Suíte
para dois. Mesmo
De
olho em um mercado que tem boa
renda e vontade de gastar, motel
oferece quartos só para gays
Marcelo
Camacho
Ricardo de Cumptich
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| Dois
salários, sem filhos, alto consumo: os pares homossexuais
na mira dos negócios |
O casal
de namorados troca chamegos numa boate e resolve curtir o fim dos
embalos na intimidade de um quarto de motel. Se os protagonistas
dessa história formarem um casal heterossexual, o programa
acaba em diversão. Se o par for homossexual, pode ser o início
de uma peregrinação. Isso mesmo: motéis, quem
diria, salvo raras exceções, não aceitam casais
do mesmo sexo em suas dependências, e quando aceitam muitas
vezes exigem pagamento de dois pernoites como se duas pessoas
que aparecem juntas na entrada do motel fossem instalar-se em quartos
separados. De olho nos sem-motel, o Le Baron, um dos mais tradicionais
de Niterói, cidade vizinha ao Rio, inaugura no fim de outubro
duas grandes suítes destinadas ao público homossexual.
Vai ter cama redonda, claro, chuva artificial e até decoração
específica. A suíte greco-romana, por exemplo, terá
esculturas com bustos masculinos desnudos e aparelhos de musculação.
Selmy Yassuda
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| Motel
Le Baron: aparelhos de musculação na decoração
especial |
A iniciativa do Le Baron é mais uma porta que se entreabre
num mercado de características peculiares: existe um público
gay cada vez mais ostensivo e uma parcela dele tem poder aquisitivo
cobiçado, mas as iniciativas empresariais dirigidas a ele
ainda são comparativamente tímidas. Potencialmente,
o chamado pink market (mercado cor-de-rosa) é tentador.
Pesquisas feitas nos Estados Unidos sobre o perfil desses consumidores
indicam que casais gays têm, em geral, dois salários
para gastar e nenhum filho para sustentar. E ainda: não economizam
num guarda-roupa vistoso, investem bastante na decoração
da casa, gostam de bons restaurantes e viajam muito pelo mundo.
O turismo dirigido é um dos nichos mais vistosos e já
começa a dar os primeiros passos por aqui. Em São
Paulo, a Álibi, operadora exclusiva para homossexuais que
negocia pacotes com cerca de 200 agências em todo o país,
calcula faturar neste ano cerca de 3,5 milhões de reais.
"É um mercado que não pára de crescer. O público
gay tem muito para gastar, mas também é muito exigente
com o que consome", avalia Franco Reinaudo, o dono do negócio.
Seus clientes, em sua maioria, viajam para o exterior e sempre recebem,
como parte do pacote, dicas sobre a vida gay local.
Menos
segmentação Calcula-se que em 1999 o mercado
gay americano tenha movimentado 340 bilhões de dólares
(mais da metade do PIB brasileiro) e prevê-se que alcance
450 bilhões em 2004. Os números são do site
americano Gay Financial Network, especializado em negócios
voltados para o público homossexual. Sites para esse mercado,
aliás do tipo que contém algum conteúdo
informativo, e não exclusivamente ofertas de encontros e
fotos de nus , são diversos e variados, aqui e lá
fora. O GLS Planet acaba de associar-se ao portal AOL e registra
1 milhão de acessos por mês. A revista gay Sui
Generis, que fechou no início do ano, faz agora sua
volta triunfal na internet, tendo como modelo principal o ex-No
Limite Marcus Werner, depois de receber um investimento de 200.000
reais. No portal UOL, o sucesso é o site Mix Brasil, que
recebe 6 milhões de acessos mensais. Mix Brasil é
também nome de um festival de cinema que neste ano acontece
em cinco capitais brasileiras, com a projeção de trinta
longas-metragens e 130 curtas, a maioria com temática homossexual.
O Festival do Rio BR, que começa nesta semana, traz a quinta
edição da mostra paralela Mundo Gay, que vai exibir
trinta filmes.
Ricardo Benichio
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| Miguez,
na Futuro Infinito: 2 000 títulos para gays e lésbicas,
clientes que "vêm durante o dia, sem medo de mostrar a
cara" |
Não
existem estudos abrangentes sobre esse mercado no Brasil, mas os
indícios são significativos. Uma pesquisa entre leitores
realizada pela revista G Magazine, que exibe nus masculinos
numa tiragem mensal de 120.000 exemplares,
mostrou que 48% dos entrevistados tinham nível superior,
39% pertenciam às classes A e B e a renda média individual
registrada foi de 1.750 reais mensais.
Ao contrário dos Estados Unidos, principalmente, onde tudo,
de campeonatos esportivos a condomínios fechados, tem sua
versão preferencialmente gay, no Brasil esse público
só costuma buscar um nicho próprio quando o assunto
é diversão, cultura e sexo. De resto, integra-se:
faz compras em qualquer supermercado, dirige carros de qualquer
marca, usa roupas de qualquer grife. O escritor João Silvério
Trevisan, autor de Devassos no Paraíso, compêndio
sobre a homossexualidade no Brasil, que vendeu 3.200
exemplares e está indo para a segunda edição,
aplaude essa característica. "Nos Estados Unidos, tudo é
muito segmentado. Não gosto disso. Gueto não é
conquista em nenhum lugar do mundo", compara.
Programa
de TV O mercado editorial é um dos que mais se
aproveitam dos novos tempos. A pequena Edições GLS,
que existe há dois anos, já colocou no mercado 22
livros sobre a sexualidade gay e lésbica balanço
suficiente para chamar a atenção das editoras de grande
porte, como a carioca Record, que lançou um selo, Contraluz,
específico para livros gays. Em São Paulo, o endereço
para encontrar essas publicações é a livraria
Futuro Infinito, especializada em literatura gay, lésbica,
bissexual e até sadomasoquista. "Só para gays e lésbicas,
são 2.000 títulos", orgulha-se
Sérgio Miguez, dono da loja. "E, o melhor, num lugar onde
as pessoas vêm durante o dia, sem medo de mostrar a cara."
Bares
e boates gays, antes redutos fechados e só freqüentados
por quem era do ramo, também estão saindo do armário.
Em São Paulo, a principal cena gay, hoje, acontece no bairro
dos Jardins, lugar de gente bem de vida, onde ficam restaurantes
transados como o Allegro e boates lotadas como a Disco Fever
estabelecimentos tão bem-sucedidos que, até o fim
do ano, deve ser registrada na prefeitura uma associação
comercial só de empresários do meio gay. No Rio, a
noite homossexual ferve no Galeria Café, em Ipanema, instalado
numa rua onde três outras casas de freqüência gay
também marcam presença. Em Copacabana, a boate Le
Boy, tradicionalérrima no ramo, recebe 1.500
pessoas nos fins de semana. Até no quesito encontro os homossexuais
se preparam para dar um passo à frente dos velhos classificados.
O Fica Comigo, programa de promoção de namoros
que a apresentadora Fernanda Lima comanda na MTV a partir desta
semana, anunciou que está plenamente aberto aos interessados
gays.
Fotos Selmy Yassuda
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| Gays
e lésbicas como tema: cartazes de filmes presentes em mostras
de cinema do Rio de Janeiro e de São Paulo |
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