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Edição 1 767 - 4 de setembro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

O sinal de alarme
que vem do Acre

O que ocorre no Estado não
é só um problema local.
A
ameaça é contra o Brasil

Quando Chico Mendes morreu, em dezembro de 1988, Flaviano Melo era governador do Acre, Hildebrando Pascoal era chefe do contingente da PM na capital do Estado e o jornal O Rio Branco mostrava-se capaz de agilidade sem par. Chico Mendes foi morto pouco antes das 7 da noite, em sua casa, em Xapuri. Por volta de 20h30, uma hora e meia depois, estacionava à porta da casa um Gol branco, da reportagem de O Rio Branco, para a cobertura do ocorrido. Espantosa proeza! Os 180 quilômetros entre Xapuri e Rio Branco, de onde saíra o carro, já de si precários, com trechos esburacados de asfalto alternando-se com puro chão de terra, apresentavam-se ainda piores que o normal, por causa das chuvas. Outros viajantes que arriscaram o mesmo percurso naquele dia não o cumpriram em menos de três horas. Um deles, numa Toyota, mais equipada para enfrentar estradas naquelas condições, levou três horas e meia. Que Golzinho esperto! Ou então... Ou então, por aviso do céu, pela leitura dos astros, ou algum fator mais prosaico, o carro se pôs a caminho antes mesmo de o assassínio se consumar. Como os profetas e os videntes, soube do que aconteceria por antecipação.

Catorze anos depois, a decisão do TRE do Acre de impugnar a candidatura à reeleição do atual governador, Jorge Viana, encontra Flaviano Melo como o outro candidato a governador, Hildebrando Pascoal, o homem que fazia picadinho de suas vítimas, na cadeia, mas ainda considerado o grão-vizir do crime organizado no Estado, e o jornal O Rio Branco sempre capaz de notáveis feitos. A sessão em que o TRE julgou a representação contra o governador arrastou-se noite adentro na quinta-feira 22 e entrou pela madrugada da sexta-feira 23. Só foi terminar às 4h30. No entanto, às 2h40, a versão eletrônica de O Rio Branco já anunciava, pela internet, que a candidatura do governador fora impugnada. Especificava, inclusive, os votos de cada juiz. Mais uma vez, os avisos do céu, o movimento dos astros, os profetas e os videntes se haviam posto a serviço do audaz matutino.

O que ocorre no Acre faz soar um sinal de alarme, ou pelo menos deveria fazer soar, em todo o Brasil. O governador Jorge Viana, do PT, apoiado pelo PSDB local, é o primeiro chefe do Executivo estadual a opor resistência a uma frente que, monopolizadora por muitos anos do poder, e ainda hoje detentora de nacos importantes na polícia, no Judiciário, no Legislativo e em outros setores, compreende de assaltantes do erário a chefões do narcotráfico. Seu governo propiciou, entre outros avanços, a cassação do mandato de deputado e a prisão de Hildebrando Pascoal. O ingrato calendário eleitoral brasileiro, ao fazer coincidir eleições federais e estaduais, executivas e legislativas, joga para segundo plano tudo o que não é a disputa presidencial. Que se preste atenção, ao menos, no Acre. O que ocorre no Estado não é um problema só local. Flagra-se ali o banditismo tentando forçar passagem para comer o Brasil pela borda. E uma borda sensível, junto a fronteiras onde se movem com desembaraço as multinacionais do crime organizado.

O Acre é um Estado pequeno. Relações e interesses ali se entrecruzam como numa vizinhança. Para voltar a O Rio Branco, e puxar um dos fios, um apenas, da meada dos inimigos do governador, registre-se que o dono do jornal, Narciso Mendes – dono também de uma televisão, retransmissora do SBT –, é autor de uma frase famosa: "Sou corrupto e corruptor". Acusado em processos que vão de facilitação de fuga de presos a elisão fiscal, Narciso Mendes mantém em sua TV um programa, O X da Questão, que é apresentado pelo deputado José Aleksandro. Este Aleksandro é o suplente que entrou no lugar de Hildebrando Pascoal. Ele próprio suspeito de pertencer ao mesmo esquema, escapou por pouco de ser também cassado. Hoje é candidato a senador. No programa de TV, especializou-se em fazer campanha em favor de Hildebrando Pascoal e dos outros 41 integrantes da quadrilha que se encontram presos. O próprio Hildebrando, por sua vez, ainda conserva o topete de chefe. Ao ser removido, não faz muito, da prisão para o fórum, onde deporia num processo de investigação de paternidade, foi recebido por PMs que, perfilados, bateram-lhe continência.

O que aqui se alinhavou é parte miúda das ameaças não apenas contra o governador Jorge Viana, e não apenas contra o Acre, mas contra o Brasil, se o país quer viver na decência e na legalidade. A suspeita decisão do TRE representa a tentativa de tirar da disputa eleitoral um concorrente que tem 60% das intenções de voto. Jorge Viana diz que até agradece o fato de os adversários procurarem afastá-lo pela via da impugnação. Porque a outra via... Esta seria sua eliminação física. As ameaças de morte se sucedem, não é de hoje, contra ele e a família. Viana só se move cercado de seguranças. E não considera afastada a hipótese de que ainda venham a tentar matá-lo. É bom levá-lo a sério. Chico Mendes também avisava que estava marcado para morrer.

   
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