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Até onde prolongar
a vida
Como
médicos e familiares decidem se
devem ou não suspender os chamados tratamentos fúteis, que
apenas mantêm
vivos doentes para os
quais não há
esperança de cura
Diogo
Schelp

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A
prática da eutanásia agir para apressar o fim de
quem está morrendo pode ser considerada homicídio
simples e passível de pena de até vinte anos de prisão.
A esmagadora maioria dos médicos é contra essa atitude,
e os familiares de doentes terminais, mesmo que cogitem praticá-la,
muito raramente têm coragem de fazê-lo. Há um outro
mecanismo, porém, que pode ser usado para encerrar mais rapidamente
a agonia de muitos pacientes terminais. Trata-se da retirada de equipamentos
ou medicações que servem exclusivamente para o prolongamento
da vida de uma pessoa com o quadro clínico considerado irreversível.
Essa possibilidade apresenta-se rotineiramente a familiares de doentes
terminais ou vítimas de acidentes e aos médicos intensivistas,
que trabalham nas unidades de terapia intensiva. Ao contrário do
que acontece diante da hipótese de praticar a eutanásia,
ocorre com certa freqüência a decisão de se retirar
esses chamados suportes de vida, deixando que a natureza cumpra seu curso.
Há muitas razões para justificar essa decisão. A
mais comum é que se quer abreviar o sofrimento daquele doente.
Outra é que a própria família já não
agüenta o padecimento. Mas há também razões
práticas, como a necessidade de abrir vaga na UTI para alguém
que tenha mais chances de sobreviver ou a falta de cobertura de um plano
de saúde.
Um médico intensivista com mais de quinze anos de experiência,
coordenador da UTI num grande hospital, conta que há bem pouco
tempo estava com todas as vagas de seu setor ocupadas. Numa delas, um
paciente que teve perfuração do abdome a bala, com comprometimento
do intestino e infecção generalizada, sobrevivia com o auxílio
de um respirador artificial e não se tinha esperança de
que viesse a melhorar. Era consenso entre os médicos que ele não
sairia do coma. Do lado de fora, três pacientes em estado grave,
mas com perspectiva de melhora, esperavam no pronto socorro por um leito
na UTI. As chances de cada um deles diminuíam a cada hora. "Cheguei
junto ao leito daquele paciente que jamais voltaria a ficar consciente
e diminuí o nível do aparelho que o fazia respirar de forma
artificial", relata o médico. Não era a primeira vez que
ele agia desse modo. Mas, momentos depois, ao retornar, viu que alguém
tinha recolocado o aparelho na regulagem anterior. Quem? "Não perguntei",
ele diz. "Não posso compartilhar minha opinião sobre esses
casos com todos os integrantes de minha equipe."
A
ciência alcançou um ponto em que, em algumas situações,
é praticamente indefinido o tempo pelo qual se pode manter tecnicamente
viva uma pessoa com órgãos que já faliram irremediavelmente.
Recentemente, o pai de um menino de 8 anos foi avisado de que aquele jovem
paciente internado numa UTI não sobreviveria. Na mesma hora, ele
foi buscar roupas para vestir o corpo do filho. Mas teve de esperar uma
semana pela morte do garoto, tempo que a parafernália tecnológica
ainda o sustentou vivo. Imaginava-se que a vitória da ciência
traria alguma alegria e muita esperança. Isso aconteceu. Mas, ao
mesmo tempo, se constatam o sofrimento de muitos doentes, a angústia
dos familiares e o conflito ético entre os médicos. O nome
técnico para essa situação é distanásia
prolongamento da vida. Na rotina dos hospitais, sempre se faz em
tom muito baixo a discussão sobre deixar que pacientes sobrevivam
nessa condição ou retirá-los dela para que morram
brevemente.
VEJA entrevistou 27 médicos que conhecem bem esse cenário,
especializados em ética ou acostumados ao trabalho com pacientes
graves. Vinte e seis disseram ser a favor da interrupção
dos chamados tratamentos fúteis, que não agem para curar
o paciente. Nos depoimentos que complementam esta reportagem, é
possível ver como varia o grau de intervenção admitido
por cada um. Há os que acham que se podem desligar todas as máquinas
e retirar os medicamentos inúteis e há os que consideram
perversa a hipótese de suspender o uso do respirador, tecnicamente
levando o paciente à morte por asfixia. Outros admitem o uso de
sedativos tão fortes que, enquanto aliviam dores, tornam mais próximo
o fim, por seus efeitos colaterais. Pacientes de câncer submetidos
a longos tratamentos quimioterápicos podem apresentar tal grau
de sensibilidade nos órgãos internos que é impossível
saber se estão sendo tratados ou maltratados quando se tenta alimentá-los
com sondas devido à intensidade dos efeitos colaterais do tratamento.
Mesmo assim, existem profissionais que acreditam que, sem a alimentação
por sondas, os pacientes acabam morrendo de desnutrição,
e não em razão da doença.
Alguns médicos a minoria são contra a suspensão
de tratamentos que prolongam a vida. "Tirar um suporte de vida é
o mesmo que praticar eutanásia", afirma, por exemplo, Milton Glezer,
clínico-geral do pronto atendimento do Hospital Albert Einstein,
de São Paulo, e coordenador de captação de órgãos
do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Ninguém tem
o direito de tomar a decisão de abreviar a vida de uma pessoa."
No projeto de reforma do Código Penal brasileiro está previsto
um artigo regulamentando um meio-termo, a ortotanásia, a "morte
no tempo certo". Se for aprovado, não será mais crime a
conduta do médico que suspender o chamado tratamento fútil,
destinado a manter viva a vítima de enfermidade ou acidente cuja
cura e recuperação da consciência estão além
dos limites conhecidos da medicina. Não há notícia
de condenação por eutanásia no Brasil nem se conhece
nenhum especialista que defenda o maior entusiasta dessa solução,
o médico americano Jack Kevorkian, que ajudou 130 pacientes terminais
a se matar com doses de uma substância letal. Para quem, agindo
por compaixão de um familiar que sofre antes da morte, venha a
praticar a eutanásia, o projeto do novo código estabelece
reclusão de dois a cinco anos. Para os médicos, a mudança
na lei significará o fim de um tormento. "Deixar que um paciente
morra de forma digna não tem nada a ver com eutanásia ou
com acelerar a morte", diz Edson de Oliveira Andrade, presidente do Conselho
Federal de Medicina.
Tenha lá o nome que tiver, o fato é que vidas são
diariamente abreviadas nos hospitais brasileiros pelas mais diversas razões
e com os métodos mais variados. Prolongar artificialmente a vida
tem um custo alto e esse é um argumento muito utilizado
contra os tratamentos fúteis. Não há estatísticas
no Brasil, mas é fácil estimar que, se existe pelo menos
um paciente nessas condições em cada uma das 1.500 UTIs
do país, gastam-se no mínimo 4,5 milhões de reais
por dia. Isso dá 1,6 bilhão de reais por ano, dinheiro suficiente
para levar o programa federal do Bolsa-Alimentação
de 15 reais por pessoa à metade da população
brasileira. "É uma injustiça social gastar recursos com
pacientes sem prognóstico de sobrevivência", afirma José
Maria Orlando, diretor da Associação de Medicina Intensiva
Brasileira. Hoje, há uma lei que praticamente estimula os hospitais
a fazer esses gastos em determinadas situações. Essa legislação,
criada há quatro anos, impede que planos de saúde imponham
limites para internações em UTIs. "Isso é um incentivo
ao prolongamento da vida por prazo indeterminado qualquer que seja a situação
do paciente", diz Arlindo de Almeida, presidente da Associação
Brasileira de Medicina de Grupo.
Algumas empresas têm planos que oferecem tratamento em casa a muitos
doentes, mas essa não é uma alternativa para os casos que
dependem de equipamentos existentes apenas em hospitais. Nas UTIs, é
possível também ver a ganância servir-se da tecnologia
em hospitais que lucram com a agonia dos pacientes. Nos Estados Unidos,
metade das pessoas passa seus últimos dias de vida entubada, ligada
a um aparelho de respiração. Cerca de 20% de todos os gastos
com saúde naquele país ocorrem nas semanas que antecedem
a morte. Para tentar reduzir esse dispêndio, aprovou-se uma lei
que permite registrar em cartório o desejo de não ter a
vida prolongada artificialmente quando não houver perspectiva de
cura. O ex-presidente Richard Nixon havia feito isso e pôde morrer
em paz, em 1994, vítima de um derrame cerebral. No Brasil, uma
lei estadual sancionada pelo então governador Mário Covas,
de São Paulo, estabeleceu em 1999 o direito de um doente terminal
recusar o prolongamento de sua agonia e optar pelo local da morte. Dois
anos depois, Covas, com câncer na bexiga, usou essa lei.
Antonio Milena
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"Ele não queria vir para o hospital
de jeito nenhum"
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Leia
o depoimento de Matilde Papa
(sentada, em primeiro plano, ao lado de sua irmã Maria Aparecida)
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Só algumas doenças permitem que essa decisão seja
tomada antecipadamente pelo próprio doente. É diferente
o caso de um coma posterior a uma parada cardíaca ou a um acidente
de trânsito. Sobra para médicos e família, então,
a difícil decisão. A escolha da família é
sempre emocional, mas tem muitos matizes. O primeiro impulso é
manter vivo o parente. Se o hospital é público ou há
um plano de saúde consistente na história, essa determinação
dura mais tempo. Quando têm de pagar pelo tratamento, há
uma tendência de enfrentar mais cruamente a realidade, optando por
deixar a natureza seguir seu curso. Daí a frase mais ouvida nessas
situações: "Doutor, só queremos que ele não
sofra". A ambigüidade de sentimentos esfarrapa as pessoas envolvidas
nessa decisão. "Ao mesmo tempo que os familiares acham, racionalmente,
que é melhor a morte para encerrar aquele sofrimento, também
querem, afetivamente, manter a pessoa viva", diz Ana Helena D'Angelo,
psicóloga da UTI do Hospital Nove de Julho, de São Paulo.
Padres, rabinos, religiosos muçulmanos e pastores ouvidos por VEJA
dão os mesmos conselhos que qualquer pessoa de bom senso daria:
se a morte é inevitável, deve-se procurar que aconteça
com o mínimo de sofrimento. Às vezes, há surpresas
nesse caminho. Acontecem casos de pacientes que, desligados dos equipamentos,
para que possam morrer naturalmente, permanecem em estado vegetativo por
anos quando têm cuidados de enfermagem e recebem pelo menos a alimentação
por meio de sondas. O princípio genérico contra o prolongamento
inútil da vida é antigo. Na década de 50, o papa
Pio XII manifestou claramente que ninguém é obrigado a receber
tratamentos exagerados para manter a vida. Bem antes, 400 anos a.C., o
filósofo grego Sócrates disse: "Preferirei morrer a mendigar
servilmente a vida e fazer-me outorgar uma existência mil vezes
pior que a morte".
Dos médicos se espera uma decisão técnica. Só
que também entre eles há graus variados de entendimento
sobre o quê e como fazer. Alguns aceitam apenas suspender os antibióticos
ao final de um combate fracassado de uma infecção. Outros
acham que se pode retirar qualquer suporte artificial de vida. "Não
há diferença moral entre tirar um ou outro recurso", diz
Marco Segre, diretor jurídico do Conselho Regional de Medicina
do Estado de São Paulo. "Mas na prática se sabe quanto é
difícil decidir tirar o respirador artificial", diz Segre. Esse
é o equipamento mais utilizado para dar suporte de vida, segundo
a linguagem médica. Cerca de 45% dos pacientes de UTI vivem com
esse tipo de auxílio. Retirá-lo é um tabu, porque
muitas vezes, sem ele, a morte acontece imediatamente. A sensação
de que o gesto mata o paciente é mais evidente do que com a retirada
de outros equipamentos. Na diálise assistida, usada para suprir
a falta de funcionamento dos rins, a suspensão permite que aquele
organismo resista, até que geralmente a intoxicação
o mate. Boa parte dos médicos ouvidos para esta reportagem tinha
os olhos cheios de lágrimas ao falar de detalhes tão crus
em situações práticas de sua carreira. Todos concordam
que drogas para aliviar a dor e manter o doente tranqüilo nunca devem
ser suspensas. Há alguns desses remédios que apresentam
duplo efeito: reduzem a dor e apressam a morte. A morfina é um
deles. "Nesse caso, a droga está apresentando um efeito colateral
plenamente aceitável para um doente terminal", diz Paulo Antônio
Fortes, professor de bioética da Faculdade de Saúde Pública
da Universidade de São Paulo.
É fácil notar como a história da tecnologia médica
evoluiu na cura de muitas doenças ao mesmo tempo que tornou a morte
um processo longo e potencialmente sofrido. Um século atrás,
considerava-se morta a pessoa que parasse de respirar. Na década
de 50, quando se inventaram as máquinas de respiração
assistida, a morte passou a acontecer quando o coração parava
de bater. As reanimações cardiorrespiratórias surgiram
nos anos 60, e o conceito de morte mudou de novo. Ela passou a ser considerada
um evento certo quando se constatasse que parara de funcionar o encéfalo
conjunto formado por cérebro, cerebelo e tronco cerebral.
As coisas continuam assim. Há até emissão de atestado
de óbito para quem tem morte encefálica, permitindo que
se façam os transplantes enquanto diversos órgãos
estão em funcionamento. É no ponto anterior a esse estágio,
quando o encéfalo ainda funciona, que se pode ter alguém
submetido à chamada distanásia, o prolongamento inútil
da vida. Alimentada por sonda, respirando com aparelhos, tendo o coração
ajudado por uma máquina e as funções renais por outra,
a pessoa vai vivendo enquanto seu encéfalo se mantém operando
ou até que ocorra um colapso maior no organismo.
UTIs não foram criadas para essa extensão sem sentido do
processo de morte, mas pode acontecer de serem usadas assim também
porque há uma tendência, entre muitos médicos, de
encarar a perda de um paciente como um fracasso profissional. "Os médicos
tendem a ver a morte como uma doença para a qual se deve procurar
obsessivamente a cura", diz o padre Leo Pessini, vice-presidente da Sociedade
Brasileira de Bioética e autor de um livro sobre distanásia.
Ele, como outros especialistas, chama de "obstinação terapêutica"
a atitude de médicos que recorrem a tratamentos que não
vão curar nem dar bem-estar ao paciente, mas apenas prolongar sua
agonia. "Acontecem até casos de pacientes que recusam conscientemente
tratamentos fúteis, mas assim mesmo o médico, do alto de
sua arrogância, resolve insistir", diz o professor Paulo Fortes,
da Universidade de São Paulo. Criam-se prisioneiros da tecnologia,
entubados, ligados a fios e máquinas, que simplesmente não
podem abandonar a vida. Um caso famoso, ocorrido em 1980, foi o do marechal
Josip Broz Tito, então presidente da Iugoslávia. Vítima
de um edema pulmonar, Tito passou seus últimos dois meses de vida
ligado a aparelhos apenas porque seus partidários não queriam
admitir que um homem como ele pudesse morrer.
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