisas tramitam, o empregado ainda pode mover outro processo na Justiça contra seus empregadores, alegando ter sofrido danos morais, e ganhar outra bolada. "A situação da empresa é tão frágil que é mais seguro, para ela, manter o fraudador como empregado, em outra área, sob controle, do que processá-lo", diz o advogado gaúcho Eduardo Spalding Duarte, especialista em causas cíveis. "Em geral, o que acontece é que as empresas se sentem tão sem saída que preferem pagar para não continuar tendo prejuízo. Demitem o sujeito sem nem ao menos falar em justa causa."

Não é à toa que a Transparency International, uma ONG sediada na Alemanha que é o maior fiscal da roubalheira do planeta, colocou o Brasil em 49º lugar entre noventa países, em seu ranking de corrupção, pendendo mais para a Nigéria (o país mais corrupto do mundo) que para a Finlândia (o mais honesto). Nem todas as companhias agem da mesma forma. Existem as exceções. A Dow Agrosciences, a divisão de produtos agrícolas da americana Dow Chemical no Brasil, foi roubada em 20 milhões de dólares por dez funcionários em 1992. O processo criminal corre na Justiça há oito anos. "Ainda tenho esperança de reaver o dinheiro. Mas, mais importante que isso, é reafirmar os valores éticos de nossa empresa. O fato de que não toleramos desonestos em nossos quadros", diz Kazuo Ojo, diretor de assuntos corporativos da Dow em São Paulo. Ainda assim não há certeza de punição para os culpados. Se um dia os ex-funcionários de Ojo forem condenados, pegarão no máximo quatro anos de prisão.

Diante desse cenário, os especialistas recomendam a prevenção como o melhor remédio. Não deixar o fraudador entrar na empresa é menos penoso que arcar mais tarde com os prejuízos financeiros e de imagem. As firmas especializadas propõem que os empresários sejam mais rigorosos, a ponto de verificar a situação perante o Fisco e a ficha policial de candidatos a cargos mais sensíveis. Mesmo providências que qualquer dona-de-casa precavida toma, como pedir carta de recomendação a uma empregada doméstica, são aconselhadas por eles. Quem está no ramo da prevenção é mais desconfiado que as demais pessoas. Eles sugerem que, como cuidado adicional, não se deve permitir a um recém-contratado cujo passado não é conhecido trazer para a empresa diversos de seus ex-colegas. "É natural que os fraudadores andem em bando", diz Marcelo Gomes, o consultor da GBE.

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  O ninho da corrupção

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco