Luiz
Felipe de Alencastro
Os paradeiros
dos brasileiros
"A
instituição do
voto distrital seguiria
mais de perto o paradeiro dos brasileiros,
desmistificando boa parte das
manipulações
da questão regional"
Um aspecto
interessante da atualidade é o uso da questão regional na
campanha presidencial. O assunto tem sido crucial no desenrolar da história
brasileira. O centralismo da corte do Rio de Janeiro precipitou a queda
do Império, e a República só se firmou porque se
organizou sob o federalismo instituidor da autonomia estadual. Ocorre,
porém, que os interesses regionais são por vezes invocados
arbitrariamente, contribuindo para embaralhar o cenário político.
O fato já existia nos dois séculos passados, mas tomou outras
dimensões depois da fundação de Brasília no
oco do Planalto Central e da amplificação das migrações
interestaduais.
Sede da
capital brasileira durante dois séculos (desde 1763, quando a capital
do vice-reino foi transferida da Bahia), o Rio de Janeiro ganhou tal densidade
política, econômica e cultural que se transformou na escola
da nação para os cidadãos vindos de outras regiões.
Brasília nunca conseguirá atingir esse estatuto privilegiado.
A oposição ao mandonismo brasiliense e a afirmação
da autonomia estadual, concretizada pela vitória do MDB nas eleições
senatoriais de 1974 e pela eleição direta de governadores
em 1982, constituíram uma etapa importante na luta contra a ditadura.
Na ausência
de um pólo aglutinador inconteste no país, as diversidades
regionais servem de arrazoado a todo tipo de argumento. Em certas ocasiões,
o orgulho das origens contradiz até a meteorologia. Durante a Copa
do Mundo, Scolari explicou que sua estratégia rigorosa fora engendrada
no próprio solo gaúcho, onde, segundo ele, o futebol é
jogado em metade do ano "na lama e na neve".
A campanha
presidencial mistura modos sérios e menos sérios de tratar
as disparidades regionais. Depois de dois mandatos seguidos de um presidente
oriundo de São Paulo, o Estado polariza as rivalidades inter-regionais.
Basta lembrar dois dados para medir seu peso na federação.
Com 25,6 milhões de votantes, São Paulo se apresenta como
o maior colégio eleitoral do país e concentra 31% dos empregos,
tendo mais vagas do que as regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte
juntas. O espectro da ameaça paulista é invocado até
no âmbito das campanhas estaduais. Assim, o tucano Aécio
Neves pretende que sua campanha para governador de Minas Gerais esteja
sendo seguida com interesse em outros Estados porquanto sua eventual eleição
confrontaria "a concentração excessiva de poder" em São
Paulo.
No nível
nacional, depois do ensaio malogrado de Roseana Sarney, articulado pelo
catarinense Jorge Bornhausen, é, obviamente, a candidatura de Ciro
Gomes que capitaliza as resistências à preeminência
paulista. Nesse cenário fluido, a evolução da identidade
cultural de Lula ilustra a inconstância dos parâmetros regionalistas.
Apresentado como nordestino diante do "moço fino" Fernando Collor
na eleição presidencial de 1989, Lula flutua entre duas
naturalidades. Se enfrentar Ciro no segundo turno, será tido como
o representante da hegemonia paulista. Caso venha a confrontar-se com
José Serra, sua imagem será de novo nordestinizada.
A questão
regional está sendo agora debatida numa sociedade remexida em toda
a extensão de seu território. Por um lado, o impacto da
globalização acentua o esgarçamento do tecido nacional.
Por outro lado, os desdobramentos regionais da economia e das migrações,
a multiplicação de municípios e as microrregiões
tornam o país mais diversificado, mais espalhado.
Na discussão
recorrente sobre o parlamentarismo e o presidencialismo, sempre se salta
por cima de uma etapa fundamental para o aperfeiçoamento de um
e de outro sistema. Na verdade, ao adequar a eleição de
deputados a contingentes menores de eleitores, a instituição
do voto distrital seguiria mais de perto o paradeiro dos brasileiros,
desmistificando boa parte das manipulações da questão
regional.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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