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Roberto
Pompeu de Toledo
O
sinal de alarme
que vem do Acre
O
que ocorre
no Estado
não
é
só um problema
local.
A ameaça
é contra
o
Brasil
Quando Chico Mendes morreu, em dezembro de 1988, Flaviano Melo era governador
do Acre, Hildebrando Pascoal era chefe do contingente da PM na capital
do Estado e o jornal O Rio Branco mostrava-se capaz de agilidade
sem par. Chico Mendes foi morto pouco antes das 7 da noite, em sua casa,
em Xapuri. Por volta de 20h30, uma hora e meia depois, estacionava à
porta da casa um Gol branco, da reportagem de O Rio Branco, para
a cobertura do ocorrido. Espantosa proeza! Os 180 quilômetros entre
Xapuri e Rio Branco, de onde saíra o carro, já de si precários,
com trechos esburacados de asfalto alternando-se com puro chão
de terra, apresentavam-se ainda piores que o normal, por causa das chuvas.
Outros viajantes que arriscaram o mesmo percurso naquele dia não
o cumpriram em menos de três horas. Um deles, numa Toyota, mais
equipada para enfrentar estradas naquelas condições, levou
três horas e meia. Que Golzinho esperto! Ou então... Ou então,
por aviso do céu, pela leitura dos astros, ou algum fator mais
prosaico, o carro se pôs a caminho antes mesmo de o assassínio
se consumar. Como os profetas e os videntes, soube do que aconteceria
por antecipação.
Catorze anos depois, a decisão do TRE do Acre de impugnar a candidatura
à reeleição do atual governador, Jorge Viana, encontra
Flaviano Melo como o outro candidato a governador, Hildebrando Pascoal,
o homem que fazia picadinho de suas vítimas, na cadeia, mas ainda
considerado o grão-vizir do crime organizado no Estado, e o jornal
O Rio Branco sempre capaz de notáveis feitos. A sessão
em que o TRE julgou a representação contra o governador
arrastou-se noite adentro na quinta-feira 22 e entrou pela madrugada da
sexta-feira 23. Só foi terminar às 4h30. No entanto, às
2h40, a versão eletrônica de O Rio Branco já
anunciava, pela internet, que a candidatura do governador fora impugnada.
Especificava, inclusive, os votos de cada juiz. Mais uma vez, os avisos
do céu, o movimento dos astros, os profetas e os videntes se haviam
posto a serviço do audaz matutino.
O que ocorre no Acre faz soar um sinal de alarme, ou pelo menos deveria
fazer soar, em todo o Brasil. O governador Jorge Viana, do PT, apoiado
pelo PSDB local, é o primeiro chefe do Executivo estadual a opor
resistência a uma frente que, monopolizadora por muitos anos do
poder, e ainda hoje detentora de nacos importantes na polícia,
no Judiciário, no Legislativo e em outros setores, compreende de
assaltantes do erário a chefões do narcotráfico.
Seu governo propiciou, entre outros avanços, a cassação
do mandato de deputado e a prisão de Hildebrando Pascoal. O ingrato
calendário eleitoral brasileiro, ao fazer coincidir eleições
federais e estaduais, executivas e legislativas, joga para segundo plano
tudo o que não é a disputa presidencial. Que se preste atenção,
ao menos, no Acre. O que ocorre no Estado não é um problema
só local. Flagra-se ali o banditismo tentando forçar passagem
para comer o Brasil pela borda. E uma borda sensível, junto a fronteiras
onde se movem com desembaraço as multinacionais do crime organizado.
O Acre é um Estado pequeno. Relações e interesses
ali se entrecruzam como numa vizinhança. Para voltar a O Rio
Branco, e puxar um dos fios, um apenas, da meada dos inimigos do governador,
registre-se que o dono do jornal, Narciso Mendes dono também
de uma televisão, retransmissora do SBT , é autor
de uma frase famosa: "Sou corrupto e corruptor". Acusado em processos
que vão de facilitação de fuga de presos a elisão
fiscal, Narciso Mendes mantém em sua TV um programa, O X da
Questão, que é apresentado pelo deputado José
Aleksandro. Este Aleksandro é o suplente que entrou no lugar de
Hildebrando Pascoal. Ele próprio suspeito de pertencer ao mesmo
esquema, escapou por pouco de ser também cassado. Hoje é
candidato a senador. No programa de TV, especializou-se em fazer campanha
em favor de Hildebrando Pascoal e dos outros 41 integrantes da quadrilha
que se encontram presos. O próprio Hildebrando, por sua vez, ainda
conserva o topete de chefe. Ao ser removido, não faz muito, da
prisão para o fórum, onde deporia num processo de investigação
de paternidade, foi recebido por PMs que, perfilados, bateram-lhe continência.
O que aqui se alinhavou é parte miúda das ameaças
não apenas contra o governador Jorge Viana, e não apenas
contra o Acre, mas contra o Brasil, se o país quer viver na decência
e na legalidade. A suspeita decisão do TRE representa a tentativa
de tirar da disputa eleitoral um concorrente que tem 60% das intenções
de voto. Jorge Viana diz que até agradece o fato de os adversários
procurarem afastá-lo pela via da impugnação. Porque
a outra via... Esta seria sua eliminação física.
As ameaças de morte se sucedem, não é de hoje, contra
ele e a família. Viana só se move cercado de seguranças.
E não considera afastada a hipótese de que ainda venham
a tentar matá-lo. É bom levá-lo a sério. Chico
Mendes também avisava que estava marcado para morrer.
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